Nº 1246

 

TEMPO DE QUARESMA

[Peregrinar ao coração]

«Assumir-se peregrino é, antes de mais, aceitar peregrinar ao próprio coração. Só a partir daí podemos caminhar com outros como experiência de autêntica fraternidade. (...)

Peregrinar ao coração – entrar no deserto – é tantas vezes um processo doloroso, porque marcado pelo encontro com estes “fantasmas” que nos habitam. No entanto, o afrontar esta realidade é condição de acesso ao nosso eu profundo, “lugar” da nossa identidade de seres criados à imagem e semelhança de Deus, “lugar” a partir do qual nos experimentamos em harmonia com o Todo, e por isso, “lugar” onde nos sentimos livres. Só a partir daqui é possível o encontro autêntico com o outro, é possível a escuta. (...)

O outro, particularmente aquele que nos parece mais estranho, aquele que é mais diferente, é frequentemente o mais revelador das nossas próprias sombras e, por isso, o mais decisivo do ponto de vista do crescimento pessoal. As feridas que trazemos em nós, fazendo-nos sofrer, a nós e àqueles que connosco se relacionam, contêm em si um potencial imenso de vida quando, precisamente, a partir daí, nos abrimos à infinita ternura de Deus. (...)

Quando entramos na nossa sombra e aí nos experimentamos amados tal como somos, o nosso coração convertido pela misericórdia dilata-se para além de todas as fronteiras.»

 

Carlos Maria Antunes, in Atravessar a própria solidão

 

MEDITAR

A Quaresma surpreende-nos: vivemo-la como um tempo penitencial e mortificante e, em vez disso, mostra-se-nos neste evangelho vivificante, cheia de sol e de luz. Do deserto de pedras (primeiro domingo) à montanha da luz (segundo domingo); da poeira e cinzas, a rostos vestidos de sol. Para dizer a todos nós: coragem, o deserto não vencerá, nós conseguiremos, encontraremos o fio da meada.

Jesus levou três discípulos com Ele e subiu um alto monte. As montanhas são como indicadores apontados para o mistério e a profundidade do cosmos, dizem-nos que a vida é ascensão, tendo no interior uma fome de verticalidade, como se fosse pressionada ou aspirada por uma força de gravidade celestial; e transfigurou-se diante deles, o seu rosto brilhava como o sol e as suas vestes como a luz.

Tudo se ilumina: as roupas de Jesus, as mãos, o rosto são a transcrição do coração de Deus, e os três olham, emocionam-se, ficam atordoados: diante deles manifesta-se a maravilhosa revelação de um Deus luminoso, belo e cheio de sol. Um Deus para ser experimentado, um Deus para ser surpreendido. E que em todos os filhos semeou a sua grande beleza.

Que bom estar aqui, não nos vamos embora ... O espanto de Pedro surge da surpresa daqueles que puderam espreitar o Reino por um momento e nunca o esquecerão. Quero repetir pela minha fé estas palavras: é bom estar aqui, nesta terra, neste minúsculo e belo planeta; é bom estar presente no nosso tempo, único e cheio de potencialidades. É bom ser criatura: não é tristeza, não é deceção a nossa verdade.

Na segunda leitura, São Paulo dá a Timóteo uma frase extraordinária: Cristo veio e fez resplandecer a vida. Ele entrou na vida, na minha e na do mundo, e nunca se foi embora. Veio como luz nas trevas, e as trevas não a venceram (Jo 1,5). Nele habitava a vida e a vida era a luz dos homens (Jo 1: 4), a vida era a primeira Palavra de Deus, uma Bíblia escrita antes da Bíblia escrita.

Então perdoai «se não estou completamente e sempre / apaixonada pelo mundo, pela vida / seduzida e vencida pela revelação / pelo ser de tudo (....) / perdoai-me isso mais do que qualquer outra coisa / pelo meu descuido »(Mariangela Gualtieri) Por todas as maravilhas diárias.

A condição definitiva não é uma montanha, é um caminho a percorrer, às vezes um deserto, certamente uma planície à qual se regressa. Da nuvem vem uma voz que traça o caminho: “este é meu filho, o meu amado. Escutai-O". Os três subiram para ver e voltaram a ouvir. Mas a voz do Pai desaparece e torna-se rosto, o rosto de Jesus " que brilhou como o sol ". Uma gota da sua luz permanece oculta no coração vivo de todas as coisas.

 

Ermes Ronchi

 

CONTEMPLAR NO DESERTO

Seguir o Mestre pelos caminhos da Galileia…

Vamos ao deserto…

O deserto não é apenas um lugar para onde se vai.

É um espaço interior onde aprendemos a escutar.

No silêncio, começam a cair as nossas seguranças.

No silêncio, emergem as nossas resistências.

No silêncio, revela-se também a voz suave do Pai.

Jesus não foi ao deserto para fazer coisas.

Foi para estar.

Foi para escutar.

Foi para deixar que o Espírito ordenasse o seu coração

antes de iniciar a sua missão.

A contemplação não é evasão.

É disponibilidade.

É aprender a permanecer.

A não fugir.

A não preencher o vazio com palavras desnecessárias.

Entremos.

P. Franz Jalics

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

Sobre fé

Correm tempos tão estranhos, tão incertos, tão intermináveis que parecem, até, pôr em causa tudo aquilo em que acreditamos. Mas a dúvida, que tantas vezes nos assola, vem só confirmar que somos humanos  e que existem compreensões  que vão além de nós mesmos. Dizem que a fé move montanhas e certamente  moverá. Tenho fé, mas todos os dias peço para a aumentar. Por vezes sinto-a leve como uma brisa e outras forte como o vento, mas sinto que a tenho aqui e espero que para sempre.

Lucília Miranda


 INFORMAÇÕES

Mordomos da Casa dos Bolos da Ribeira Seca no Domingo do Espírito Santo:

Mário Freitas

Rodrigo Paulino

António Paulino

Rudy Nunes

Hélder Martins 

 

Preparação para o Batismo

Todos os que estão para batizar os seus filhos durante o ano de 2026, deverão participar no curso de preparação para o Batismo, no dia 11 de março, pelas 20h00, no Passal da Calheta


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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