Nº1202

 

Até sempre, Francisco!

Ninguém queria despedir-se de ti, querido Francisco. Trouxeste o vento da mudança, da bondade, da ternura e do assentimento. Trouxeste, ao mesmo tempo, o inconformismo. E, mais importante, do que tudo: trouxeste-nos a esperança.

 Lembramo-nos todos, ainda hoje, da tua peregrinação solitária em plena Praça vazia. Os teus passos eram os de todos nós. A tua fé acendeu em nós uma luz que nos fez acreditar que sobreviveríamos aos tempos escuros que a pandemia nos trouxe. Ias sozinho, mas, ao teu lado, seguia cada um de nós. A pedir um colo certo, sem falhas, que nos fizesse acreditar novamente.

Lembramo-nos todos, ainda hoje, e para sempre, da dignidade com que trataste todos os doentes, os pobres e todos aqueles para quem nenhum de nós queria olhar. Tu quiseste. Quiseste sempre olhar para todos. E por todos.

Lembramo-nos, todos, ainda hoje (e para sempre!) da tua presença amorosa nas Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa. Gritaste, com a coragem de uma alma nobre, que a Igreja era para todos. Todos. Todos! E recordaste-nos do essencial: só o amor importa. E esse Amor que vem do Céu não tem exclusões, não separa, não combate e não mata.

Lutaste, connosco, o bom combate. A boa luta. Seguindo em frente e rasgando os véus enferrujados de uma Igreja que precisava de se fazer NOVA, diferente e que precisava de acompanhar a exigência dos novos tempos.

Foste um exemplo. A tua existência foi segura como uma rocha, mas, também, uma pena branca, leve e segura. Disposta a voar na direção do bem comum, da esperança, da paz e do amor.

Quando fui a Roma, consegui vislumbrar-te de passagem. Atirei-te uma carta escrita por mim e esperei, durante algum tempo, que me respondesses. Não me escreveste de volta, querido Francisco. E não faz mal. Porque me respondeste com o teu testemunho de vida e de amor.

E isso bastou. E basta.

Até ao Céu.

Rezamos muito por ti. Não te esqueças de rezar por nós também!

Marta Arrais

 

MEDITAR

As feridas de Jesus, o alfabeto do amor

Jesus veio com as portas fechadas. Naquela sala, onde havia medo, alguns não conseguiram permanecer trancados: Maria de Magdala e as outras mulheres, Tomé e os dois de Emaús. Para eles, que respiraram liberdade, estão reservados os mais belos e intensos encontros.

Oito dias depois, Jesus ainda está lá: O abandonado retorna àqueles que só sabem abandonar; mandou-os para as ruas e encontrou-os trancados naquele quarto; no entanto, nunca se cansa de acompanhá-los com infinita delicadeza. Dirige-se a Tomé, a quem educou para a liberdade interior, para discordar, para ser rigoroso e corajoso, vivo e humano. Não se impõe, propõe: Coloca o dedo aqui e olha para as minhas mãos; Estende a mão e mete-a no meu lado.

Jesus respeita a fadiga e as dúvidas; respeita os tempos de cada um e a complexidade do acreditar; não se escandaliza, propõe-se de novo. Que belo seria se também nós fossemos formados, como no cenáculo, mais no aprofundamento da fé do que na obediência; mais na busca do que no consenso!

Quanta energia e quanta maturidade fariam libertar! Jesus expõe-se a Tomé com todas as suas feridas abertas. Oferece duas mãos chagadas onde se pode descansar e recuperar o fôlego da coragem.

Pensávamos que a ressurreição teria apagado a paixão, fechado os buracos dos pregos, curado as feridas. Mas não: eles são a história do amor escrito no corpo de Jesus, com alfabeto de feridas, indelével agora como o próprio amor.

A cruz não é um simples incidente de um caminho a ser superado com a Páscoa, é a razão, o significado. Mete, estende, toca. O Evangelho não diz que Tomé fez isso, que ele tocou esse corpo.

Que necessidade teria? Que engano pode esconder quem é pregado no lenho, por ti? Não tocou nelas, beijou aquelas feridas, tornadas feridas de luz. Meu Senhor e meu Deus.

A fé se não contém este termo meu não é a verdadeira fé, será religião, catecismo, medo. Meu deve ser o Senhor, como diz a amada do Cântico; meu não de posse, mas de pertença: o meu amado é meu e eu sou para ele. Meu, como o é o coração e, sem o qual , eu não existiria. Meu como a respiração e, sem ela, não viveria.

Tomé, mais abençoados, são aqueles que não viram e acreditaram! Uma felicidade ao meu alcance: eu, que tento acreditar, eu, um aprendiz de crente, que nunca vi e nunca toquei em nada do corpo ausente do Senhor.

Os cristãos, só aceitando não ver, não saber, não tocar, podem chegar àquela alternativa total, a uma vida totalmente diferente que nasce na escuridão brilhante da Páscoa.

 

Ermes Ronchi

 

COMPANHEIROS DE EMÁUS

«Quantas caminhadas já teremos feito com o Senhor Ressuscitado sem sequer nos termos dado conta?!

De quantos modos o Senhor Ressuscitado já terá metido conversa connosco e tentado começar um Diálogo entre amigos?!

É importante estarmos mais atentos aos forasteiros, aos desconhecidos, aos estranhos ou estrangeiros, e termos menos defesas em relação às visitas-surpresa da nossa vida, porque parece que o Senhor Ressuscitado se sente bem nessa pele...

O Senhor Ressuscitado procura os seus amigos, encontra-os e põe-se a caminhar com eles, mesmo quando eles estão a andar para trás!

A experiência do encontro com Jesus Ressuscitado, aquele que Deus quis que estivesse para sempre Vivo no meio de nós, é uma experiência espiritual, um encontro nas coordenadas do Espírito...

O Senhor Ressuscitado não se mostra aos seus discípulos como quem se exibe, mas como uma COMPANHIA que é preciso ir descobrindo...

Jesus não se faz notar em forma de Aparição mas sim de uma PRESENÇA que ele vai construindo maravilhosa e discretamente com os seus discípulos...

A experiência pascal dos discípulos não é uma Visão exterior mas uma REVELAÇÃO que Jesus faz de si mesmo dentro de uma Relação de amizade e bem-querer...

Jesus Ressuscitado não se exibe;

faz-se nosso Companheiro!

Não aparece, como se viesse de fora;

faz-se Presente a nós!

Não se mostra de maneira mágica;

Revela-se de maneira relacional!»

Rui Santiago, cssr, In DM

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

QUE FIZESTE TU NA TUA VIDA?

 Que fizeste tu na tua vida?

Cair e erguer-me.

Aprender a curar joelhos magoados.

Deitar remendos nos rasgões.

Inventar menus para os que tinham

fome.

Cair e erguer-me.

Escutar os gritos silenciosos do medo.

Abrir espaço para todos caberem.

Somar e multiplicar a alegria de cada dia.

Tirar e dividir angústias e tristezas.

Abrir portas.

Cair e observar, de baixo.

Cair e erguer-me.

Begoña Abad


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Nº 1276

Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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