Nº 1223

 

Deus não cabe nas nossas caixas

«Há no ser humano uma tendência subtil e persistente: querer encaixotar Deus, reduzi-lo às nossas categorias, envolvê-lo nas nossas certezas. Damos-lhe forma com as nossas ideias, limitamo-lo com os nossos julgamentos, vestimo-lo com as nossas ideologias. Assim, sem nos darmos conta, deixamos de adorar o Deus vivo... para adorar um reflexo domesticado de nós próprios.

Mas Deus não cabe nos nossos moldes. Não é de direita nem de esquerda, não é conservador nem progressista, não é só justo nem só misericordioso: é o Todo que transborda os nossos extremos. É mistério que salva, amor que desarma, liberdade que não se deixa possuir.

Quando Jesus veio, quebrou os esquemas religiosos do seu tempo. Deixou-se tocar por pecadores, curou ao sábado, abraçou os excluídos. O seu modo de ser escandalizou quem queria um Deus previsível, rígido, “correto”. E ainda hoje custa-nos aceitar que Deus possa ser mais amplo do que as nossas doutrinas, mais terno do que os nossos limites, mais surpreendente do que as nossas tradições.

Encaixotar Deus é idolatria. Porque adorar o verdadeiro Deus implica deixar que Ele nos desconcerte, que nos tire das nossas seguranças, que nos obrigue a voltar a amar.

Implica confiar num mistério que não controlamos, mas que age sempre por amor.

Como disse Santo Agostinho: “Se o compreendes, não é Deus.” Porque o Deus verdadeiro não se deixa apanhar, deixa-se encontrar. Não se deixa definir, deixa-se abraçar.

E só quando deixamos de encaixotá-Lo... descobrimos que Ele já saiu ao nosso encontro, com uma ternura que não tem limites e uma verdade que não precisa de correntes.»

Saúl Marrero

 

MEDITAR

A verdadeira riqueza "é fazer amigos"

Uma outra parábola com um final surpreendente: o enganado elogia o seu burlão. O louvor do senhor, porém, tem um alvo preciso, não se refere à desonestidade do administrador, mas à sua astúcia (louvou aquele homem porque agiu com astúcia). Ele foi capaz de parar e pensar (disse a si mesmo: o que vou fazer?) E aí começou a entender a diferença entre a falsa riqueza e a verdadeira riqueza. Então começou a usar o património económico para criar o património real, o relacional: fazer amigos que o acolham.

Senta-te e escreve cinquenta, pega no recibo e escreve oitenta.

Talvez esteja pronto para retirar da dívida a percentagem que lhe era devida, mas isso não é certo. Descobriu onde investir: compartilhar as dívidas para gerar renda, amizade, renda de amizade espiritual

E a história continua garantindo que é preciso bons amigos e boas relações na vida, porque só estes lhes podem dar um futuro, mesmo “nas mansões eternas”. Vida eterna, casa eterna, são termos que na boca de Jesus não indicam tanto o que acontecerá no final da vida, no céu ou no submundo, mas o que torna a vida verdadeira, já a partir de agora, aqui entre nós, a vida como deve ser, o autêntico do humano.

E aqui está o maravilhoso mandamento: façam amigos. Mesmo com riqueza desonesta. As pessoas valem mais do que o dinheiro. O bem é sempre bem, é bem de qualquer maneira. A esmola, mesmo dada por um ladrão, não deixa de ser esmola. O bem nunca é inútil. Não é o mal que revoga o bem que se fez. Acontece o contrário: é o bem que revoga, anula, desfaz o mal que se cometeu.

Ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e às riquezas. O grande poder da riqueza é tornar-nos ateus. O verdadeiro inimigo, o adversário de Deus na Bíblia não é o diabo, na verdade Jesus liberta a pessoa dos demónios que se instalaram nela. O concorrente de Deus nem é o pecado: Deus perdoa e elimina os pecados. O verdadeiro concorrente de Deus, o Deus alternativo, é a riqueza. A riqueza é ateia. Conquista a confiança, dá certezas, arranca o coração. O rico é doente de ateísmo.

Não importa que frequente a igreja, é um aspeto superficial que não muda a substância. O seu Deus está no banco. E o seu coração está lá, ao lado do seu dinheiro.

A solução que Jesus oferece é "fazer amigos": serão eles que os irão receber, antes e melhor do que os anjos. Ou, talvez, ele esteja a dizer que as mãos de quem te ama acabam em anjos.

Os teus amigos abrirão a porta como se o céu fosse a sua casa, como se as chaves da eternidade para ti tivessem sido encontradas por aqueles que fizeste felizes por um dia ou uma vida.

Ermes Ronchi

 

OS DOIS IRMÃOS

«Dois irmãos, um solteiro e o outro casado, possuíam uma quinta cujo solo fértil produzia grão abundante, que os dois irmãos repartiam por partes iguais. No início, tudo corria perfeitamente. Mas chegou um momento em que o irmão casado começou a acordar assustado todas as noites, pensando: «Não é justo. O meu irmão não é casado e leva metade da colheita; mas eu tenho mulher e cinco filhos, por isso na velhice terei tudo o que precisar. Quem cuidará do meu pobre irmão quando ele for velho? Ele precisa de poupar para o futuro muito mais do que eu, porque a sua necessidade é, evidentemente, maior do que a minha». Então levantava-se da cama, ia sorrateiramente até ao irmão e despejava um saco de grão no seu celeiro.

Também o irmão solteiro começou a acordar à noite e a dizer a si mesmo: «Isto é uma injustiça. O meu irmão tem mulher e cinco filhos e leva metade da colheita. Mas eu não tenho que sustentar mais ninguém além de mim. Será justo que o meu pobre irmão, cuja necessidade é maior do que a minha, receba o mesmo que eu?». Então levantava-se da cama e levava um saco de grão ao celeiro do irmão.

Um dia, levantaram-se da cama ao mesmo tempo e tropeçaram um no outro, cada um com um saco de grão às costas.

Muitos anos depois, quando já ambos tinham morrido, o facto tornou-se conhecido. E quando os cidadãos decidiram erguer um templo, escolheram o local onde os dois irmãos se tinham encontrado, porque não acreditavam que houvesse na cidade um lugar mais santo do que aquele.»

 

 Anthony de Mello, in A oração da rã

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

Se Ele não se tivesse mostrado,

como é que O conheceríamos?

A menos que Ele nos mostre o caminho,

como podemos conhecê-Lo?

Ele apresentou-se a nós por bondade

De que outra forma poderíamos conhecê-Lo?

 

Temos tentado racionalizar

o nosso caminho até Ele:

não resultou;

mas no momento em que desistimos,

nenhum obstáculo restou.

Hakim Sanai, in  Jardim Amuralhado da Verdade


 

INFORMAÇÕES

RECEITA

Culto comunidade da Calheta - 3.751,00€

 

REUNIÃO DE CATEQUISTAS

Ribeira Seca - 22 de setembro às 18h30;

Calheta - 23 de setembro às 18h30;

Biscoitos - 24 de setembro às 18h30 horas.

 

FESTA DO BOM JESUS

FAJÃ GRANDE

Tríduo: 24, 25 e 26 de setembro às 20 horas.

Festa dia 28 de setembro:

                        - Eucaristia de festa às 16 horas seguida de arrematações e  procissão.


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Nº 1276

Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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