Nº 1261

O ESSENCIAL CABE NUM CORAÇÃO
Vivemos numa época em que o coração se tornou um símbolo comum. Está nos ecrãs, nas mensagens, nos anúncios e nas redes sociais. Mas o coração de que nos fala o Evangelho é muito mais do que um sentimento passageiro. É o lugar onde decidimos quem somos e como queremos viver.
O Sagrado Coração de Jesus revela-nos um Deus que não fica distante da nossa realidade. Um Deus que conhece as nossas alegrias e as nossas feridas, os nossos recomeços e os nossos fracassos. Um Deus que não nos ama porque somos perfeitos, mas porque somos Seus.
A misericórdia nasce precisamente aí. Num coração capaz de se aproximar da fragilidade humana. Não para julgar, mas para compreender. Não para condenar, mas para levantar. Não para apontar o erro, mas para abrir um caminho de esperança.
Talvez seja este o grande desafio dos nossos dias. Vivemos rodeados de informação, mas com falta de compaixão. Temos muitas opiniões, mas poucas pessoas dispostas a escutar. Falamos de amor, mas nem sempre estamos dispostos a amar até às últimas consequências.
O Coração de Jesus recorda-nos que o verdadeiro amor não consiste em possuir, mas em entregar-se. Não consiste em receber, mas em dar. Não consiste em procurar o próprio interesse, mas em fazer da vida um dom para os outros.
Só um coração que ama é verdadeiramente livre. Só um coração que perdoa encontra a paz. Só um coração que se deixa tocar pela dor dos outros pode transformar o mundo.
No fundo, todos procuramos o mesmo: um lugar onde o coração possa descansar. E essa sede profunda de amor, de sentido e de eternidade encontra resposta n'Aquele que nunca se cansa de nos acolher.
Por isso, diante de tantas inquietações, medos e incertezas, continua a fazer sentido a oração simples que atravessou gerações e chegou até nós pela fé dos nossos pais e avós:
Sagrado Coração de Jesus, eu confio em Vós.
Porque só quem se sabe infinitamente amado aprende a amar sem medida.
Padre João Torres
MEDITAR
E fica o grão.
O olho que vê o pecado é chamado para ver a dor. A compaixão transcende as barreiras da ética, assim como a intercessão, que é sempre por todos.
Jesus, ao ver as multidões, sentiu compaixão. Tudo o que se segue nasce da compaixão pela sua grande dor. Porque quando diz: "a seara é grande", não se refere ao número de pessoas, ao vasto acampamento de homens onde armou a sua tenda, mas vê uma seara de dor, uma seara de cansaço e de medo, germinando no mundo.
E teríamos esperado uma resposta diferente à dor, uma ajuda mais imediata, mais eficaz: "Porque é que o Senhor não nos ajuda com a sua omnipotência? Porque é que ajuda a fragilidade humana através da impotência dos outros homens?”.
E é assim que Deus age, a Quem tantas vezes acusamos de não ajudar. Deus intervém em favor dos seus filhos, mas fá-lo através dos seus filhos.
"Orai ao Senhor da seara para que mande trabalhadores para a sua messe". E nós, que interpretamos estas palavras como um convite à oração pelas vocações sacerdotais, descobrimos, em vez disso, que sou eu o trabalhador na seara: Envia-me, Senhor, com mãos que possam amparar e acariciar, fortalecer o coração e infundir força. Esta será a minha forma de expressar o quão próximo Deus está.
E vejo a sua esperança incurável emergir, a sua confiança invencível na humanidade, o olhar positivo do Criador sobre o meu pessimismo. Dizemos: "A Igreja é uma empresa deficitária, a seara é pequena ou fraca, as igrejas estão a esvaziar-se." Ele, porém, vê algo diferente. Vê muitos grãos a amadurecer, vê que a semente é boa, como o solo, como a estação, vê a história que ascende na positiva rumo a um verão rico em frutos.
Deus olha, e com o seu olhar vê que cada coração é um torrão de terra apto a dar vida às suas sementes divinas; vê-as crescer como o trigo que amadurece suave e tenazmente ao sol. A compaixão rompe com o paradigma do bem e do mal ("o Pai faz nascer o sol sobre os campos dos maus e dos bons").
O olho que vê o pecado é chamado a ver a dor. A compaixão transcende as barreiras da ética, assim como a intercessão, que é sempre por todos.
A oração, a compaixão e a caridade não distinguem entre os merecedores e os não merecedores. E se isto parece uma distinção religiosa, bem, não o é; é produto de um coração ainda farisaico, não do coração de Deus.
O Evangelho conclui com uma expressão importante: Recebestes, de graça, dai de graça. E sereis felizes, porque há mais alegria em dar do que em receber. A tua vida flui quando és generoso, à imagem de Deus. Porque o amor é mais verdadeiro que os seus frutos, a piedade mais necessária do que os seus próprios resultados.
