Nº 1237

Novo ano, novo eu?
Colocamos muita expectativa e muita pressão nestes finais de ano. Quase nos sentimos obrigados a estar bem, a ter esperança, a acreditar que à meia-noite tudo muda, como se de magia se tratasse. Sabemos que não é assim.
Na verdade, as coisas são como são e revelam-se na sua essência, apesar de ser Natal, Ano Novo, passagem de ano ou qualquer outra ocasião assinalada.
Somos quem somos e como somos apesar dos dias do calendário. No entanto, esta altura do ano convida-nos, inevitavelmente, a um balanço. A um olhar mais pleno perante tudo o que nos aconteceu durante o ano e perante todos os que nos aconteceram ao longo dos dias.
Neste ano que passou terá acontecido de tudo, como em todos os outros anos: mudanças, alegrias, pessoas novas, pessoas que nos deixaram, partidas, chegadas, viagens mais ou menos longas, zangas, discussões, reconciliações, reencontros, surpresas boas, desilusões, expectativas e desejos. Vida e morte. Doença e saúde.
Cada ano que se inicia e que termina encerra dentro de si uma amostra daquilo que a vida é: uma imprevisibilidade permanente e uma surpresa incrível ao mesmo tempo.
Neste primeiro dia do ano que possamos colocar menos expectativas para que tudo seja diferente e que consigamos olhar para a banalidade das coisas com olhos mais amorosos. Que saibamos apreciar mais as coisas pequeninas e minúsculas que nos passam tantas vezes ao lado, mas sem as quais tudo seria muito menos valioso e interessante.
Que este 2026 nos traga a inauguração de nós mesmos de dentro para fora e que possamos alegrar-nos com aquilo que nos define, seja bom, maravilhoso, mau ou péssimo. Tudo isso faz parte e tudo isso somos nós.
Que a verdade da nossa essência rime sempre com o Bem e com o Bom e que para todos os problemas apresentemos sempre uma solução de amor e de esperança, mesmo quando as pernas nos tremerem ou quando a vida vacilar.
Que a Vida e o Amor sejam sempre maiores do que todas as outras coisas.
MEDITAR
Deus não protege da noite, mas na noite: Meditação sobre o Evangelho do Domingo da Sagrada Família
O Natal não é sentimental mas dramático: é o início de um novo ordenamento de todas as coisas. Não uma festa de bons sentimentos, mas o juízo sobre o mundo, a conversão da história. A grande roda do mundo tinha sempre girado num único sentido: de baixo para o alto, do pequeno para o grande, do frágil para o forte. Quando Jesus nasce, ou melhor, quando o Filho de Deus é dado à luz por uma mulher, o movimento da história bloqueia-se por um instante, e depois começa a fluir no sentido oposto: o omnipotente faz-se frágil, o eterno faz-se mortal, o infinito está no fragmento.
A sorte do mundo decide-se no interior de uma família: um pai, uma mãe, um filho, o nó da vida, o eixo do futuro. O que é decisivo – hoje como então – acontece dentro das relações, coração a coração, na coragem quotidiana de uma, de muitas, de infinitas criaturas enamoradas e generosas que sabem tomar consigo a vida de outros. José é o modelo de todo o crente, no qual a fé e os afetos se reforçam mutuamente. Herodes envia soldados, Deus manda um sonho. Um grão de sonho que caiu dentro das duras engrenagens da história, ao ponto de chegar a modificar o seu curso.
«José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egito.» Um Deus que foge na noite! Porque é que o anjo ordena a fuga, sem garantir um futuro, sem marcar o caminho e a data do regresso? Porque Deus não salva do exílio, mas no exílio; não te evita o deserto mas é força dentro do deserto; não protege da noite, mas na noite.
Por três vezes José sonha. De cada vez um anúncio parcial, uma profecia breve. Todavia, para partir não pede que tudo esteja claro, não pede para ver todo o horizonte, mas apenas a luz que basta ao primeiro passo, apenas a força necessária para a primeira noite. A José basta um Deus que entretece a sua respiração com a dos três fugitivos para saber que a viagem tem a casa por destino, ainda que passe pelo longínquo Egito; que é uma aventura de perigos, de caminhos, de refúgios e de sonhos, mas que há um fio condutor seguro na mão de Deus.
José representa todos os justos da terra, homens e mulheres que, tomando sobre si as vidas de outros, vivem o amor sem contar cansaços e medos; todos aqueles que sem publicidade e sem recompensa, em silêncio, fazem o que devem fazer; todos aqueles cujo papel supremo no mundo é proteger a vida com a própria vida. E assim o fazem: concretos e ao mesmo tempo sonhadores, desarmados mas no entanto mais fortes do que qualquer faraó.
Ermes Ronchi
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2026
«A paz esteja com todos vós: rumo a uma paz “desarmada e desarmante”»
«A paz esteja com todos vós: rumo a uma paz desarmada e desarmante» é o tema da Mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz celebrado em 1° de janeiro de 2026.
O Santo Padre convida todos a acolher a paz e a tornar-se testemunhas dela porque ela “existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade”. Os cristãos devem tornar-se testemunhas, e citando Santo Agostinho, o Papa convida a " estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz”. Somos todos convidados a caminhar por essa estrada traçada pelo Ressuscitado. Ele mesmo encarnou uma paz desarmada porque "desarmada foi a sua luta”.
A paz é um dom a ser protegido, visto que se “não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública” e há o risco de incorrer no engano de que é preciso preparar-se para a guerra a fim de obtê-la, incorporando a “irracionalidade de uma relação entre os povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e no domínio da força”.
O Papa recorda-nos que "Santo Agostinho recomendava não destruir pontes e não insistir com repreensões" preferindo “a via da escuta e, na medida do possível, do encontro com as razões dos outros”.
A fim de obter uma paz desarmante devemos encarnar a mansidão porque “a bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança”. A paz nasce da humildade evangélica. Em sua fragilidade, uma criança tem a capacidade de mudar corações, interrogar nossas escolhas e fazer com que baixemos as nossas armas.
O Papa Leão lembra-nos que a paz é possível, não utópica, e que o diálogo ecumênico e inter-religioso são formas privilegiadas de alcançá-la. Também não devemos esquecer-nos de empreender “o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional” que exigem confiança mútua, lealdade e responsabilidade nos compromissos assumidos.
“Esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente “
Papa Leão XIV
PENSAMENTO DA SEMANA
Esta pequena esperança que parece uma coisa de nada,
esta pequena rapariguinha esperança.
Imortal.
Pelo caminho escarpado, arenoso e estreito,
segue a pequena esperança
como uma criança sem forças para caminhar.
Mas na realidade é ela
quem faz andar o mundo inteiro.
Excerto de um poema de Charles Péguy
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Dia 11 de janeiro - Ribeira Seca.
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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