Nº 1211

 

SEGUIR JESUS

«Jesus não deixou atrás de si uma “escola”, ao jeito dos filósofos gregos, para que se fosse aprofundando a última dimensão da realidade. Também não pensou em nenhuma instituição que assegurasse no mundo a verdadeira religião. Jesus deu início a um movimento de “seguidores” que se encarregariam de anunciar e desenvolver o projeto do “reino de Deus”. Foi daí que nasceu a Igreja de Jesus. Por isso, não há nada tão importante para nós como renovar incessantemente, dentro da igreja, o seguimento fiel da sua pessoa. Seguir Jesus é o único que nos torna cristãos.

Embora por vezes nos esqueçamos, é essa a primeira opção dos cristãos: seguir a Jesus. Essa decisão mudaria tudo. Seria começar a viver de maneira diferente a fé, a vida, a realidade de cada dia. Seria encontrar, finalmente, o eixo, a verdade, a razão de viver, o caminho. Seria poder viver dando um conteúdo real à adesão a Jesus: crer no que Ele cria; viver o que Ele vivia; dar importância àquilo que Ele dava; interessar-se por aquilo que Ele se interessava; tratar as pessoas como Ele as tratava; ver a vida como Ele a via; rezar como Ele rezava; contagiar a esperança como Ele a contagiava.

Seguir Jesus implica pôr os pobres no centro do nosso olhar e do nosso coração: situar-nos na perspetiva dos que sofrem, fazer nossos os seus sofrimentos e as suas aspirações e assumir a sua defesa.

Seguir Jesus é viver com compaixão: deitar fora a indiferença, não viver só de abstrações e de princípios teóricos, mas aproximarmo-nos das pessoas na sua situação concreta.

Seguir Jesus exige a promoção do acolhimento: não viver com mentalidade de seita, não excluir nem excomungar, fazer nosso o projeto integrador e inclusivo de Jesus, derrubar fronteiras e construir pontes, eliminar a discriminação.

Seguir Jesus é assumir a crucificação pelo reino de Deus: não evitar a nossa identificação nem o nosso empenhamento por medo das consequências dolorosas, carregar com o peso do “anti-reino” tomar a cruz de cada dia em comunhão com Jesus e com os crucificados da terra.

Seguir Jesus é confiar no Pai comum, invocar o seu nome santo, pedir a vinda do seu reino e semear a esperança de Jesus contra toda a esperança.»

 

José António Pagola, in Jesus, uma abordagem histórica

 

MEDITAR

No fim, seremos julgados pelo amor

Na margem do lago (cf. João 21,1-19), uma das perguntas mais elevadas e exigentes de toda a Bíblia: «Pedro, tu amas-me?». É comovente a humanidade do Ressuscitado: implora amor, amor humano. Pode ascender aos céus se estiver seguro de ser amado. Não pergunta: Simão, compreendeste o meu anúncio? Está claro para ti o sentido da cruz? Diz: deixo tudo ao amor, e não a projetos de que género forem. Agora tenho de ir, e deixo-vos com uma pergunta: suscitei amor em vós? Na realidade, as perguntas de Jesus são três, diferentes de cada vez, como três etapas através das quais se aproxima passo a passo de Pedro, da sua medida, do seu frágil entusiasmo.

Primeira pergunta: «Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?». Jesus utiliza o verbo do ágape, o verbo do amor grande, do máximo possível, do confronto vencedor sobre tudo e sobre todos.

Pedro não responde com precisão, evita quer a comparação com os outros, quer o verbo de Jesus: adota o termo humilde da amizade, “philéo”. Não ousa afirmar que ama, muito menos mais do que os outros, um véu de sombra sobre as suas palavras: certo, Senhor, Tu sabes que te quero bem, sou teu amigo!

Segunda pregunta: «Simão, filho de João, amas-me?». Já não importam as comparações com os outros, cada um tem a sua medida. Mas há amor, amor verdadeiro por mim? E Pedro responde entregando-se ainda ao nosso verbo sussurrado, o mais tranquilizador, mais humano, mais próximo, que conhecemos bem; agarra-se à amizade e diz: Senhor, eu sou teu amigo, Tu sabe-lo!

