Nº 1200

O MEU DEUS É FRÁGIL
«O meu Deus não é um Deus duro, impenetrável, insensível, estoico, impassível.
O meu Deus é frágil.
É da minha raça. E eu sou da Sua.
O meu Deus conheceu a alegria humana, a amizade, o gosto pela terra e pelas suas coisas.
O meu Deus teve fome e sono e cansaço.
O meu Deus irritou-se, teve paixões.
E foi manso como uma criança.
O meu Deus tremeu perante a morte
O meu Deus alimentou-se com o leite duma mãe, sentiu e bebeu toda a ternura feminina.
O meu Deus foi desterrado.
Foi perseguido e aclamado.
O meu Deus foi um homem do seu tempo.
Vestiu como os outros, falou o dialeto da sua terra, trabalhou com as suas mãos, gritou como os profetas.
O meu Deus foi manso com os débeis e severo com os soberbos.
O meu Deus é frágil.
O meu Deus acabou com a velha moral de “dente por dente, olho por olho”, da vingança mesquinha,
e inaugurou a fronteira de um amor e de uma compaixão, totalmente novos.
O meu Deus, estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar.
Por isso, o meu Deus venceu a morte.
E brotou com um fruto novo nas mãos: a Ressurreição.
O meu Deus frágil,
o meu Deus que chora,
o meu Deus que não se defende, é difícil para tantos!
É difícil o meu Deus frágil, amigo da vida,
o meu Deus que sofreu a mordedura de todas as tentações,
o meu Deus que suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai.
É difícil este Deus, este meu Deus frágil, para quem só se triunfa vencendo;
para quem só se defende matando;
para quem salvação é sinónimo de esforço e não de dom gratuito;
para quem o humano é pecado;
para quem santo é igual a estoico e Jesus igual a anjo.
É difícil o meu Deus frágil para quem continua a sonhar com um Deus que não se pareça com os homens.»
Juan Arias, in O Deus Em Quem Não Creio (adaptado)
MEDITAR
Ao tornar-se carne, o Verbo entra agora também na morte
No Domingo de Ramos começa a semana suprema de história e da fé. Naqueles dias a que chamamos "santos" nasceu o cristianismo, nasceu do escândalo e da loucura da cruz. Ali se concentra e dali emana tudo o que diz respeito à fé dos cristãos.
Em sua consequência, dos Ramos à Páscoa, o tempo profundo, qual respiração da alma muda de ritmo: a liturgia abranda, toma outro passo, multiplica os momentos em que serenamente acompanha, quase hora por hora, os últimos dias de vida de Jesus: desde a entrada em Jerusalém, até a corrida de Madalena na manhã da Páscoa, quando até a pedra do túmulo se veste de anjos e luz. Estes são os dias supremos, os dias do nosso destino. E enquanto os crentes de todas as fés se voltam para Deus e O chamam no tempo de seu sofrimento, os cristãos vão ter com Deus no tempo em que Ele sofre. "A essência do cristianismo é a contemplação da face do Deus crucificado" (Carlo Maria Martini).
Contemplar como as mulheres no Calvário, olhos brilhando de amor e lágrimas; ficar ao lado das infinitas cruzes do mundo onde Cristo ainda está crucificado nos seus irmãos, na sua carne inumerável, triste e santa. Como no Calvário «Deus não salva do sofrimento, mas no sofrimento; não protege da morte, mas na morte. Não liberta da cruz, mas na cruz "(Bonhoeffer).
A leitura do Evangelho da Paixão é de uma beleza que me atordoa: um Deus que lavou os meus pés e ainda não foi o suficiente para Ele, que deu o seu corpo para comer e não foi suficiente; Eu vejo-O pendurado nu e desonrado, e tenho que desviar o olhar.
Mas depois volto a cabeça de novo, olho para a cruz e vejo alguém de braços abertos a gritar: amo-te. Mesmo a mim? Sangra e chora, ou talvez sussurre, para não ser intrusivo: eu amo-te. Por que Cristo morreu na cruz? Deus não foi mandante desse assassinato. Não foi Ele quem permitiu ou pretendeu que o inocente fosse sacrificado em vez do culpado. Apaziguar a justiça com sangue? Não é de Deus, quantas vezes Ele gritou aos profetas: "Não bebo o sangue dos cordeiros, não como a carne dos touros", “amor é o que quero e não o sacrifício”.
