Nº 1244

 

Carta de um(a) doente a quem pensa visitá-lo(a)

Querido(a) amigo(a),

Sei que vem de coração, que a vontade de estar perto nasce de carinho e preocupação. Mas permita-me dizer-lhe, com toda a franqueza: não quero pena. Não quero olhares que me transformem em vítima ou suspiros que me façam sentir menor. A doença já me humilha com a sua presença; não é necessário que outros o façam.

Prefiro o desprezo — sim, até ele, quando carregado de humor e de verdade, pode ser um estímulo. Pode dar-me força para continuar a lutar, para ser eu, inteira, mesmo que a minha carne esteja cansada.

Quando vier, traga vida. Traga histórias, risos, pequenas banalidades do quotidiano que me lembrem que o mundo lá fora continua a girar. Fale-me do café que tomou, do livro que leu, do que o faz sorrir. Não me diga que tenho coragem ou paciência, nem tente consolar-me com frases prontas. Isso não me ajuda. Mostre que me vê como pessoa, não como enferma.

Não insista em prolongar visitas quando o meu corpo pede descanso. Não force abraços quando estou frágil. O toque tem poder, sim, mas também pode magoar. Pergunte, antes de se aproximar, se pode sentar, se posso ouvir, se posso falar. Respeite o meu ritmo, a minha fome ou a minha vontade de silêncio.

Se vier com pressa, para me “animar” ou cumprir uma obrigação, é melhor que fique em casa. A sua presença só tem valor se vier do desejo genuíno de estar ao meu lado, sem necessidade de ser útil, sem necessidade de se mostrar virtuoso. A doença não é um palco.

Acima de tudo, não me reduza ao que sinto ou ao que sofro. Olhe-me, olhe-me de verdade, e veja a pessoa que continua a existir, mesmo no meio da incerteza, da vulnerabilidade, da finitude. A vida pode ter-me obrigado a parar, mas não me roubou por completo.

Quando vier, venha com humanidade, com autenticidade, com quotidiano e simplicidade. E, se puder, traga também a sua leveza — porque um sorriso partilhado vale mais do que mil palavras piedosas.

Com verdade,

Quem o(a) espera, inteira, apesar da doença.

Texto do Padre João Torres

 

MEDITAR

Os três meios pelos quais se faz agir o sonho do Pai

Disseram-vos, mas eu digo-vos. A novidade disruptiva trazida por Jesus não é refazer um código, mas a coragem do coração, a coragem do sonho de Deus. Atuar sobre os três meios principais: a violência, o desejo, a mentira.

Foi dito: não matarás; mas eu digo-vos: todo aquele que se irar contra o seu irmão, que lhe guarde rancor no seu coração é um homicida. Jesus vai direto ao motivo das ações, ao laboratório interior onde se formam.

O apóstolo João afirma algo enorme: «Quem não ama o seu irmão é homicida» (1 Jo 3, 15). Quem não ama, mata. Desamor não é apenas o meu lento morrer, mas é uma incubadora de assassinatos. Quem se irrita com seu irmão, ou o chama de louco, ou estúpido, está na linha de Caim... Jesus mostra os três primeiros passos para a morte: a raiva, o insulto, o desprezo, são três formas de assassinato.

A matança exterior vem da eliminação interna do outro. “Quem o chamar de louco será destinado ao fogo da Geena.” Geena não é o inferno, mas aquele vale, nos arredores de Jerusalém, onde o lixo da cidade era queimado, de onde subia perpetuamente um fumo acre e malcheiroso. Jesus diz: se desprezas e insultas o outro fazes lixo com a sua vida, deita-la na imundície ; é muito mais que um castigo, é a tua humanidade que apodrece e se torna fumo.

Escutas estas páginas que estão entre as mais radicais do Evangelho e compreendes que, paradoxalmente, se tornam as mais humanas, porque Jesus fala apenas do coração e da vida, e fá-lo com palavras de vida: vigia o teu coração e nunca acabarás na lixeira da história.

Entendeste o que foi dito: não cometer adultério. Mas eu digo-vos: se olharem para uma mulher para a desejarem, sereis já um adúltero. Não diz simplesmente: se desejas uma mulher; mas: se a procuras desejar, com atitude predatória, conquistar e violar, seduzir e possuir, se a reduzes a um objeto a ser levado ou exibido, cometes um crime contra a grandeza dessa pessoa.

"Adultério" vem do verbo a(du)lterare que significa alterar, falsificar, arruinar. O adultério não é um crime contra a moral, mas um crime contra a pessoa, contra a face elevada e pura da pessoa.

Terceiro meio: Não jureis de forma nenhuma; deveis dizer sim, sim; não, não. Da proibição do juramento, Jesus chega à proibição da mentira.

Digam sempre a verdade, e não será mais necessário jurar; não precisam mostrarem-se diferentes do que são por dentro, vigiem o vosso coração e poderão cuidar de toda a vida à vossa volta. Vigiem o coração porque é a fonte da vida: “Guarda-o tu, Senhor, este dom frágil, retorcido e esplêndido que nos deste: este coração que é feito de carne, mas que também sabe ao céu”.

Ermes Ronchi

 

«Quem de Deus não conhece senão as suas criaturas

não precisa de outras catequeses ou de sermões.

Porque cada criatura é um inteiro livro sobre Deus.»

 

Mestre Eckhart

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 "Importa dar aos outros o amor de os ouvir. A criança ama quem for capaz de se partilhar com ela. De lhe dar o que é, sem cuidar de exigir nada em troca. Os nossos melhores amigos são sempre crianças.”

 José Luís Nunes Martins, in Amor, Silêncios e Tempestades

 


 

INFORMAÇÕES

RECEITA

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José Alberto de Sousa Constantino

José Artur da Silva 


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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