nº 1216

Descansar sem culpa(s)
Chegamos ao fim de mais um ano letivo. Para muitos, esta é a medida de tempo que rege a época de trabalho e de descanso. O verão traz-nos a promessa de um tempo novo. Sem grandes preocupações nem responsabilidades. Sem grandes decisões ou complicações. Sem tantas dificuldades ou entraves. O trânsito nas grandes cidades abranda e faz-nos sentir que a vida seria mais fácil se não quiséssemos sempre ir todos para os mesmos sítios, a toda a hora. A migração de verão levará este movimento para sul, onde nos encontraremos novamente e desejaremos, então, ter escolhido um destino de férias mais sossegado.
Parece que já não sabemos estar em lugares que não estão na moda, que não são mostrados nas redes sociais e que ninguém conhece. Bendito esse tempo da nossa infância em que as férias para sul significavam uma viagem de carro de dia inteiro, mas não implicavam o (re)encontro com milhares de pessoas. O tempo era diferente, a dispersão mais saudável e repartida. Havia tempo e espaço para todos. E sobrava. Não havia tantos atropelos nem na rua, nem nas praias, nem nos restaurantes que, por milagre, estão sempre cheios apesar “da(s) crise(s)”.
Usamos o verão para esquecer. As férias são arma pacífica e florida que não nos deixa espaço para sermos infelizes ou para desvelar as negatividades que nos assolam no resto do ano. E que bom que é.
Será? Será bom usarmos este tempo para esquecer o que não deixa de lá estar?
Ou faria mais sentido encontrar espaço para o descanso mais frequentemente, bem como para todas as outras emoções, sentimentos e eventos mais ou menos disruptores?
Queremos esquecer tudo num mês. Com três ou quatro mergulhos na piscina ou no mar que está cada vez mais quente (!).
Lamento informar que não é assim que funciona. O verão é só o verão e a vida continuará a desenrolar-se em nós como no inverno ou noutro tempo qualquer.
Que possamos encontrar tempo para descansar, para deixar o sol nutrir o corpo e a alma, mas que possamos encontrar também espaço para refletir de que formas podemos viver com mais coerência. Estejamos de férias ou não.
Boas férias! E bom descanso! Mesmo assim…
Somos ricos apenas no que sabemos compartilhar A campanha de um homem rico rendeu uma colheita abundante - uma dupla bênção de acordo com a Bíblia, mas tudo é corroído por um verme mortal. Oiçam a parábola e veem que o pano de fundo dessa história está vazio. O homem rico está sozinho, fechado no círculo murado do seu ego, obcecado pela lógica da acumulação, com apenas um adjetivo no seu vocabulário: "meu", as minhas colheitas, os meus armazéns, os meus bens, a minha vida, a minha alma. Não entra mais nenhum personagem em cena, nenhum nome, nenhum rosto, ninguém na casa, ninguém na porta, ninguém no coração. Vida desoladamente vazia, da qual até Deus está ausente, substituído pelo ídolo da acumulação. Porque os ricos nunca têm o suficiente. Investem em armazéns e silos e não sabem jogar à mesa das relações humanas, única garantia de felicidade. Aqui está o gatilho para o drama: solidão total. A acumulação é a sua idolatria. E os ídolos eventualmente devoram os seus próprios devotos. Enganando-os: "Minha alma, tens muitos bens por muitos anos, diverte-te e aproveita a vida". Será este, afinal, o erro que estraga tudo? Querer aproveitar a vida? Não. Também para o Evangelho é dado como certo que a vida humana é, e não pode deixar de ser, uma busca incessante da felicidade. Mas o desafio da felicidade é que nunca pode ser solitário e sempre tem a ver com o dom. O homem rico entrou em atrofia de vida, não treinou mais os músculos da dádiva e das relações: Tolo, esta mesma noite... Tolo, porque vazio de rostos, só vive uma longa morte. Porque o coração solitário adoece; isolado, morre. Assim, uma pessoa gera a sua própria morte. De facto: nessa mesma noite será pedida a sua vida de volta... Estar vivo amanhã não é um direito, é um milagre. Ver o sol e os rostos queridos pela manhã não é óbvio nem devido, é um dom. E que amanhã os bilhões de células do meu corpo ainda estejam todas conectadas, coordenadas e solidárias é um milagre improvável. E o que acumulaste de quem será? A pergunta final, a única que permanece quando não resta mais nada, é esta: depois que tenhas passado, atrás de ti, no teu mundo, resta mais vida ou menos vida? É o único bem. A parábola lembra as simples e subversivas leis evangélicas da economia, aquelas que derrubam as regras do jogo e que podem ser reduzidas a apenas duas: 1. não acumular; 2. se tiver, tem para compartilhar. Diante de Deus, somos ricos apenas no que compartilhamos; somos ricos com um, muitos copos de água doce que se dão; de um, de cem passos dados com quem temia ficar sozinho; somos ricos com um coração que perdoou sete vezes, setenta vezes sete. Ermes Ronchi Quando falo em raízes não é naquilo que te prende, mas aquilo que te alimenta?MEDITAR
Quais são as tuas raízes?
