Nº 1268

 

As conversas que curam almas

Com certeza já estiveste numa conversa em que simplesmente ”desligaste” e deixaste de estar presente, porquê? O que te fez não querer ouvir?

Mas também tenho a mesma certeza de que já tiveste conversas para as quais desejas-te não terem fim de tão boas que são. Certo?

O que será que as distingue? São as pessoas, os temas, o sítio? 

É difícil atribuir responsabilidades mas reconheço que não é fácil teres uma conversa em que te sintas escutada tanto como ouvida. Não me refiro a uma moeda de troca mas da reciprocidade da conversa.

Por vezes, até gostamos muito de um amigo, mas ele não tem a capacidade de desenvolver uma conversa com profundidade e ficamos ali a discutir o mais trivial que existe.

Outros são de tal ordem egoístas que nunca nos perguntam se estamos bem, mas afirmam e constatam que “estamos bem”.

Raras são as conversas em que se pergunta o que se pensa, o que se sente sobre um assunto sem que degenere na discórdia ou na desvalorização do que pensas por força de um rótulo qualquer.

Gosto de falar com pessoas que me perguntam sobre as minhas coisas, os meus pensamentos, os meus projetos. Pessoas que se preocupam em sair do óbvio e do supérfluo para esventrar aquilo que às vezes precisa de ser falado e oficializado.

Recentemente tive um jantar com uns amigos que têm esse dom! O dom de nos porem tão à vontade que falamos das nossas coisas sem filtros e ao mesmo tempo sem domínio absoluto. Falamos do que sentimos e sim, sentimento puxa sentimento com mais facilidade do que imaginamos e quando te aperceberes é um pedacinho da alma que curaste.

Podemos todos treinar melhor essa capacidade de falar e de ouvir mas essencialmente de nos conhecermos mais e melhor. Como? Podemos começar por fazer mais perguntas em vez de afirmações.

 Raquel Rodrigues

 

MEDITAR

Pão de Deus dado e doado

Evangelho do pão que trasborda das mãos, dos cestos (Mateus 14,13-21). Sinal a proteger com particular cuidado, narrado por seis vezes pelos Evangelhos, repleto de promessas e profecia.

Jesus viu a grande multidão, sentiu compaixão dela e curou os seus doentes. Três verbos reveladores (ver, sentir, curar) que abrem janelas para os sentimentos de Jesus, para o seu mundo interior.

Viu uma grande multidão, o seu olhar não desliza sobre as pessoas, mas pousa-se sobre no singular, vê-as uma a uma. Para Ele, olhar e amar são a mesma coisa. E a primeira coisa que erguer-se de toda aquela gente e que o toca no coração é o seu sofrimento: e sente compaixão por eles.

Jesus experimenta a dor pela dor do ser humano, é ferido pelas feridas de quem tem à sua frente, e é isto que Lhe faz mudar os programas: queria ir para um lugar deserto, mas agora o que dita a agenda é a dor do ser humano, e Jesus mergulha no tumulto da multidão, sorvido pelo vórtice da vida dolorosa.

Primeiro vem a dor. O mais importante é quem padece: na carne, no espírito, no coração. E da compaixão florescem milagres: cura os seus doentes. O nosso maior tesouro é um Deus apaixonado que padece por nós.

O lugar é deserto, já é tarde, esta gente tem de comer… Os discípulos, na escola de Jesus, tornaram-se sensíveis e atentos, têm as pessoas no coração. Jesus, no entanto, faz mais: mostra a imagem materna de Deus que recolhe, nutre e alimenta cada vida, e insta os seus: vós mesmos, dai-lhes…

As emoções devem tornar-se comportamentos, os sentimentos amadurecer em gestos. Dar de comer: «A religião não existe só para preparar as almas para o céu: sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta Terra» (“Evangelii gaudium”, 182). Dai-nos o pão, invocamos nós, dai-lhes, insiste Ele. Uma religião que não se ocupa também da fome é estéril como o pó.

O milagre do pão é narrado como uma questão de mãos. Um multiplicar-se de mãos, mais que de pão. Que passa de mão em mão: dos discípulos a Jesus, d’Ele aos discípulos, dos discípulos à multidão.

Então, abre as tuas mãos. Qualquer que seja o pão que podes dar, não o retenhas, abre a mão fechada. Imita o rebento que se entreabre, a semente que se fende, a nuvem que derrama o seu conteúdo.

Que direito têm os cinco mil de receber pão e peixe? O seu único título é a fome. E o pão de Deus, o das nossas Eucaristias, não o empoeiremos nunca na alternativa mesquinha entre pão merecido ou pão proibido: é o pão doado, com o arrebatamento da divina compaixão.

Pão feliz e imerecido, para os cinquenta mil naquele entardecer na margem do lago, para todos nós na margem de cada uma das nossas noites.

Ermes Ronchi

 

Se a mesa pudesse falar

Se a mesa onde nos sentamos para comer pudesse falar,

que histórias contaria?

Segredos sussurrados.

Verdades ditas em voz baixa.

Histórias que ali nasceram e foram mudando, cada vez que voltavam a ser contadas.

Falaria das preocupações confiadas entre suspiros;

da dor desnudada na esperança de encontrar alívio;

das lágrimas que corriam como poças de chuva;

da tristeza salgada dos corações em luto.

Mas também dos risos,

das travessuras de outros tempos que voltavam à conversa;

de gargalhadas tão contagiantes

que faziam tremer as pernas da mesa.

E de tudo o que sobre ela foi servido:

dias de abundância;

mesas de festa;

panelas cheias de alegria.

E também dias de escassez,

quando apenas restavam algumas sobras

e a silenciosa pobreza dos pratos quase vazios.

Se a mesa pudesse falar,

recordaria os pequenos tesouros da vida quotidiana:

os animais de estimação à espera de uma migalha;

as crianças escondidas debaixo dela, à procura de um lugar onde pudessem brincar ou simplesmente estar.

E, claro, também teria algumas queixas:

as migalhas de bolo; as manchas de café;

as marcas pegajosas dos dedos; as côdeas abandonadas;

as latas vazias; as garrafas de cerveja;

e os saquinhos de chá, esquecidos nas chávenas, como se ainda respirassem.

Como deve ser estranho para uma mesa tão fiel

que, quando a família se reúne para celebrar o Dia de Ação de Graças,

quase ninguém faça uma pausa para agradecer

àquela mesa,

esse dom silencioso que nunca deixa de escutar;

que acolhe tudo o que sobre ela é colocado;

sempre pronta para mais uma gargalhada ou para ouvir mais uma longa história.

Joyce Rupp

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

A contemplação

não é o deslumbramento

diante de um pôr do sol,

nem o canto incessante

das aves do céu.

Nem sequer é uma emoção.

É a consciência

da presença de Deus,

que é conhecido e amado

no mais íntimo do ser.

Clifton Wolters


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Nº 1276

Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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