Nº 1243

 

«Eu tive de aceitar»

Eu tive de aceitar: que eu não sei nada sobre o tempo, que é um mistério para mim, e que eu não compreendo a eternidade.

Eu tive de aceitar que o meu corpo não seria imortal, que ele envelheceria e que um dia acabaria.

Que somos feitos de memórias e esquecimentos; desejos, resíduos, ruídos, sussurros, silêncios, dias e noites pequenas histórias e detalhes subtis.

Tive de aceitar isso: tudo é passageiro e transitório.

E tive de aceitar que eu vim ao mundo para fazer algo por ele, para tentar dar o melhor de mim, para deixar vestígios positivos dos meus passos antes de partir.

Eu tive de aceitar que os meus pais não durariam para sempre. E que os meus filhos, pouco a pouco, escolheriam o seu caminho e seguiriam o seu rumo sem mim.

E tive de aceitar que eles não eram meus, como eu pensava. E que a liberdade de ir e vir é também um direito deles.

Eu tive de aceitar que todos os meus bens me foram confiados em empréstimo, que não me pertenciam e eles eram tão fugazes, como era fugaz a minha própria existência na Terra.

E eu tive de aceitar isso: os bens ficarão para uso de outras pessoas quando eu não estiver mais por aqui.

Eu tive de aceitar que o que eu chamava "minha casa" era apenas um telhado temporário, que um dia a mais, um dia a menos seria o casaco terreno de outra família.

E eu tive de aceitar isso: o meu apego às coisas só faria mais dolorosa a minha despedida e minha partida.

Eu tive de aceitar que os animais que eu quero e as árvores que plantei, as minhas flores e os meus pássaros são mortais. Eles não me pertenciam.

Foi difícil, mas tive de aceitar. Eu tive de aceitar as minhas fragilidades, limitações e a minha condição de ser mortal, de ser efêmero.

Eu tive de aceitar que a vida continuaria sem mim e como, depois de um tempo, me esqueceriam.

Humildemente confesso eu tive de livrar muitas batalhas para o aceitar.

E eu tive de aceitar isso: não sei nada sobre o tempo que é um mistério para mim, que eu não compreendo a eternidade e que nada sabemos sobre ela.

Tantas palavras escritas, tanta necessidade de explicar, entender e compreender este mundo e a vida que nele vivemos!

Silvia Schmidt

 

MEDITAR

Evitemos uma vida insípida e desligada

Vós sois sal, vós sois luz (cf. Mateus 5, 13-16). Sal que conserva as coisas, mínima eternidade dissolvida no alimento. Luz que acaricia as coisas de alegria, nelas desperta cores e beleza.

Tu és luz. Jesus anuncia-a à minha alma criança, àquela parte de mim que sabe ainda encantar-se, ainda acender-se. Tu és sal, não para ti mesmo, mas para a terra. A tarefa é séria, porque ser sal e luz do mundo quer dizer que do bom sucesso da minha aventura, humana e espiritual, depende a qualidade do resto do mundo.

Como fazer para viver esta responsabilidade séria, que é de todos? Menos palavras e mais gestos. Que o profeta Isaías elenca (cf. 58,7-10): «Reparte o teu pão», verbo seco, concreto, factível.

«Reparte o teu pão», e depois é todo um seguimento de outros gestos: dá abrigo, veste o nu, não vires a cara. «Então a tua luz surgirá como a aurora, a tua ferida não tardará em sarar». E sente a impaciência de Deus, a impaciência de Adão, e da aurora que se levanta e da fome que grita; a urgência do corpo do homem que tem dores e feridas, tem pressa de pão e de saúde.

A luz vem através do meu pão quando se torna pão nosso, partilhado e não ciosamente possuído. O gesto do pão vem antes de tudo: porque sobre a terra há criaturas que têm tanta fome, que para eles Deus só pode ter a forma de um pão.

Cura os outros e curar-se-á a tua ferida, cuida de alguém e Deus cuidará de ti; produz amor, e Ele envolver-te-á o coração, quando está ferido. Ilumina outros e iluminar-te-ás, porque quem olha só para si próprio nunca se ilumina. Quem não procura, mesmo às apalpadelas, o rosto que da escuridão pede ajuda, nunca se acenderá. É da noite partilhada que se ergue o sol de todos.

«Se me fecho no meu eu, ainda que adornado de todas as virtudes, rico de sal e de luz, e não participo na existência dos outros, se não me abro aos outros, posso estar privado de pecados, e todavia vivo numa situação de pecado» (G. Vannucci).

Mas se o sal perde sabor, com que coisa se pode salgar? Conhecemos bem o risco de nos afundarmos numa vida insípida e gasta. Acontece quando não comunico amor a quem me encontra, não sou generoso de mim, não sei querer bem: «Não somos chamados a fazer o bem, mas a querer bem» (Ir. Maria de Campello).

Eu sou luz apagada quando não evidencio beleza e bondade nos outros, não me inebrio dos seus defeitos: então estou a extinguir a chama das coisas, sou um címbalo que tintila, um trombone de lata. Quando amo três verbos obscuros: agarrar, subir, comandar; em vez de seguir os três do sal e da luz: dar, acender, servir.

Ermes Ronchi

 

Cuida de ti.

Cuida do teu olhar antes de tentares vigiar o caminho do outro.

Quando deixamos de cuidar de nós, tornamo-nos facilmente espiões das falhas alheias, mercenários do erro, juízes sem misericórdia.

É tão fácil azedar.

Azeda-se o coração, azedam-se as palavras, azedam-se os gestos.

No auge do nosso puritanismo, tantas vezes já não conseguimos ver o bem, o belo e o bom que insistem em existir à nossa volta.

Sim, as coisas podiam ser melhores.

Sim, a mudança podia chegar mais depressa.

Não nos conformarmos com a realidade é sinal de vida e de lucidez.

Mas quando só vemos o mal, quando o vinagre se torna a nossa bebida preferida, talvez seja hora de admitir: algo em nós adoeceu.

A lucidez não é amargura.

A exigência não é destruição.

A crítica, quando perde a esperança, deixa de ser profética e torna-se corrosiva.

O profeta Oseias ensina-nos outro caminho: em plena terra devastada, consegue levantar os olhos e ver, ao longe, um ramo de amendoeira a florir.

Não nega a ruína.

Mas recusa-se a fazer dela a última palavra.

Este exercício do olhar salva-nos da insatisfação crónica,

cura-nos da azia espiritual

e devolve-nos a capacidade de esperar.

Cuidar de nós é isto:

aprender a ver para além do agora,

acolher a realidade sem desistir dela,

e escolher, todos os dias, ser gente de esperança.

Padre João Torres

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

"Não sei, mas o amor incendeia-me. É uma chama inextinguível. (...) É como um grande rio, que alimenta e rega cada vila e aldeia; ele vai sendo poluído, desagua nele a porcaria do ser humano, mas depressa as águas se purificam a si próprias, e rapidamente segue em frente. Nada pode estragar o amor, pois todas as coisas se dissolvem nele - o bom e o mau, o feio e o belo. O amor é algo que é a sua própria eternidade."

J. Krishnamurti, em Cartas a uma jovem amiga


 

INFORMAÇÕES

MISSA NO SANTUÁRIO DA CALDEIRA

No próximo domingo, 15 de fevereiro, às 15h30m.


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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