Por mais cidadãos do mundo que sejamos temos sempre algumas raízes que nos fazem fazer sentir em casa. Não sei se já te aconteceu sentires um cheiro que te faz viajar para um lugar onde já foste feliz. Um barulho que te lembra algo ou alguém, ou um sabor que te faz viajar? Eu já! Reparo que tudo isso me relembra a construção daquilo que hoje sou e como lido com as coisas mais simples do meu dia a dia, bem como as mais complexas.
Somos feitos de regressos a casa, à nossa árvore onde recarregamos e nos nutrimos.
Somos feitos de aconchegos e conforto e de tanto que nos alimenta o espírito.
Por vezes parecemos árvores frondosas capazes de resistir a ventos e vendavais, outras apenas um tronco frágil prestes a tombar, mas na verdade o que se vê não demonstra as raízes que nos sustentam. É certo que algumas raízes nos prendem e até restringem alguma vontade de virar costas, mudar de sítio e começar de novo, mas são essas raízes que também nos seguram quando tudo parece estar a sair do lugar.
Sou grata por ter muitas raízes, por entrar em lugares onde as pessoas me conhecem, frequentar encontros em que não me sinto estranha porque significa que as minhas raízes vão dando frutos de empatia e intimidade. São essas raízes que marcam quem sou e como quero ser, mais do que parecer.
Quando os teus frutos não forem os mais bonitos, não culpes uma ou outra raiz, pois se reparares elas vão acabar por se fundir para dar um certo resultado. Por mais troncos que tenhas na tua vida, lembra-te que as raízes, que são a parte menos visível, é a que realmente te segura.
Por isso volta e meia podemos parar e pensar em quem são essas raízes, o que te segura, o que te alimenta...na verdade aquilo que faz que sejas quem és.
E para ti , quais são as tuas raízes?
Raquel Rodrigues
PENSAMENTO DA SEMANA
Senhor, eu aprenderei também a ajoelhar
no mundo do invisível
do inescrutável e do eterno.
Então, não me moverei mais do que as folhas de uma árvore
num dia sem vento e
banhado de luz,
como o vagabundo que, finalmente, chega a casa
e ajoelha em paz, despojado das coisas desnecessárias;
de todo o movimento; até de palavras.
Mary Oliver, in Sede
INFORMAÇÕES
BAZAR
A direção da Sociedade União Popular da Ribeira Seca, pede a colaboração e ajuda com prémios para o bazar para a festa da Filarmónica que vai ser realizada nos dias 22, 23 e 24 de agosto. Os prémios podem ser entregues na Sociedade ou aos elementos da Direção.
Faça download desta Carta Familiar em formato PDF: nº 1216
Agenda Pastoral
Destaque
Mais Recente Carta Familiar em PDF!
Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
Os nossos Links
Ouvidoria de São JorgeFAJÃS Grupo de Jovens
Cartas Familiares Anteriores
Visitas
Ver Estatísticas
