Nº 1229

A Bondade que permanece
«Conta uma lenda que um homem subiu as grandes montanhas da Europa em busca de um sábio que vivia nas cavernas. Ao encontrá-lo, fez-lhe a seguinte pergunta: “O que é a bondade?”, ao que o sábio respondeu com esta história: Quando era criança, o meu avô contou-me a história de um homem que vivia numa vila costeira. Todas as manhãs, sem falta, recolhia com as suas pequenas mãos as conchas partidas da praia. Ninguém entendia porque o fazia. “São lixo”, diziam. Mas ele insistia em limpá-las e devolvê-las ao mar. “O mar também merece beleza”, respondia.
Passaram os anos, e aquele homem morreu sem que muitos notassem a sua ausência. Mas algum tempo depois, quando uma tempestade arrasou a vila, foi aquela mesma zona — a que ele cuidou durante décadas — a única que resistiu. As conchas, endurecidas pelo sol e pelo sal, tinham-se tornado parte de uma barreira natural que protegeu a costa.
Ser bom assemelha-se muito a isso. Ninguém o aplaude. Parece tolo. Parece inútil. Mas, no final, é o único que deixa alicerces invisíveis onde tudo o resto se desmorona. Ser bom custa. Ridicularizam-te, usam-te, subestimam-te. Mas também te liberta. Porque a bondade é o único valor que não depende dos outros: nasce em ti e eleva-te. Num mundo de máscaras, ser bom é voltar a ser humano.
Talvez nunca apareças numa manchete. Talvez ninguém repare. Mas cada ato de bondade que fazes, cada verdade que sustentas, cada compaixão que ofereces, constrói uma barreira contra o desespero.»
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Saúl Marrero, in Pastoral SJ
MEDITAR
Todos os Santos: Bem-aventurados os últimos, os pobres, os que choram, Deus está convosco
Bem-aventurados os pobres, proclama Jesus no seu primeiro discurso, sobre a montanha (Mateus 5,1-12, Evangelho do domingo de Todos os Santos). Que significa bem-aventurado, este termo algo desusado e descolorido? A mente corre depressa para sinónimos como feliz, contente, afortunado.
Mas a palavra não pode ser compreendida só no mundo das emoções, empobrecida a um estado de alma aleatório. Em vez disso, indica um estado de vida, consolida a certeza mais humana que temos e que a todos nos configura em unidade: a aspiração à alegria, ao amor, à vida.
Bem-aventurados, é como dizer: de pé, a caminho, em frente, vós pobres (A. Chouraqui), Deus caminha convosco, de coluna direita, não vos rendais, vós os não violentos, sois o futuro da Terra; coragem, ergue-te e lança fora o manto do luto, tu que choras; não deixes cair os braços, tu que produzes amor.
Profundidades às quais nunca chegarei, Evangelho que continua a espantar-me e a escapar-me, e que, todavia, é preciso salvar a todo o custo; nostalgia prepotente de um mundo feito de paz e sinceridade, de justiça e corações puros, uma maneira totalmente outra de estar vivo.
As bem-aventuranças não são mais um preceito ou um novo mandamento, mas a bela notícia que Deus oferece alegria a quem produz amor, a quem se encarrega da felicidade de alguém, o Pai encarregar-se-á da sua felicidade.
Vosso é o reino: o Reino é dos pobres, porque o Rei se fez pobre. A terra é dos mansos, porque o poderoso se fez manso e humilde. A esta terra, embebida em sangue (o sangue do teu irmão grita-me), planeta de túmulos, quem oferece futuro? Quem está mais armado, é mais forte, mais desapiedado? Ou, antes, o tecedor de paz, o não violento, o misericordioso, o que cuida?
A segunda palavra do Evangelho diz: bem-aventurados aqueles que estão no pranto. A bem-aventurança mais paradoxal: lágrimas e felicidade mescladas, mas não porque Deus goste da dor, mas na dor Ele está contigo.
