Nº 1193

 

FELIZES

Felizes os que lutam, os apaixonados:

os que arriscam, deixam a margem e se aventuram no mar tempestuoso.

Felizes os que ousam enfrentar as crises;

os que entram nos barcos e se interrogam sobre quem dará de comer às multidões.

Felizes os que entram em cena;

os que mergulham;

os que enfrentam as tempestades de pé.

Felizes os que assumem o leme da sua vida e da sua história, deixam de se lamentar e põem as mãos na massa.

Felizes os que arregaçam as mangas, os enlameados, os que suam, os salpicados.

Felizes os que não ficam à beira da estrada: os que marcham, gritam e constroem.

Felizes os pacientes: os que não desanimam, os que continuam a respirar utopias no meio do desânimo geral.

Felizes também os impacientes: os que têm urgência de justiça.

Felizes os que caminham no meio das sombras: os que ousam entrar na escuridão e aí procuram riquezas insuspeitadas.

Felizes os que iluminam com olhar profético as realidades que parecem obscuras.

Felizes os que descobrem flores na lama;

os que nos mostram a solidariedade das margens: o amor entre chapas de metal e cartões.

Felizes os que não se acomodam;

os que não se rendem;

os que não se "salvam".

Felizes os que fazem ninhos e os que voam;

os que brotam depois do inverno;

os que florescem na neve...

Sandra Hojman , In Fé Adulta

 

 

MEDITAR

Dar e possuir: as contas de Deus não são como as nossas

 

No passado domingo, Jesus tinha projetado no céu da planície humana um sonho: felizes vós, pobres, ai de vós, ricos. No próximo, desfia um rosário de verbos explosivos (cf. Lucas 6, 27-38).

Amai é o primeiro; e depois fazei o bem, abençoai, orai. E nós pensamos: até aqui está tudo bem, são coisas boas. Mas o que me descarna, os quatro pregos da crucificação, é o elenco dos destinatários: amai os vossos inimigos, os que vos odeiam, os infamantes, os maldizentes. Os inamáveis.

A seguir, Jesus, para limpar o campo de todo o equívoco, olha-me nos olhos, dirige-se a mim, diz no singular: «tu», após o «vós» genérico. E são mais quatro cicatrizes de cortar a respiração: dá a outra face, não recuses, dá, não peças de volta. Amor de mãos, de túnicas, de peles, de pão, de gestos.

E de novo te constringe a ver, a procurar quem não queres: quem te atinge, quem te rouba, o petulante astuto que pede sempre e nunca dá. No equilíbrio mundano do dar e do possuir, Jesus introduz o desequilíbrio divino: dá; magnificamente, loucamente, ilogicamente, dá; entrega, abençoa, empresta, aos amigos e inimigos, dá o primeiro passo. Como faz Deus.

Este Evangelho arrisca-se a ser um suplício, a nossa tortura, uma coerção a tentar coisas impossíveis. E assim se abre o caminho àquela hipocrisia que nos demole.

Ninguém viverá este Evangelho a golpes de vontade, nem sequer os mais corajosos entre nós. Mas só indo à fonte: estamos no coração de Deus, esta é a vida de Deus. Em quem nos devemos enraizar. Em quem somos filhos.

Depois, Jesus indica a segunda origem de todos estes verbos de fogo: aquilo que quereis que as pessoas vos façam, fazei-o vós a elas.

Como uma cambalhota lógica, em relação a tudo o que acabou de dizer, mas que é belíssima: não voes para longe, regressa ao coração, ao desejo, a tudo aquilo que queres para ti: todos temos uma desesperada necessidade de ser abraçados, de ser perdoados, de pelo menos uma pessoa que nos abençoe, de uma casa onde nos sentirmos em casa, de contar com o manto de um amigo. Tenho necessidade de abrir os braços sem medo e sem medida.

Aquilo que desejas para ti, dá-o ao outro. De outra forma só saberás agarrar, possuir, violar, destruir. O amor não é uma opção. É necessário para viver, e para o fazer juntos.

Naquelas palavras, penetrantes como pregos, está oculta a possibilidade para que haja um futuro para o mundo. No último dia o Pai perguntará a Abel: que fizeste do teu irmão Caim? Perdoei, dei-lhe o manto, parti o meu pão. A vítima que cuida do violento, e juntos forçam a aurora do Reino. Apenas um sonho? Verás, virão comer das tuas mãos o pão dos sonhos de Deus. Já aconteceu. Voltará a acontecer.

 

Ermes Ronchi

 

Uma noite de lamentações... quando Deus fica em silêncio

 

A ausência de Deus é obscura. O silêncio de Deus é insuportável. Às vezes a única oração que nos resta é gritar.

Quando as instituições permanecem em silêncio diante do sofrimento da nossa comunidade (migrante, vulnerável, perseguida, humilhada…), reunimo-nos num encontro de almas feridas, de medo apertando o peito, de lamentos abafados, de noites sem dormir, de preces sem resposta.

Reunimo-nos em comunidade para uma Noite de Oração e Lamentação, para ousar nomear a dor, para deixar a desolação passar por nós sem disfarçá-la com palavras de consolo artificiais e prematuras. Reunimo-nos para gritar, para dizer sem medo o que muitas vezes escondemos: “Deus permaneceu em silêncio”.

A tradição do lamento é antiga. O povo de Deus sempre clamou no meio da injustiça, rasgou as suas roupas em momentos de desespero, perguntou com a alma dilacerada: "Até quando, Senhor?" (Salmo 13).

Fizemos isso naquela noite também. Com uma tigela vazia nas mãos, com cinzas na pele, com a cruz diante de nós, com os salmos dando forma à nossa angústia. Atrevemo-nos a não fugir do vazio de Deus, a encarar de frente a sua ausência gelada.

Não houve respostas. Não houve explicações. Houve lágrimas, houve silêncio, houve indignação, houve companhia uns aos outros e juntos sentimos o vazio do abandono. E nesse abandono, encontramos uma estranha comunhão: a dor une quando Deus se cala.

Não sabemos se Deus responderá. Não sabemos quando ou como. Mas naquela noite de domingo, sabíamos que não estávamos sozinhos na espera. Não estamos sozinhos a carregar o peso de um Deus que se cala. Nós  reunimo-nos em comunidade. Não para encontrar respostas, mas para chorar a ausência juntos.

No eco do nosso lamento, descobrimos que Deus não é uma resposta, mas o abismo onde a fé e o silêncio se encontram e caminham juntos.

 Yolanda Chávez

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

NÃO CHORES...

Não chores pelo que perdeste, luta pelo que tens.

Não chores pelo que está morto, luta por aquilo que nasceu em ti.

Não chores por quem te abandonou, luta por quem está contigo.

Não chores por quem te odeia, luta por quem te quer.

Não chores pelo teu passado, luta pelo teu presente.

Não chores pelo teu sofrimento, luta pela tua felicidade.

Com as coisas que nos vão acontecendo, vamos aprendendo que nada é impossível de solucionar, apenas siga adiante.

Papa Francisco


 

 


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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