A justiça de Deus não é dar a cada um o que é seu, mas dar a cada um, mesmo a sua própria vida. Aqui, então, é que a Encarnação e a Paixão se abraçam, a mesma lógica continua até ao extremo.
Jesus entra na morte, como entrou na carne, porque na morte toda a carne entra: mas para nos amar, para estar connosco e ser como um de nós. E atravessa-a, reunindo-nos a todos nós das distâncias mais perdidas, e a Páscoa que entra no vórtice do seu ressurgir, arrasta-nos com Ele, pelo poder da ressurreição.
Ermes Ronchi
Do silêncio da cruz
Veste-se de silêncio este dia da Cruz. Veste-se de noite. Mesmo sabendo que a Vida vencerá. Mesmo sabendo.
É assim a morte. Dura. Mesmo sabendo. E é dela que falo, hoje, nesta Sexta-Feira Maior em que a própria natureza se cala para tentar perceber o mistério do fim. E do silêncio de Deus que se faz ouvir nas palavras do Filho: “ Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?”
Se a questão de Jesus fosse “a quê?”, sabíamos a resposta e dá-la-íamos sem precisar de usar as palavras. Bastaria olhar as imagens que nos entram em casa, todos os dias, sem nos fazer doer; bastaria observar, no chão que pisamos, as pegadas de quem caminha sozinho; bastaria pensar no egoísmo dos passos que não damos, no modo que encontramos para nos proteger dos outros.
Na Cruz – nas nossas também – somos convidados a escutar (e “escutar” é ouvir com o coração) e a contemplar ( e “contemplar” é ver com o coração) este vazio que antecede um Mistério que ultrapassa o nosso entendimento e que se esconde nas frases que Cristo pronuncia do alto do fim: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”; “Pai, nas tuas mãos, entrego O meu espírito”. Contam os evangelistas que o véu do templo se rasgou, depois do grito derradeiro que ainda hoje ecoa na nossa perplexidade – “tudo está consumado”.
No silêncio desse dia, Deus abriu as portas do Sagrado à nossa humanidade. Deve fazer o mesmo nos silêncios das nossas sextas-feiras da paixão, naquelas em que perdemos gente, em que nos despedimos, em que choramos, em que morremos.
Às portas das nossas mortes, do alto das nossas cruzes, tememos este silêncio de Quem tudo pode. E gritamos mais alto que o nosso medo. E duvidamos da intimidade de Quem não se revela, porque está dentro de nós. E recusamos a cruz quando ela se despe de sentido. E temos medo do escuro.
É preciso, então, aprendermos, de novo, a ciência do silêncio. Que não é fácil. Que esconde em si o Mistério de Deus e o Mistério do Homem. Mas que arranca o véu da nossa fragilidade e nos abre o céu.
Hoje, é Sexta-Feira Santa. O mundo é um campo de cruzes. Perguntamo-nos por Deus e pela razão do Seu silêncio. E esperamos. Amanhã, é dia de Ressurreição.
Graça Alves
PENSAMENTO DA SEMANA
O dom da divindade,
que habita em mim como habita em ti;
não importa a forma com que te disfarces,
tornar-te-á valioso e só te pedirá
que vivas como tal e que recordes
que o outro faz parte do mesmo prodígio
que nos é dado à nascença.
O que não precisa de palavras, o inominável,
o que já está dito desde do silêncio da criação,
o essencial, o inato, o sagrado, aberto com os olhos de abrir portas sem porta,
onde nunca ninguém entrou se não se tornou luz,
rendido a essa evidência que a tudo responde sem palavras
e que unifica o mistério da vida.
Begoña Abad
INFORMAÇÕES
PEDITÓRIO
A Comissão da casa dos bolos da Trindade da Ribeira Seca, irá fazer o peditório no domingo, dia 13 de abril.
Faça download desta Carta Familiar em formato PDF: Nº 1200
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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