Nº 1194

 

NÃO ME RESIGNO

«Cita-se com frequência uma frase de Pedro Arrupe, então Superior Geral dos Jesuítas, que afirmava: “Não me resigno a que, quando morrer, o mundo continue como se eu não tivesse vivido”.

“Não me resigno”. Uma frase de um grande homem, que hoje se torna uma pergunta para mim. E eu, como vivo? Vivo resignado ou combativo? Acomodado ou inquieto? Domesticado ou rebelde?

E a pergunta continua a ganhar forma. A que é que não me resigno?

Não me resigno a que a minha fé seja apenas rotina. Tem de ser, ao mesmo tempo, batalha, dúvida, fogo, encorajamento, refúgio e intempérie.

Não me resigno a que tantos se afastem de Deus sem conhecê-lo, sem sequer dar uma oportunidade à sua possibilidade.

Não me resigno à noite que acaba no horizonte sem esperança de outro amanhecer.

Não me resigno a que os desejos sejam maiores na minha memória que no meu agora. Nem que a injustiça me deixe indiferente.

Não me resigno aos substitutos do amor. A viver mais entretido do que entregue. À ironia cómoda e distante. À crítica sem profecia.

Não me resigno a andar em círculos girando moinhos de vento em vez de lutar contra eles.

Não me resigno à cegueira. Nem sequer a acreditar que tudo já foi dito, no mundo, na Igreja, na fé, como se os tempos não trouxessem novos sinais, novos desafios, novas situações para as quais ainda não há respostas.

Não me resigno a deixar que os distribuidores de veredictos insistam em ter a única palavra sobre tudo.

Nem aos rótulos que tornam invisíveis as pessoas, cujas histórias são únicas e preciosas.

Não me resigno a disfarçar o medo como prudência, a cobardia como silêncio ou o conforto como estratégia.»

José María Rodríguez Olaizola, sj

)

 

MEDITAR

Está escrito nas árvores: a lei da vida é dar

 

Porque reparas no cisco que está no olho do teu irmão? Notemos a precisão do verbo: porque «reparas», e não simplesmente “olhas”; porque observas e fixas o olhar sobre ciscos, ninharias, pequenas coisas erradas, perscrutas a sombra em vez da luz daquele olho? Com uma espécie de prazer maligno em procurar e evidenciar o ponto fraco do outro, a regozijares-te com os seus defeitos. Quase a justificar os teus.

Há um motivo: quem não quer bem a si próprio, só vê mal à sua volta; quem não está bem consigo, está mal também com os outros. Ao contrário, aquele que se reconciliou com o seu profundo, vê o outro com bênção. Com olhar abençoante. Deus olhou e viu que tudo era coisa muito boa (cf. Génesis 1, 31). O Deus bíblico é um Deus feliz, que não só vê o bem, como o emana, porque tem um coração de luz e o seu olho bom é uma lâmpada, onde pousa espalha luz (cf. Mateus 6,22). Um olho mau, ao invés, emana obscuridade, multiplica ciscos, espalha amor pela sombra. Ergue uma trave diante do Sol.

Não há árvore boa que produza maus frutos. A moral evangélica é uma ética da fecundidade, de frutos bons, de esterilidade vencida, e não de perfeição. Deus não procura árvores sem defeitos, com nenhum ramo quebrado pela tempestade, ou contorcido de cansaço, ou esburacado pelo pássaro ou pelo inseto. A árvore ultimada, que chegou à perfeição, não é aquela sem defeitos, mas a dobrada pelo peso de muitos frutos repletos de Sol e de sucos bons.

Assim, no último dia, esse dia da verdade de cada coração (cf. Mateus 25), o olhar do Senhor não se pousará sobre o mal, mas sobre o bem; não sobre mãos limpas ou não, sobre frutos carregados de espigas e pão, cachos, sorrisos, lágrimas enxugadas. A lei da vida é dar. Está escrito nas árvores: não crescem entre terra e céu durante dezenas de anos por si mesmas, simplesmente para se reproduzirem: ao carvalho e ao castanheiro bastaria uma bolota, um ouriço a cada trinta anos. Em vez disso, a cada outono oferecem o espetáculo de uma magnificência de frutos, um desperdício de sementes, um excesso de colheita, muito mais do que o necessário para apenas se reproduzirem. É vida ao serviço da vida, dos pássaros do céu, dos insetos esfomeados, dos filhos do homem, da mãe terra. As leis da realidade física e as do espírito coincidem.

Também a pessoa, para estar bem, deve dar, é a lei da vida: deve fazê-lo o filho, o marido, a mulher, a mãe com a sua criança, o ancião com as suas memórias. Cada ser humano bom extrai o bem do bom tesouro do seu coração. Todos nós temos um tesouro, é o coração: a cultivar como um Éden; a gastar como um pão; a proteger com desvelo porque é a fonte da vida (cf. Provérbios 4, 23). Por isso, não sejas avaro com o teu coração: dá-o.

Ermes Ronchi

 

A doença, a morte... não são uma tragédia. Tragédia é quando a gente não vive

 

Essas coisas acontecem: um jovem adoece no verão; um senhor é atropelado por um táxi; a biópsia aponta que o tumor é maligno. Essas coisas acontecem todos os dias.

E todos os dias saímos de casa achando que jamais acontecerá connosco.

Uma doença leva embora um pai; o médico comunica um exame preocupante; uma moto não para no sinal vermelho... Todos os dias isso acontece. E todos os dias os nossos planos são os mesmos: trabalho, almoço, trabalho, jantar...

Não acho que seja uma tragédia quando essas coisas acontecem connosco. Dizemos: “Que tragédia! Morreu tão cedo!". Não acho que seja uma tragédia. Acho que a vida é um amontoado de caos e coincidência. Acho que hoje estamos aqui e amanhã já não estamos.

Uma tragédia é não agradecer por esse tempinho que estamos aqui.

Uma tragédia é não valorizar a vida em família.

Uma tragédia é trocar o sorriso do nosso filho pelo aparelho eletrónico; um passeio em família pelas preocupações do trabalho.

Uma tragédia é não abraçar as pessoas hoje.

Uma tragédia é passar a vida em branco.

Uma tragédia é achar que um dia vamos ser felizes, não hoje. 

Uma tragédia é achar que não vai acontecer connosco. E a vida vai ficando para depois. 

Um dia, eu mudo de emprego.

Um dia, eu digo que gosto dela.

Um dia, eu faço uma viagem.

Um dia, eu vou ser voluntário nesse projeto.

Não acho que seja uma tragédia uma jovem cheia de planos descobrir uma doença grave. 

Acho uma tragédia quando aprendemos a valorizar o que temos só depois de o perder. 

Acho uma tragédia não termos ido ainda para aquela viagem dos nossos sonhos.

Acho uma tragédia viver de aparências.

Acho uma tragédia ter comprado coisas achando que isso seria felicidade.

Acho uma tragédia trabalhar em algo que odiamos.

Acho uma tragédia passar a vida a brigar com alguém.

A morte não é uma tragédia. Tragédia é quando a gente não vive(u).

 

Marcos Piangers

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

O EVANGELHO

O Evangelho não é uma moral ou uma política,

nem sequer uma religião

com maior ou menor futuro.

O Evangelho é a força salvadora de Deus “semeada” por Jesus no coração do mundo

e na vida dos homens.

José Antonio Pagola


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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