Nº 1239

«Tomei-te pela mão»
«Tomei-te pela mão», diz o Senhor ao seu escolhido.
Em criança fomos muitas vezes levados pela mão dos nossos pais. A segurança transmitida por esse gesto marcou o nosso modo de ver o mundo. Ainda hoje, ao sermos segurados de um modo afetuoso por alguém em quem confiamos, é-nos possível sentir os batimentos de um coração apaixonado. A força que uma mão nos transmite marca-nos para sempre.
Pelo Batismo fomos definitivamente agarrados pela mão de Deus. A mão que apontou para o Filho no rio Jordão é a mesma que nos acompanha, em especial nos momentos mais difíceis.
No Batismo tornamo-nos terra de Deus, vivificados pelo Espírito Santo. Como bom Pai, Ele não nos deixa sozinhos. A sua mão sustém-nos sem nos tornar escravos. Nessa relação de proximidade, podemos ainda escutar a mesma voz que ressoou nas margens do Jordão, «Tu és o meu amado filho».
Assim, vivendo em conformidade com as promessas batismais, sabemos que estamos nas mãos de Deus, mesmo quando o contexto nos é desfavorável, mesmo quando os acontecimentos parecem ecoar a voz de um mundo que repete insistentemente «tu não és um filho amado», ou «tu tens que fazer isto e aquilo para mereceres o amor». Pelo Batismo, pelo contrário, é-nos garantido que esse amor divino é sem limites, estende-se até à eternidade, procura-nos quando nos distanciamos, não desiste de nós, mesmo quando desistimos de O amar.
Deus oferece-nos a sua mão todos os dias, ao mesmo tempo que nos desafia a segurar as mãos daqueles que estão feridos, daqueles que de algum modo estão postos à margem por esta cultura que sobrevaloriza alguns em detrimento de outros. Juntos, de mãos dadas, entre nós e com Deus, motivados pela força desta união, facilmente podemos superar as tempestades que imprevisivelmente nos batem à porta.
MEDITAR
Batismo: Mergulhar num oceano de amor
A cena grandiosa do Batismo de Jesus (Mateus 3,13-17), com o céu rasgado, com o voo de asas abertas do Espírito sobre as águas do Jordão, com a declaração de amor de Deus, aconteceu também no meu Batismo, e acontece ainda a cada reinício.
A Voz, a única que soa dentro da alma, repete a cada um: tu és meu filho, o amado, em ti pus o meu comprazimento. Palavras que ardem e queimam: filho meu, amor meu, alegria minha.
Filho é a primeira palavra. Filho é um termo poderoso sobre a Terra, poderoso para o coração do ser humano. E para a fé. Deus gera filhos segundo a sua espécie, e eu e tu, nós todos temos o cromossoma do pai nas nossas células, o ADN divino em nós.
Amado é a segunda palavra. Antes que tu ajas, antes que tu digas «sim», que tu o saibas ou não, a cada dia, a cada despertar, o teu nome para Deus é «amado». De um amor que te antecede, que te antecipa, que te envolve prescindindo daquilo que hoje serás e farás.
Amado, sem se e sem mas. A salvação deriva do facto de Deus me amar, não do facto de eu O amar. E que eu seja amado depende de Deus, não depende de mim! É graça! E é este amor que entra, transborda, envolve e transforma: somos santos porque somos amados.
A terceira palavra: meu comprazimento. Termo desusado, inusual, todavia belíssimo, que no seu núcleo contém a ideia de prazer. A Voz grita do alto do Céu, grita sobre o mundo e dentro do coração, a alegria de Deus: é belo contigo, filho meu; tu dás-me prazer; estar contigo enche-me de alegria.
O poder do Batismo é dito com o símbolo vasto das águas que limpam, dessedentam, refrescam, curam, fazem germinar as sementes; com o Espírito que, juntamente com a água, é a primeira de todas as presenças na Bíblia, em ação já desde o segundo versículo do Génesis: «O Espírito de Deus pairava sobre as águas».
