Nº 1222

 

Regressa a ti!

Setembros é o mês dos recomeços. Dos reinícios. Da despedida do verão que nos parece sempre que passou demasiado depressa. Vamos sendo protagonistas e personagens deste modo de vida que nos obriga a estar sempre onde já não estamos. É como se a velocidade de tudo nos avassalasse. Ainda agora era verão, e estávamos na praia a tomar banhos de mar ou de piscina e, de repente, já o tempo parece estar mais fresco e já sabe bem vestir um casaco ou uma camisola.

Sinto cada vez mais que a vida passa por nós em vez de sermos nós a ter a ousadia de passar por ela. Como se nos tivéssemos deixado levar por um ritmo e por uma dimensão de tempo que nos torna cada vez mais efémeros e menos presentes.

Tudo o que se anuncia é com uma antecedência que nos faz viver no futuro e a ignorar o momento presente. Também esse incentivo nos faz sentir uma ansiedade maior, uma crescente necessidade de controlar o que nos foge das mãos a cada instante.

Talvez valha a pena trazer mais presença a este mês de setembro. Menos pressa e um bocadinho mais de luz sobre todas as coisas que nunca deixaram de ser importantes: a família, os amigos, as pessoas que conhecemos e que nos são queridas que estão a passar por um momento difícil, o cuidar do nosso tempo de descanso e de não produtividade. O querer desenvolver mais a nossa humanidade e menos aquilo que nos faz ser cada vez mais parecidos com um personagem de inteligência artificial. No nosso caso seria mais de “consciência artificial”.

Mesmo nesta dinâmica de regresso às aulas e ao trabalho, neste mergulhar de horários que nos fazem sentir menos e pensar mais, fica o convite para respirar fundo mais vezes. Para parar para perceber o que é que, realmente, estamos a precisar de ser ou de fazer neste momento.

O trabalho pode esperar, mas a vida não.

Os horários mudam-se, mas as pessoas não.

Neste regresso à rotina de todos os dias, saibas tu (e saibamos nós) regressar ao que somos. (Re)conhecer o que nos habita e encontrar tempo para amar o que precisa e os que precisam. É só o hoje que temos! E que tens!

 Marta Arrais

 

MEDITAR

EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

Um sentido para celebrar uma festa que se chama “Exaltação da Cruz” numa sociedade que procura apaixonadamente o conforto, a comodidade e o máximo bem-estar

Na Festa da Exaltação da Santa Cruz, a Igreja propõe o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 3, 13-17.

Para quem desconhece o significado da fé cristã no Crucificado, esta festa que os cristãos celebram é incompreensível e até disparatada. Que sentido pode ter celebrar uma festa que se chama “Exaltação da Cruz” numa sociedade que procura apaixonadamente o conforto, a comodidade e o máximo bem-estar?

Mais de um perguntará como é possível continuar ainda hoje a exaltar a cruz. Não ficou já superada para sempre essa forma mórbida de viver exaltando a dor e procurando o sofrimento? Temos de continuar a alimentar um cristianismo centrado na agonia do Calvário e das chagas do Crucificado?

São sem dúvida perguntas muito razoáveis, que necessitam uma resposta clarificadora. Quando os cristãos olham o Crucificado, não exaltam a dor, a tortura e a morte, mas o amor, a proximidade e a solidariedade de Deus que quis partilhar a nossa vida e a nossa morte até ao extremo.

Não é o sofrimento que salva, mas o amor de Deus que se solidariza com a história dolorosa do ser humano. Não é o sangue que, na realidade, limpa o nosso pecado, mas o amor insondável de Deus que nos acolhe como filhos. A crucificação é o acontecimento em que melhor nos revela o Seu amor.

Descobrir a grandeza da Cruz não é atribuir não sei que misterioso poder ou virtude à dor, mas confessar a força salvadora do amor de Deus quando, encarnado em Jesus, sai a reconciliar o mundo consigo.

