Nº 1228

Viemos para incomodar…
Não digo isto com orgulho mas, com responsabilidade.
Por vezes sinto que vivemos numa aparente normalidade em que tudo é permitido, em que o bom senso foi substituído pelo "meu" senso. Parece que, ora, não há mal em nada, ora há mal em tudo. Gratificação é suborno e vender bifanas em plena procissão religiosa é “dar de comer a quem tem fome”. Parece que vale tudo ao ponto de perdermos a noção do que é correto ou não.
Depois, claro, há os que “vêm para incomodar” pois insistem em alertar para certas e determinadas coisas que não estão bem. É claro que são desvalorizadas e apelidados de beatas e velhos do restelo. Enfim…e alguns até são.
Não gosto de incomodar ninguém, mas sinto que às vezes sou obrigada a fazê-lo!
Não aceito discurso de ódios que incomodam tantos mas, que parecem terem boas sementeiras.
Não compreendo que uma opinião, por mais estranha que pareça, seja de imediato alvo de insulto ao invés do contraditório.
Não gosto que se use as instituições apenas para fazer bonito, para usar estatuto ou benefício.
Incomoda-me que se utilize a Igreja para “fazer” festas, benzer objetos, ou à sombra da honra de santos fazermos negócios sem qualquer busca pela espiritualidade.
Incomoda-me perceber que gostamos muito das aparências, mas pouco da prática do culto, da fé e da busca de Deus: isso é para os outros! Enquanto isso, organizam-se festas e em que se quer fazer o melhor com os melhores músicos, o maior número de andores e por aí, mas na vivência comunitária, raramente vemos os seus rostos nem o seu testemunho. Com sorte, vemos os seus filhos na catequese, mas nas eucaristias: isso é para os outros!
Incomoda-me e confesso a minha fraqueza, tolda-me a mente.
Sei que esta carta vai incomodar algumas almas e até, quiçá, dar origem a comentários que me vão incomodar, mas é assim a vida!
Raquel Rodrigues
MEDITAR
Orar é dar o seu "tu" a Deus e esquecer-se de si mesmo
O fariseu começa bem a sua oração: “Ó Deus, agradeço-Te”, são as palavras certas. Mas depois estraga tudo quando explica o motivo: porque não sou como os outros... todos batoteiros, ladrões, falsos, desonestos. "Sou muito melhor que os outros". Não se pode louvar a Deus e desprezar os seus filhos.
E aqui a oração de errada torna-se insensata: tudo começa a girar em torno de duas letras mágicas, de facto enfeitiçadas: eu, eu, eu: “Eu sou, eu jejuo, eu pago”. O fariseu adora-se a si mesmo, não consegue pronunciar a palavra mais importante do cosmos, que é: "Tu".
Orar é entregar do teu “tu” a Deus, agradecer porque o centro da fé nunca é o que faço ou deixo de fazer para Deus, mas o que Ele faz por mim.
Olhando mais de perto, o que o fariseu adora nada mais é do que as normas da lei. O Deus a quem presta culto é a lei. Na realidade, os preceitos da lei, dizem os rabinos, são como a cerca que bordeja o caminho, servem para não errar o caminho, para não perder a direção, mas Deus não é a cerca: Ele está no fim da estrada como um mundo que se abre, um abraço caloroso, um oceano criativo, uma onda de luz e paz.
Alegria de viver, terra e céus novos. O fariseu tem as palavras e a atitude de um homem que não espera mais nada do amanhã, sem mais desejos. Tem tudo, está cheio, satisfeito, firme. Uma estupidez que bloqueia o pensamento, fecha o coração, destrói a fonte interior do desejo. A sua tornou-se a verdadeira vida ateia.
Com efeito: Deus é o totalmente Outro, que entra na história para que a história se torne totalmente diferente do que é (K. Barth). Deus é a diversidade que vem, para que a vida se transforme e floresça. Mas o fariseu não tem nada que possa florir, não quer outro Deus além de si mesmo, quer o idêntico a si mesmo.
Na realidade, ele dirige-se à caricatura de Deus, à sua máscara deformada. Em vez disso, o publicano, um pedaço de humanidade curvada no fundo do templo, parado à distância, batia no peito dizendo: "Ó Deus, tem piedade de mim, pecador".