Uma dança do Espírito sobre as águas é o primeiro movimento da história. Desde então o Espírito e a água estão ligados a cada génese, a cada nascimento, a cada Batismo, a cada vida que brota.
Pensamos no rito do Batismo como em algumas gotas de água derramadas sobre a cabeça da criança. A realidade é grandiosa: na sua raiz, batizar significa mergulhar: «Estamos imergidos num oceano de amor, e não nos damos conta» (G. Vannucci).
Eu sou mergulhado em Deus, e Deus é mergulhado em mim; eu na sua vida, Ele na minha vida; «aperta-me a ti, aperta-te em mim» (G. Testori). Sou dentro de Deus, como dentro do ar que respiro, dentro da luz que me beija os olhos; mergulhado numa fonte que nunca se esgotará, submergido num ventre vivo que alimenta, faz crescer e protege: batizado.
Ermes Ronchi
Não arrumem o Menino Jesus no sótão.
Chega o tempo em que as luzes se apagam devagar, as músicas cessam e a casa volta ao seu silêncio habitual. O Natal parece despedir-se sem ruído. Arrumam-se as estrelas, a árvore, desmonta-se o presépio. Tudo acontece com naturalidade, como se fosse apenas mais um fim de ciclo.
Mas o Natal não é um objeto.
E o Menino Jesus não é decoração.
O presépio foi o coração da casa durante semanas. Ali esteve Deus feito fragilidade, silêncio e promessa. Ali aprendemos — ainda que sem palavras — que Deus não entra no mundo com poder, mas com amor. E é precisamente por isso que o maior risco não é desmontar o presépio, mas desmontar o Natal dentro de nós.
Segundo a tradição da Igreja, o presépio não deve ser desmontado no Dia de Reis. O tempo do Natal prolonga-se até à Festa do Batismo do Senhor, que encerra este grande mistério. É no dia seguinte a essa festa que o presépio e a árvore de Natal devem ser recolhidos, com respeito e oração, porque só então o Natal se cumpre liturgicamente.
Desmontar antes é apressar o mistério.
É fechar a porta antes de Deus terminar de falar.
Quando chegar esse dia, não arrumem o presépio com pressa.
Reúnam a família.
Façam silêncio.
Agradeçam.
Beijem a imagem do Menino.
Guardem-na com veneração.
E lembrem-se: o que se guarda na caixa não pode ser Aquele que se guarda na alma.
O Natal não termina quando se desmonta o presépio.
Termina quando Deus deixa de contar nas nossas escolhas.
O Menino veio para ficar.
Para atravessar os dias comuns, os cansaços, as dúvidas, as quedas e as recomeços. Veio para ser presença quando já não há luzes, nem festas, nem aplausos. Veio para ser Deus-connosco, todos os dias do ano.
Por isso, quando desmontarem o presépio, façam-no com fé.
Mas, por favor,
não arrumem o Menino no sótão.
Guardem-no no centro do coração.
E deixem-no viver convosco.
Padre João Torres, pároco de Priscos, Braga
PENSAMENTO DA SEMANA
O MISTÉRIO DE CRISTO
"Assim como uma lente concentra os raios do sol num pequenino foco de calor que pode atear fogo a uma folha seca ou a um pedaço de papel, assim o Mistério de Cristo no Evangelho concentra os raios da luz de Deus e seu fogo num ponto que inflama o espírito do homem.
E foi por essa razão que Cristo nasceu e viveu nesse mundo, morreu, ressuscitou dos mortos e subiu ao céu, onde se encontra à direita do Pai."
Thomas Merton, in Novas Sementes de Contemplação
INFORMAÇÕES
MISSA NO SANTUÁRIO DA CALDEIRA
No próximo domingo, 18 de janeiro, às 15h30m.
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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