Nesses braços estendidos que já não podem abraçar as crianças e nessas mãos que já não podem acariciar os leprosos nem abençoar os doentes, os cristãos “contemplam” Deus com os Seus braços abertos para acolher, abraçar e sustentar as nossas pobres vidas, quebradas por tantos sofrimentos.

Nesse rosto apagado pela morte, nesses olhos que já não podem olhar com ternura as prostitutas, nessa boca que já não pode gritar a Sua indignação pelas vítimas de tantos abusos e injustiças, nesses lábios que não podem pronunciar o Seu perdão aos pecadores, Deus nos revela como em nenhum outro gesto o Seu amor insondável à Humanidade.

Por isso, ser fiel ao Crucificado não é procurar cruzes e sofrimentos, mas viver como Ele numa atitude de entrega e solidariedade, aceitando se necessário a crucificação e os males que nos podem ocorrer como consequência. Esta fidelidade ao Crucificado não é de dor, mas de esperança. A uma vida “crucificada”, vivida com o mesmo espírito de amor com que viveu Jesus, só lhe espera a ressurreição.

José António Pagola

 

MARIA - MÃE E DISCÍPULA

«Quando tentamos unir a Maria dos evangelhos e a Mãe Celestial dos visionários, diluímos a extraordinária e única figura da mãe e discípula do Cristo no caldo das crenças mais extravagantes.

Também nos nossos dias constatamos as consequências de uma certa pregação que está desconectada da Escritura e de algumas práticas de piedade que distorceram a figura de Maria.

É uma Nossa Senhora que muitos, ainda hoje, entendem como mais bondosa e mais compreensiva do que Deus e assim é colocada como amortecedor entre a ira terrível do Pai Eterno e a humanidade pecadora.

Quem foi realmente Maria? O que sabemos dela? Como era a sua vida quotidiana? Quais foram as dificuldades que, como todos os seres humanos, ela teve de enfrentar?

Na Maria dos evangelhos descobrimos que não existe nenhum traço da doce mãezinha celeste dos visionários, mas aparece uma mulher forte e corajosa, capaz de enfrentar grandes dificuldades para ser fiel seguidora do Cristo.

O aprofundamento das Escrituras permite que possamos redescobrir Maria do jeito como a tinham visto muitos Padres da Igreja, desde Atanásio até Agostinho: irmã na fé. Uma irmã para acompanhar na caminhada, abandonando as imagens “que sofreram os desgastes do tempo e que precisam de uma renovação” (Marialis Cultus, 24), imagens estas que não fazem justiça à sua verdadeira grandeza.

Maria não é a galinha sob as asas da qual podemos procurar proteção, mas a mulher ao lado da qual se deve caminhar para que “sejam derrubados os poderosos dos seus tronos, elevados os humildes, repletos de bens os famintos e mandados embora os ricos de mãos vazias” (Lc 1,52-53).

É esta a Maria que encontramos nos evangelhos. Uma mulher que é grande não só porque é a mãe de Jesus, mas porque tornou-se a fiel discípula dele, aquela que se coloca ao lado do justiçado na cruz, contra quem o crucificou, tomando assim decididamente o partido dos oprimidos, dos pobres, dos marginalizados, dos desprezados.

Por isso, a mãe de Jesus é apresentada pelos evangelistas como o sinal concreto daquilo que Deus pode realizar a respeito de todos os que não coloquem obstáculos ao poder do Seu Amor.»

Alberto Maggi

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

"Há um Silêncio enorme em nós que nos chama acenando, e a entrada neste Silêncio é o começo de um ensinamento sobre a linguagem do céu.

Porque o Silêncio é, em si, uma linguagem de profundidade infinita, mais fácil de entender porque não contém palavras, mais rica em compaixão e em eternidade do que qualquer forma de expressão humana.

Não há nada no mundo que se pareça tanto com Deus quanto o Silêncio."

 Mestre Eckhart


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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