E põe em campo o corpo, o coração, as mãos e a voz: bate as mãos no coração e apenas faz sair palavras de súplica e de dor, nas quais uma palavra muito breve muda tudo: "Tu", "Senhor, tem piedade". E depois um gemido: “Sou ladrão, é verdade, mas não estou bem assim, não estou feliz comigo mesmo.
Eu gostaria de ser diferente, gostaria de mudar, mas não posso, ainda não posso, mas tu perdoas e ajudas”. O publicano deseja e espera, e gostaria de poder mudar, talvez amanhã, talvez só um poucochinho, "mas sim, com a Tua ajuda, Senhor, farei alguma coisa, mesmo que seja apenas um pequeno passo". E voltou para casa justificado, ou seja, transformado e pronto para um bom primeiro pequeno grande passo.
Ermes Ronchi
Pão por Deus – A História de uma tradição bem Portuguesa
O Pão Por Deus é uma tradição bem portuguesa, mas a sua origem evolução, a sua história até hoje é algo fascinante. Por vezes no entanto pensamos que poderá estar ameaçado por um Halloween que até poderá ter raízes longínquas partilhadas.
A globalização tem cada vez implementado mais o Halloween entre os portugueses. O fenómeno da televisão, e mais recentemente a Internet, trazem até nós esta festividade anglo-saxónica.
A Origem do Pão Por Deus Cristão
Com o passar dos anos foi cada vez mais promovido pela Igreja Católica o culto dos mortos, e a tradição de reservar lugar à mesa, e também de deixar comida para os mesmos.
Começou também o costume de deixar o primeiro pão de uma fornada nesta altura à porta da casa tapado por um pano. Seria para honrar os mortos, mas a intenção era também quem de mais pobre por ali passasse tomasse a parte física para si.
Assim este pão para os fieis defuntos começou a ter a vertente de partilha com quem necessitava.
O Terremoto de 1755
Um dos dias mais negros da história de Portugal é o de 1 de novembro de 1755. Neste Dia de Todos os Santos, Lisboa viria a sofrer a maior catástrofe da sua história, sendo muito do país também afetado por ela.
Aí os afetados por tal tormenta foram a quem algo salvou pedir Pão Por Deus, tentando ter algo para matar a fome, aos que sobreviveram à catástrofe.
Relatos contam que nos anos seguintes nesse mesmo dia se aumentou o costume do Pão Por Deus, em jeito de celebração e agradecimento a quem tinha sobrevivido. Talvez por isso esta tradição seja tradicionalmente mais forte na região da grande Lisboa.
A Evolução até aos dias de Hoje
Com o passar dos anos progressivamente passou a ser cada vez mais um peditório das crianças. No século XX, onde os registos são mais constantes e fiáveis, começamos a ver muito o Pão Por Deus como a festa das crianças.
Neste dia as crianças de manhã cedo iam de porta em porta a pedir o Pão Por Deus. Recebendo tradicionalmente frutos secos, romãs, pão e bolos.
Nos anos mais recentes, e mesmo contando alguns ciclos de menor fulgor, começou a ver-se cada vez mais como um dia em que as crianças pedem de porta em porta doces, sendo que ainda se continua a ver alguns frutos secos.
O saco de pano do Pão Por Deus é muito comum em todos estes registos, e nos dias que correm continua a existir, sendo que com a Internet temos visto muitos pequenos negócios a vender até versões personalizadas dos mesmos.
iMissio (adaptado)
PENSAMENTO DA SEMANA
O perdão! Eu sei que
será oferecido livremente
ou não será, e é só isso —
e ninguém o pode conceder
a si próprio.
Se tiver de vir,
virá por si mesmo como um ser
à parte,
um mistério, agindo
invisível como o vento faz com que folhas paradas
ou a água se movam novamente.
E esconde-me à sombra das Tuas asas.
Que o coração volte a ser tocado.
Franz Wright, in East Boston, 1966
INFORMAÇÕES
RECEITA
Festa de Nossa Senhora do Socorro - Arrematações 729,00€.
Faça download desta Carta Familiar em formato PDF: Nº 1228
Agenda Pastoral
Destaque
Mais Recente Carta Familiar em PDF!
Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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