Nº 1226

Ainda vais a tempo de seres quem és
Apercebo-me de que, muitas vezes, vivemos em esforço. Sentimos que temos de corresponder às expectativas dos pais, dos professores, dos amigos, da sociedade no geral. Vivemos como se o guião da nossa própria vida nos fosse alheio. Como se nem sempre reconhecêssemos ou tivéssemos consciência dos motivos para seguir este ou outro caminho.
Começamos cedo a querer que os outros nos aceitem. Que gostem de nós como somos, mas, para que isso aconteça, sentimos que temos sempre de ser outra coisa qualquer. Uma versão melhor. Mais bem trabalhada. Mais bem resolvida. Mais aceitável para quem nos encontra.
Começamos cedo a disfarçar. A fazer de conta que estamos a conseguir chegar a todo o lado e a fazer o que nos pedem com uma cara alegre que, tantas vezes, só queria poder estar triste. Ou amuada. Ou zangada. Ou outra coisa qualquer que sempre fica menos bem nas fotografias ou nos stories das redes sociais.
Vamo-nos habituando a sentir menos e, depois, a não sentir de todo. Para nos protegermos. Para sobreviver num mundo que valoriza o esforço sem limites, a produtividade, a mente, o racional e o saber. Assim avançamos pela vida sabendo de tudo, menos de nós e do mundo que nos habita (ou assola?) por dentro.
Creio que a vida não pode ser só isto. Não pode compadecer-se simplesmente desta promessa vazia que nos fizeram: se trabalhares muito e bem vais ser muito feliz. Se fizeres o que é esperado, vais encaixar. Se disseres o que os outros querem ouvir, mesmo que não concordes, vais ser erguido em braços.
Se assim for, ainda não percebemos nada do que viemos cá fazer. Já dizia o agora Santo Carlo Acutis, será que nos contentamos em ser fotocópias? Repetições e réplicas uns dos outros? Sem saber onde começamos e onde terminamos?
Podemos, ainda, (e agora!) começar a esculpir e a descobrir a nossa versão original. Aquela que já quer saber pouco do que os outros pensam. Que se prioriza. Que diz que não mesmo que isso provoque o espanto alheio. Que não se deixa corromper, manipular ou subornar. Que vive para ser quem é, independentemente do que os outros esperam que seja.
Ainda vais a tempo de seres quem és. Todos os outros caminhos acabarão por deixar de valer a pena.
MEDITAR
Deus oferece-nos não apenas cura, mas salvação
Dez leprosos que o sofrimento reuniu, que se apoiam uns nos outros. Assim que Jesus os viu ... Reparemos nos pormenores: assim que os viu, imediatamente, movido pela pressa daqueles que amam, diz-lhes: vão aos sacerdotes e mostrem que estão curados! Os dez metem-se a caminho e ainda estão doentes; da pele ainda brotam feridas, mas partem num ato de fé, por uma antecipação da confiança concedida a Deus e aos seus amanhãs, sem provas: "A Providência conhece apenas homens a caminho" (São João Calábria), navios que içam as velas para novos mares.
Os dez leprosos acreditam na saúde antes de vê-la, têm a fé dos profetas que amam a palavra de Deus ainda mais do que a sua concretização, que acreditam na palavra de Deus primeiro e mais do que na sua realização. E enquanto andavam, foram curados. Ao longo do caminho, um passo após o outro a saúde vai entrando neles. Sempre acontece assim: o futuro entra em nós com um primeiro passo, começa muito antes de acontecer, como uma semente, como uma profecia, como uma noite com a primeira estrela, como um rio com a primeira gota de água. E foram curados.
O Evangelho está cheio de curas, são o cortejo jubiloso que acompanha o anúncio de Jesus: Deus está aqui, Ele está connosco, envolvido nas feridas dos dez leprosos e no assombro do único que volta a cantar. E a quem Jesus diz: a tua fé salvou-te! Até os outros nove que não voltaram tiveram fé nas palavras de Jesus. Onde está a diferença?
