Nº 1269

Partilha as tuas alegrias
A alegria de alguém pode e deve ser fonte de alegria para muitos, porque, se não for partilhada, perderá a força e o sentido.
Acontece que, em alguns momentos, alguns de nós têm uma alegria e não têm com quem a partilhar. É tão triste que essa alegria acaba por se transformar numa dor profunda.
Tal como é importante escutar quem nos expressa um sofrimento, é também essencial que demos toda a nossa atenção a quem connosco quer dividir e multiplicar algo de muito bom na sua vida. As alegrias florescem assim que são semeadas, mas só se houver terra fértil: um coração aberto ao outro, quase esquecido de si mesmo.
Quem de entre nós é capaz de se alegrar com a alegria de alguém? Não é fácil. O mais natural é que essa alegria seja superficial e passageira. Porque será? Talvez porque, perante uma tristeza do outro, também não nos abrimos por completo. O outro, muitas vezes, não é visto como um igual.
Assim, quando somos nós — quando sou eu —, é muito raro encontrar alguém capaz de deixar de lado tudo o que em si é motivo de júbilo para se entristecer comigo ou para se alegrar com a minha alegria, esquecendo as próprias desgraças. Encontrar alguém assim é encontrar um tesouro. Ser alguém assim é ser um anjo.
Por maior que seja um bem, se não tivermos com quem o partilhar, não será uma alegria conquistá-lo.
Quem esconde os altos e baixos da sua vida vive uma espécie de pobreza: a miséria de estar só. E, no entanto, talvez sejam os pobres — os que têm pouco para dar — os mais felizes, porque partilham o pouco que têm.
Sejamos nós capazes de dar sem esperar nada em troca e de receber sem sentir qualquer obrigação de o retribuir. O amor é puro e gratuito.
MEDITAR
Na tempestade Deus estende-nos a mão
Lago da Galileia, a paisagem que Jesus mais gostava, o ambiente que era mais familiar para Pedro. Gosto desse pescador que se parece comigo, um homem de água e pedra. Gosto dele pelo seu pêndulo bem humano entre a sua fé grande, infantil e um pouco louca, que o empurra para fora do barco, e aquela fé curta e contraída que o faz afundar; pela capacidade de sonhar que faz nascer milagres, mas que improvisa um medo que o faz afundar.
Homem de pouca fé, porque duvidaste? Pedro dá passos milagrosos no lago, na tempestade, e em pleno prodígio a sua fé entra em crise: "Senhor, estou a afundar-me!”. O milagre não produz fé. Os milagres não fazem ir ao encontro de Jesus.
Vendo que o vento era forte, assustou-se: Ao vento não o pode ver, mas agora Pedro não tem já olhos fixados em Jesus, mas apenas para as ondas, a tempestade, o caos. “Não consultem os vossos medos, mas as vossas esperanças e sonhos” (João XXIII).
Em vez disso, Pedro pede conselho aos seus medos e afunda-se. No meio do milagre, dúvida, mas enquanto está preso na dúvida crê: "Senhor, salva-me!". Deus salva, esta é a fé. O que faz Pedro com o catecismo enquanto se afunda? A raiz inalienável da fé é um grito que permanece nos nossos corações: Senhor, preciso de Ti, salva-me. Nada o apaga, nem no homem mais perdido ou distraído, nem sequer no descrente.
O momento do naufrágio, do medo, chega para todos. O primeiro passo da fé é um grito. Ou ainda o gemido de dor sem palavras: eu preciso! Todos nós experimentamos o início de uma descida nas águas do desespero, um fracasso nas relações humanas, uma doença grave, e talvez aí mesmo tenhamos encontrado a força de gritar por Ele, sem mérito algum, pela coragem de confiar e acreditarmos em nós mesmos.
E estendeu um pouco mais aquela mão, que nunca deixou de se estender para nós.
E nós aguentamos, conseguimos. Quantas vezes fomos atirados para fora! Porque milagres, são até demais, só que nunca bastam para uma fé pequena. E é por isso, por não converterem ninguém, que “Deus faz milagres com relutância” (João da Cruz).
