Nº 1265

A flor que não vemos
A beleza que nos escapa ao olhar
Este texto é sobre a arte de ver.
Sobre a atenção aberta e recetiva que nos permite reconhecer a beleza que tantas vezes está diante de nós — mas que não vemos.
Há alguns anos, participei na Escola de Verão da Buddhist Society of Great Britain.
Numa das manhãs, antes da primeira meditação em grupo, contaram?nos uma história que ficou comigo.
Um jovem monge tinha recebido uma responsabilidade especial: ser o assistente do Abade.
Uma das suas tarefas era limpar o quarto do Abade todos os dias.
E fazia?o com enorme cuidado.
Entrava devagar, varria, tirava o pó, alinhava cada objeto com atenção.
Queria que tudo ficasse perfeito.
Uma tarde, o Abade perguntou?lhe com suavidade:
“Tens a certeza de que não deixaste nada por fazer?”
O jovem monge sentiu um aperto no peito.
Fez uma vénia e voltou apressado ao quarto.
Teria escapado alguma coisa?
Uma mancha?
Um grão de pó?
Procurou por todo o lado:
atrás da porta,
debaixo da mesa,
ao longo das prateleiras.
Quanto mais procurava, mais ansioso ficava.
Mas nada estava fora do lugar.
Regressou então ao Abade e disse:
“Perdão, procurei com muito cuidado, mas não consigo ver que tenha falhado alguma coisa.”
O Abade olhou para ele e perguntou:
“Quando estiveste no quarto, reparaste no poema no canto, e na flor tão bonita no vaso à sua frente?”
O jovem monge baixou os olhos:
“Não… não as vi.”
O Abade respondeu:
“Ao procurares o que estava errado, deixaste de ver a beleza que estava ali.”
MEDITAR
O nosso Deus semeia vida e futuro em todos os lugares
Falou-lhes sobre muitas coisas em parábolas. Magia das parábolas: uma linguagem que contém mais do que diz. Uma história mínima que funciona como um motor: lê-se e acende ideias, evoca imagens, desperta emoções, coloca-te a caminho.
Jesus observa a vida e nascem as parábolas. Observa um semeador, e no seu gesto intui alguma coisa de Deus: tomava histórias de vida e fazia histórias de Deus.
E conta-as, flutuando nas águas do lago, sobre um barco qual púlpito oscilante, a poucos metros da margem. Há ainda uma pequena baía nas proximidades de Tabgha, a cerca de dois quilómetros de Cafarnaum, identificada pelo arqueólogo Bargil Pixner O.S.B., como aquela onde Jesus pregou do barco: as suas margens formam uma encosta semelhante a um anfiteatro.
A acústica é ótima. Há alguns meses, durante uma caminhada com um grupo de amigos, parei bem naquele ponto da margem; por muito tempo, em silêncio, como que perdido na imensa multidão de então, que se agitava aqui mesmo ao meu redor.
Abriu-se uma brecha no tempo, um by-pass de milénios: parecia-me vê-lo, talvez, sentado no barco, ainda que nada me chegasse aos ouvidos senão a emoção do silêncio, de um amor sem palavras. Volto à fonte, à voz viva de Jesus: "o semeador saiu a semear".
Não “um”, mas “o” semeador, que se identifica com o semear, que não faz outra coisa senão lançar sementes divinas, dar vida, fertilizar. Semeador: um dos mais belos nomes de Deus. Um semeador ilógico, que espera também nas pedras, nos espinhos, no piso da estrada; um pródigo incurável.
Um sonhador que vê a vida e o futuro em todos os lugares, convencido de que até o mato se pode transformar em jardim. Das imagens de Jesus emerge uma emocionante visão do mundo: esta nossa história é um ventre, a terra está grávida, tudo à sua volta germina, brota, cresce, expande-se, amadurece.
O Reino espelha-se na primavera da confiança da vida crescente. O semeador, que se diria distraído ou inexperiente, é o nosso Deus que quer abraçar a imperfeição do campo, e ninguém é excluído.
Somos todos feridos, opacos, duros, espinhosos, inacabados, todos, mas Ele abraça a nossa imperfeição, porque nos vê além de nós, nos vê como uma semente, história em caminho, vê primavera nos nossos invernos, e espigas futuras, profecia de fome saciada. De facto, o verbo central da parábola é “deu fruto”.
A ética do Evangelho é uma ética do fruto, não da perfeição; uma moral da messe abundante, não uma ilusória ausência de problemas ou defeitos. Cada coração, até o meu, o meu coração distorcido, é um punhado de terra capaz de dar vida às sementes de Deus.
Ermes Ronchi
Onde há amor, há oração
A oração é a expressão máxima do amor. O amor exige presença, silêncio e tempo, muito tempo, ao ponto de quem ama se esquecer de si. A oração é igual.
A oração é uma manifestação de carinho e de fragilidade. O amor é uma vontade de entregar toda a riqueza e, ao mesmo tempo, uma pobreza que estende a mão.
Amar eleva a nossa alma, rezar também.
Somos chamados, se quisermos ser felizes, a amar e a pedir pelos que não nos amam e pelos que não amamos.
É, pois, no silêncio do nosso quarto e no interior do nosso coração que devemos falar com Deus sobre os que amamos e dos que não amamos, procurando amar mais uns e outros.
A oração tem sempre algo de tão belo quanto de clandestino. Não é uma troca nem uma resposta concreta que se deseja; é uma confiança que se deposita em quem se ama e se quer amar. Uma palavra sussurrada pode valer muito mais do que um discurso a uma multidão.
O amor com que se reza é mais importante do que qualquer palavra que se use.
Os que julgam que se bastam a si mesmos, que não precisam nem dependem de ninguém, vivem numa ilusão perigosa que se pode desmoronar a qualquer instante. A vida tende a dar lições muito duras a quem não aprende o que é evidente.
A oração muda quem a faz. Aperfeiçoa os sentimentos e aproxima o pensamento da verdade. O amor também.
Quem ama abre, estende e entrega o seu coração ao Céu e ao outro. Quem reza também.
PENSAMENTO DA SEMANA
"As férias deveriam começar com um encontro pessoal, connosco próprios.
Mais do que turistas, deveríamos ser peregrinos, para dar valor e espaço ao tempo.
Só assim se alcança o verdadeiro repouso, cultivando relações e não fotografias".
Pe. Vasco Pinto Magalhães, s.j.
INFORMAÇÕES
MISSA NO SANTUÁRIO DA CALDEIRA
No próximo domingo, 19 de julho, às 15h30m.
FESTA DE NOSSA SENHORA DO CARMO NA FAJÃ DOS VIMES
Dia 16 de julho: 9h00 Missa e bênção;
19h00 Missa de Festa e bênção do Carmo seguida
de Procissão.
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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