O samaritano salvo tem alguma coisa a mais do que os nove curados. Não se contenta com o dom, procura o Doador, percebeu que o segredo da vida não está na cura, mas no Curador, no encontro com a maravilha de um Deus que mete os pés na lama das nossas ruas e os olhos nas nossas feridas.
Viu-se algum que voltasse para dar glória a Deus? Bem, "a glória de Deus é o homem vivo" (Santo Irineu). E quem está mais vivo que esse homenzinho da Samaria? Ele, o duplamente excluído, que volta curado, gritando de alegria, dançando no pó da estrada, livre como o vento? Não lhe basta voltar para os seus, para a sua família, envolto por essa inesperada dádiva cheia de vida, quer retornar à fonte de onde veio. Uma coisa é ser curado, outra é ser salvo.
As feridas fecham-se na cura, mas na salvação a nascente abre-se e entras em Deus e Deus entra em ti, na plenitude. Os nove curados encontram saúde; o único salvo encontra o Deus que dá pele de primavera aos leprosos, que faz a vida florescer em todas as suas formas e cuja glória é o homem vivo, "o homem finalmente promovido a homem" (P. Mazzolari) .
Ermes Ronchi
Demasiadas missas… e tão poucas mesas
Há padres que celebram seis, sete, oito missas num só fim de semana.
Correm de aldeia em aldeia, de igreja em igreja, como quem apaga fogos, como quem tenta segurar um edifício que já racha pelas fundações. E o que era dom, festa e encontro, transforma-se em cansaço, repetição, ritual vazio.
A Eucaristia nasceu à mesa.
Jesus não instituiu um cerimonial, instituiu uma refeição.
Partiu o pão, partilhou a vida, pôs-se ao lado dos pobres, dos pecadores, dos esquecidos.
E disse: “Fazei isto em memória de mim.”
Mas esse “isto” não era apenas o rito. Era a mesa aberta, a fraternidade, a comunhão que nasce da partilha.
Hoje, muitos já não reconhecem ali o gesto de Jesus.
Uns vão à missa como quem cumpre um dever.
Outros esperam apenas a comunhão rápida, ou um pedido atendido, ou uma intenção por um defunto.
E assim se perde o essencial: a experiência de sermos corpo, de sermos comunidade, de sermos família.
A Igreja, cansada e envelhecida, multiplica missas…
Mas multiplica vida?
Multiplica mesas onde todos cabem?
Ou estamos apenas a manter de pé um ritual que já não fala, já não aquece, já não desperta sede de Deus?
Jesus quis uma mesa larga, onde houvesse pão para todos, dignidade para todos, amor para todos.
Não um privilégio clerical, mas um direito cristão: celebrar a Sua presença no meio de nós.
E enquanto faltam padres e sobram missas, faltam comunidades vivas, e sobram bancos vazios.
O risco é grande: a Igreja desmorona-se não pelo ataque de fora, mas pelo vazio de dentro.
Quando esquecemos que o que salva não é a repetição, mas a vida partilhada.
Não a quantidade de missas, mas a intensidade da comunhão.
E talvez seja tempo de parar, olhar de frente e voltar ao começo: à mesa de Jesus.
À simplicidade do pão repartido.
À beleza de uma comunidade que aprende a viver da solidariedade, da escuta e do amor.
Porque se a missa não nos leva a partilhar a vida, a cuidar uns dos outros, a construir fraternidade… Então já não é memória de Jesus. É apenas um eco distante do que Ele sonhou.
Presbítero António Carlos dos Santos Martins, da diocese da Guarda
PENSAMENTO DA SEMANA
ÚNICO, ORIGINAL E IRREPETÍVEL
"Hoje lembrei-me que, se cada um de nós é Único, Original e Irrepetível, então, se queres fazer a diferença, ser diferente e único, sê tu mesmo!
Nunca és tão único como quando sintonizas com o que em ti é Único; nunca serás tão diferente e original como quando te libertares dos medos e das cadeias que não te deixam ser quem tu és."
Rui Santiago
INFORMAÇÕES
MISSA NO SANTUÁRIO DA CALDEIRA
No próximo domingo, 19 de outubro, às 15h 30 minutos.
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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