Nº 1207

 

CRIANÇA

O Espirito de Deus é como uma criança…

Mete-se onde não é chamado,

toca no intocável,

mexe e remexe…

Nós é que adoramos crescer e passar a ter tudo controlado,

a vida bem arrumadinha,

os lugares habituais

e os dias viciados…

Então,

vem o Espírito de Deus, como um Sopro,

a pôr tantas coisas em pé de vento…

Ou como uma criança,

a surpreender de novidade as nossas arrumações,

a levantar “porquês” intermináveis às nossas certezas mais antigas,

a trocar a ordem de todas as nossas prateleiras

e a revelar-nos que é sempre possível começar de novo

e fazer coisas novas.

O Espírito de Deus é como uma criança…

Uma fonte inesgotável de energia e um risco contínuo de novidade.

Quando nós deixamos,

renova as mentalidades,

renova os corações,

renova as esperanças

e renova as estruturas.

Quando deixarmos de ter tudo tão arrumadinho e certinho,

vamos deixar que o Espírito Santo,

a Infância de Deus,

faça em nós das suas…

Rui Santiago Cssr

 

MEDITAR

O último gesto de Jesus é abençoar

Com a ascensão de Jesus, com o seu corpo ausente, afastado do nosso olhar e do nosso ávido toque, começa a nostalgia do céu. Encarnou no ventre de uma mulher, revelando o profundo desejo de Deus de ser um homem entre os homens e agora, subindo ao céu, carrega consigo o nosso desejo de ser Deus.

A ascensão ao céu não é uma vitória sobre as leis da gravidade. Jesus não foi para longe ou para o alto ou para algum canto remoto do cosmos. Ele "subiu" ao profundo do ser, "desceu" ao intimo da criação e das criaturas, e por dentro pressiona como uma força ascendente em direção a uma vida mais brilhante. A esta navegação do coração Jesus chama os seus. A mover o coração, não o corpo.

O Mestre sai da terra com um balanço deficitário, um fracasso a julgar pelos números: da multidão que o aclamava, há apenas onze homens assustados e confusos, e um pequeno núcleo de mulheres tenazes e corajosas. Seguiram-no por três anos nas estradas da Palestina, não entendiam muito, mas amavam-no muito, sim, e todos vieram ao último encontro. Agora Jesus pode retornar ao Pai, seguro de que acendeu o amor na terra.

Sabe que nenhum daqueles homens e mulheres O esquecerá. Essa é a única garantia que Ele precisa. E confia o seu Evangelho e o sonho dos novos céus e da nova terra, não à inteligência do primeiro da classe, mas a essa fragilidade amorosa.

Então leva-os para Betânia e, levantando as mãos, abençoou-os. No momento do adeus, Jesus estende os braços sobre os discípulos, reúne-os, abraça-os e depois envia-os. É o seu gesto final, último, definitivo; uma imagem que encerra a história: os braços erguidos numa bênção sem palavras, que desde Betânia vela pelo mundo, suspenso para sempre entre nós e Deus! O mundo rejeitou-O e matou-O e Ele abençoa-o.

Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi levado para o céu. Gesto prolongado, contínuo, não precipitado, verbo expresso no imperfeito para indicar uma bênção que nunca termina, infinita; longa bênção que paira sobre o mundo e muito perto de mim: Aquele que abençoa os olhos e as mãos, abençoa o coração e o sorriso, a ternura e a alegria imprevista! Essa alegria que nasce quando se sente que nosso amor não é inútil, mas será recolhido gota a gota, vivo para sempre. Que a nossa luta não é inútil, mas produz o céu sobre a terra.

O nosso Deus migrante ascendeu: não além das nuvens, mas além das formas; não a uma navegação celeste, mas a uma peregrinação do coração: se antes estava com os discípulos, agora estará dentro deles, força ascendente de todo o cosmos para uma vida mais brilhante.

Ermes Ronchi

 

CANÇÃO DA INFÂNCIA

"Quando a criança era criança andava e balouçava os braços.

Queria que o regato fosse um rio, o rio uma corrente e esta poça o mar.

Quando a criança era criança não sabia que era criança.

Tudo estava cheio de vida, e a vida era uma só vida.

Quando a criança era criança não tinha opiniões sobre nada.

Não tinha vícios.

Sentava-se com as pernas cruzadas e de súbito desatava a correr,

tinha um remoinho no cabelo e não fazia caretas quando a fotografavam.

Quando a criança era criança era o tempo destas perguntas:

Porque sou eu e não sou tu?

Porque estou aqui, e não aí?

Quando começou o tempo, e quando acaba o espaço?

A vida debaixo do sol é apenas um sonho?

Isto que eu vejo, ouço e cheiro é apenas uma ilusão ou o mundo defronte do mundo?

O mal existe mesmo,ou são as pessoas que são más?

Como se explica que eu, que sou eu, não existisse antes de existir, e que um dia este que eu sou não seja mais este que sou hoje?

Quando a criança era criança engasgava-se com espinafres, ervilhas, arroz doce e couve-flor e agora come isso tudo e não apenas porque tem de comer.

Quando a criança era criança acordou uma vez numa cama estranha e agora também acorda algumas vezes.

Achava muitas pessoas bonitas e agora acha apenas algumas, poucas.

Tinha uma ideia exata do Paraíso e agora mal o imagina.

Não concebia o nada e agora estremece com a sua ideia.

Quando a criança era criança brincava com entusiasmo e agora fica igualmente excitada mas só quando se trata da sua profissão.

Quando a criança era criança as uvas caíam nas suas mãos como só as uvas ainda caem hoje.

As avelãs faziam-lhe aftas na língua e ainda fazem.

No cimo de cada montanha desejava uma montanha mais alta.

E em cada cidade desejava uma cidade maior. ainda é assim.

Chegava às cerejas no topo das cerejeiras com a mesma exaltação que sente hoje.

Era tímida com os estranhos e ainda é.

Esperava a primeira neve e ainda espera.

Quando a criança era criança atirou um pau a uma árvore como se fosse uma lança e essa lança ainda oscila na árvore agora."

Peter Handke

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

A CRIANÇA OCULTA

As crianças são bocados de Deus e não sabem,

vão saltando na chuva e não se molham,

beijam o ar sem o possuir,

dão prendas sem preço, brincam sozinhas

com bolas celestiais

e estão acompanhadas de toda a presença.

As crianças felizmente desconhecem

que papel lhes darão na comédia

e quando olham vêem-te imediatamente,

vêem-te como és,

sem calcular o que vales ou o que cobras,

se és pedreiro ou arquiteto, governador ou varredor,

se és velho ou adolescente;

pois olham para ti,

não para o cargo que te deram.

As crianças brincam com a tua criança oculta

e só então vives como és.

Pedro Miguel Lamet, sj, in Saborear e Saber


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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