Um anjo misterioso anuncia a quem chora: o Senhor está contigo. Deus está contigo, no reflexo mais profundo das tuas lágrimas para multiplicar a coragem; em cada tempestade está ao teu lado, força da tua força, refúgio para os teus medos.
Como para os discípulos apanhados na noite pela borrasca no lago, Ele está na força dos remadores que não se rendem, nos braços sólidos de quem manobra o leme, nos olhos do vigia que perscrutam a aurora.
Jesus anuncia um Deus que não é imparcial, tem as mãos enredadas na densidade da vida, tem um fraco pelos fracos, começa pelos últimos da fila, dos subterrâneos da história, escolheu os descartados do mundo para criar com eles uma história que não avança pela vitória dos mais fortes, mas por sementes de justiça e colheitas de paz.
Ermes Ronchi
Dia de mortos ou dia de vivos?
Somos feitos de abraços, de olhares, de apertos de mão. As nossas relações não se contentam com um telefonema, uma fotografia, um “like” na rede social. Esta pandemia que nos obrigou à distância: se por um lado nos abriu os olhos para a nossa necessidade de sentir fisicamente as pessoas queridas, por outro deu-nos pequenos e grandes lutos. A decifrar, a elaborar, a viver.
Depois há os lutos verdadeiros, que nos obrigam a acertar contas com a morte. Um tema que preferíamos eludir o mais possível, cúmplices de um mundo que parece tê-lo eliminado, não na certeza da vida eterna, mas na ilusão da eterna juventude.
Também o momento da separação em tempos de Covid mudou. E não para melhor. A distância das pessoas queridas também e sobretudo nos últimos instantes, o funeral com presença limitada, a ausência de um abraço de conforto. Não se trata de detalhes, infelizmente. Mas de sofrimento que se acrescenta ao sofrimento. E que tornará mais árdua a elaboração.
Todavia, os dias que estamos para viver, com a comemoração dos defuntos, querem colocar-nos noutra perspetiva. E falar de vida. De que, certamente, a morte faz parte. Mas, para quem acredita, não é a palavra final, o último ato. Recordar os defuntos é tê-los próximo do nosso coração, conduzi-los ao coração, para recordar a nós próprios que a vida tem uma perspetiva diferente que vai além do espaço e do tempo.
Não é por acaso que o dia que dedicamos à comemoração dos defuntos chegue após a festa de Todos os Santos, pessoas que viveram plenamente esta vida numa perspetiva que é mais que esta vida. É verdade que a eternidade não torna menos dolorosos a morte e a separação, mas dá um significado novo à vida. E também os túmulos que visitaremos nestes dias mudam de significado, ainda que mantendo uma força evocativa e simbólica de ligação entre nós e os nossos queridos.
Vem à mente um canto ouvido tantas vezes na Igreja, que diz: «Que procurais, mulheres, aqui em baixo, aquele que estava morto não está aqui…». A perspetiva é outra. Um abraço. Talvez a própria ressurreição seja um grande abraço. Somos feitos de abraços.
Walter Lamberti
PENSAMENTO DA SEMANA
A vida não é sobre termos tudo...
...É, antes, sobre cuidar de tudo o que temos, de tudo o que somos.
É reconhecer o valor dos pequenos gestos, acolher as pessoas que caminham connosco de forma inteira,
aquelas que veem para além do que podemos oferecer, e que nos amam pelo que habita dentro do nosso coração.
A verdadeira beleza da vida revela-se na capacidade de a abraçarmos por completo. Na coragem de permanecermos fiéis a nós próprios, não pelo que o mundo espera que sejamos, mas pelo que acreditamos poder oferecer à própria existência.
Nos momentos decisivos,
Deus ilumina o nosso caminho.
Carla Correia (Adaptado)
INFORMAÇÕES
MÊS DAS ALMAS NA RIBEIRA SECA
Durante o mês de novembro, também chamado “Mês das Almas”, haverá missa na Ribeira Seca, de segunda a sexta-feira, às 7h 45.
O peditório para as “Missas das Almas” será feito nos moldes dos anos anteriores.
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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