Porque sou padre e crente? Porque enfrentei as minhas tempestades e não fugi; Olhei nos olhos as ondas e o vento e o medo e gritei. E as minhas feridas, as feridas que também me fiz, Deus curou-as com uma carícia. E disse-me: estou aqui, não tenhas medo. Ali mesmo o Senhor se junta a nós, no centro da nossa pequena fé.
Estende-nos a mão, não aponta o dedo para nos acusar, mas estende a mão para nos agarrar. E então a tempestade torna-se carícia, o grito na tempestade torna-se um abraço entre o homem e o seu Deus.
Ermes Ronchi
Os sinos da minha Aldeia: quando o coração da terra batia
Houve um tempo em que o sino era o coração da aldeia.
Não era apenas um som. Era uma presença.
Ao romper da manhã, acordava os campos antes do sol. As portas abriam-se, o cheiro a caldo espalhava-se pelas casas, os animais eram soltos dos currais e as enxadas começavam a rasgar a terra. Ninguém precisava de olhar para o relógio. Bastava escutar o sino.
Ao meio-dia, as badaladas atravessavam montes e vales. Era o sinal para pousar as ferramentas, regressar a casa, sentar a família à mesma mesa e agradecer o pão de cada dia.
Quando havia festa, o sino sorria. Tocava com uma alegria que parecia contagiar toda a aldeia. Nas romarias, nos casamentos, nos batizados, era como se dissesse a todos: "Venham! A vida merece ser celebrada."
Mas também sabia chorar. Quando alguém partia deste mundo, o seu toque era diferente. Mais lento. Mais pesado. Bastava ouvi-lo para as conversas se interromperem, as mãos pararem o trabalho e os chapéus se descobrirem. Sem mensagens, sem redes sociais, toda a aldeia sabia que alguém precisava de uma oração.
O sino não marcava apenas as horas. Marcava a vida.
Marcava a alma de um povo.
Hoje, continuamos a ouvir muitos sons, mas escutamos cada vez menos. O ruído das notificações abafou o toque dos sinos. Vivemos de olhos presos aos ecrãs e deixámos de levantar os olhos para os campos, para as montanhas, para os rios, para as planícies... Sabemos tudo o que acontece no mundo... mas já não sabemos o que acontece dentro de nós.
Talvez seja por isso que os sinos já não sejam o coração da aldeia.
Não porque tenham deixado de tocar.
Mas porque nós deixámos de os ouvir.
E quando um povo deixa de escutar aquilo que lhe recorda o essencial, corre o risco de perder muito mais do que uma tradição. Perde a memória, as raízes e, pouco a pouco, perde também a capacidade de auscultar a própria vida.
Ainda hoje, sempre que um sino rompe o silêncio, parece repetir a mesma pergunta:
"Onde anda o teu coração?"
Talvez valha a pena parar por um instante e escutar. Porque, enquanto houver um sino a tocar, haverá sempre um caminho de regresso a casa.
Padre João Torres
PENSAMENTO DA SEMANA
Calma.
Outra das minhas palavras favoritas.
Calma principalmente no coração.
Calma na pressa dos dias, que amanhã já são anos.
Calma para contemplar o pôr-do-sol, a lua que rasga a noite, as gotas de orvalho pela manhã.
Calma para sentir o cheiro das flores e a brisa do mar.
Calma para saborear a maçã.
Calma para olhar nos olhos, para escutar atentamente, para acordar a Alma.
Calma para perceber que com calma o mundo também avança.
C(alma) que o amor nunca falha.
INFORMAÇÕES
MISSA NO SANTUÁRIO DA CALDEIRA
No próximo domingo, 16 de agosto, às 16h00 horas.
BAZAR ERMIDA BOM JESUS
Todas as pessoas que quiserem colaborar com donativos para o Bazar da Ermida do Bom Jesus da Fajã Grande, façam o favor de entregar os prémios à Vera Paiva ou à Susana Paiva.
A Festa do Bom Jesus será de 23 a 27 de setembro.
Faça download desta Carta Familiar em formato PDF: Nº 1269
Agenda Pastoral
Destaque
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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