Terceira pergunta: Jesus volta a reduzir as suas exigências e aproxima-se do coração de Pedro. O Criador faz-se à imagem da criatura e emprega os nossos verbos: Simão, filho de João, queres-me bem, és meu amigo?». Pelo menos o afeto, se o amor é demasiado; pelo menos a amizade, se o amor te mete medo. «Pedro, posso ter de ti um pouco de afeto?».

Jesus demonstra o seu amor baixando de cada vez as suas expetativas, esquecendo o fulgor do ágape, colocando-se ao nível da sua criatura: o verdadeiro amor põe o tu antes do eu, põe-se aos pés do amado. Pedro sente o pranto subir-lhe à garganta: vê Deus mendicante de amor. Deus das migalhas, a quem basta tão pouco, com a sinceridade do coração.

Quando interroga Pedro, Jesus interroga-me. E a questão é o amor. Não é a perfeição que Ele procura em mim, m as a autenticidade. No anoitecer da vida, seremos julgados pelo amor (cf. João da Cruz). E quando ele se abrir para o dia sem ocaso, o Senhor, mais uma vez, apenas me perguntará: queres-me bem? E mesmo que mil vezes o tenha traído, ele mil vezes me perguntará: queres-me bem? E outra coisa não tenho que responder a não ser, mil vezes: sim, quero-te bem. E choraremos juntos de alegria.

Ermes Ronchi

 

Ninguém nos acontece por acaso

Ninguém chega à nossa vida por casualidade. Há quem venha para nos ensinar, para nos testar, para nos fazer perder a cabeça. E há quem venha para nos alinhar, para nos nutrir e para nos recordar do nosso propósito como pessoas, neste plano terreno.

Há pessoas que, quando se cruzam connosco, gostaríamos de guardar para sempre e, pelo contrário, haverá outras que desejaríamos não ter encontrado.

No entanto, tanto as primeiras como as segundas são igualmente importantes. As pessoas boas e valiosas trazem-nos ar novo para respirar. Dilatam-nos o coração e abrem espaço para que nos conheçamos melhor, para que saibamos aproveitar a vida a partir do lado certo. Estão por perto quando precisamos, mas também sabem dar-nos o espaço necessário quando estamos a reorganizar a nossa bússola interna.

As pessoas que se revelam diferentes do que esperávamos, ou que nos desiludem, também nos trazem uma mensagem importante. Aliás, várias. A primeira é a de partirmos com menos expectativas quando conhecemos alguém. Cada pessoa tem o seu mundo interno e está refém das suas próprias dores e histórias. E, muitas vezes, os ecos dessas dores e dessas histórias (por estarem guardados há tanto tempo) derramam por cima de quem está mais perto. Claro que isso causa desentendimento, mágoa e incompreensão de ambas as partes. Contudo, e mais uma vez, há uma lição importante a receber: todas as pessoas trazem coisas para nos ensinar sobre elas, sobre o mundo e sobre nós próprios.

Mas o que escrevo hoje é um elogio às pessoas que nos marcam.

Que nos salvam sem boias nem grandes aparatos, mas que nos resgatam inúmeras vezes.

Que nos acrescentam dias à vida que, tantas vezes, nos entorpece a vontade e o entusiasmo.

Que nos mostram que há caminho, mesmo quando queremos estar parados.

Que nos dão sem querer (ou pedir) nada em troca.

Que nos renovam pela forma genuína como nos olham e como nos tocam, mesmo quando nem estão perto fisicamente.

É por essas pessoas que vale a pena fazer caminho.

Mas por todas as outras, também.

Marta Arrais

 

 PENSAMENTO DA SEMANA

 

POÉTICA DO CUIDADO

Que a palavra limpe as feridas,

seja bastão seguro para algumas pernas fracas,

lente para aqueles olhos

a que a névoa tira a vista,

altifalante de gargantas sem sino,

lenço dessas lágrimas

que não esperam chegar ao mar,

e colher que não hesita

diante de bocas fechadas

que se negam para a vida.

E que o homem que leve às costas

a mochila com as lentes e bastões,

altifalantes, lenços e colheres,

de seus silêncios faça

escola de segredos

e trono de humildade.

Francisco Caro


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Nº 1276

Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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