Ermes Ronchi
Vê-os como ovelhas sem pastor
Os discípulos, enviados por Jesus para anunciar o Seu Evangelho, voltam entusiasmados. Falta-lhes tempo para contar ao seu Mestre tudo o que fizeram e ensinaram. Pelo que parece, Jesus quer escutá-los com calma e convida-os a retirar-se “a sós para um sítio tranquilo para descansar um pouco”.
As pessoas alteram todo o plano. De todas as aldeias correm a procurá-Lo. Já não é possível aquela reunião tranquila que tinha projetado Jesus a sós com os Seus discípulos mais próximos. Quando chegam ao lugar, a multidão invadiu tudo. Como reagirá Jesus?
O evangelista descreve com detalhe a Sua atitude. Jesus nunca fica incomodado pelas pessoas. Fixa o seu olhar na multidão. Sabe olhar, não só às pessoas concretas e próximas, mas também a essa massa de gente formada por homens e mulheres sem voz, sem rosto e sem importância especial. No imediato desperta Nele a compaixão. Não o pode evitar. “Teve lástima deles”. Ele leva-os todos muito dentro do Seu coração.
Nunca os abandonará. “Vê-os como ovelhas sem pastor”: pessoas sem guias para descobrir o caminho, sem profetas para escutar a voz de Deus. Por isso, “começou a ensina-lhes com calma”, dedicando-lhes tempo e atenção para alimentá-los com a sua Palavra curadora.
Um dia teremos que rever ante Jesus, nosso único Senhor, como olhamos e tratamos essas multidões que se estão afastando pouco a pouco da Igreja, talvez porque não escutam entre nós o Seu Evangelho e porque já não lhes diz nada os nossos discursos, comunicados e declarações.
Pessoas simples e boas que estamos a dececionar porque não veem em nós a compaixão de Jesus. Crentes que não sabem a quem acudir nem que caminhos seguir para encontrar-se com um Deus mais humano que o que se apercebem entre nós. Cristãos que se calam porque sabem que a sua palavra não será tida em conta por ninguém importante na Igreja.
Um dia o rosto desta Igreja mudará. Aprenderá a atuar com mais compaixão; esquecerá os seus próprios discursos e escutará o sofrimento das pessoas. Jesus tem força para transformar os nossos corações e renovar as nossas comunidades.
José António Pagola
Quem olha por ti?
Podemos saber por quem olhamos, mas conseguiremos saber quem olha por nós?
Alguns de nós afirmam que não têm ninguém, que estão sós. Talvez até pudesse ser verdade em alguns casos, mas como pode alguém ter essa certeza?
Acredito que qualquer pessoa que esteja a ler este texto consegue fazer uma lista com pelo menos 25 nomes de pessoas importantes na sua vida. Não é uma tarefa simples, porque quem se propõe a tal assume sempre que deve apontar o nome daqueles que ama ou pelos quais nutre bons sentimentos.
Mas quantos dos que constam da minha lista me têm na deles?
Mais ainda, será que o meu nome não aparece nas listas de pessoas que eu desconheço ou de quem já nem me lembro que existem?
Não somos importantes apenas para quem o queremos ser. Algumas vezes, nem esses nos aceitam como tal.
Por outro lado, a nossa vida pode ser um dom para pessoas cujo nome nunca conheceremos ou que julgamos serem apenas figurantes da nossa existência.
Outros ainda podem olhar por nós e amar-nos sem deixar grandes pistas que nos permitam encontrá-los. Se existirem – e existem! – por que razão não querem sequer que lhes agradeçamos?
É bom ser bom, mais ainda sem esperar ser reconhecido por isso.
Será que me lembro – e guardo no coração – todos os que me fizeram e fazem bem, que me amaram e ainda me amam?
Quantas vezes, ao longo da minha vida, caí em desgraça e fui encontrado por alguém no chão, levado para um abrigo — e, quando acordei, nem percebi bem como fui ali parar?
PENSAMENTO DA SEMANA
Do Centro Onde a Vida Floresce
"Faz da tua vida uma atenção desperta à presença viva de Deus — ao Seu amor que já te envolve e habita em ti.
Repousa na verdade daquilo que já és n’Ele: inteiro, conhecido, seguro, reconciliado.
Que esse alinhamento com o coração de Deus seja o teu Norte.
E deixa que a vida floresça a partir desse centro.
Tudo encontrará o seu lugar; tudo florescerá a seu tempo, nascendo da confiança e da união."
Tehilla Luttig
INFORMAÇÕES
MISSA NO SANTUÁRIO DA CALDEIRA
No próximo domingo, 21 de junho, às 15h30m.
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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