Nº 1192

ONDE ESTÁ O MEU DEUS?
«Para todos os que se apelidam de ateus e me perguntaram alguma vez “com fé”: “Onde está o teu Deus?”
Quero dizer-te que está ali onde também tu o tocaste, como eu,
mas talvez sem dares conta da Sua presença;
onde ouviste a Sua voz, mas sem a escutares;
onde vibraste com o seu beijo, mas sem O descobrires…
Deus está na tua vida vazia. É tudo o que desejarias lá meter para a encher.
Está naqueles olhos cheios de luz que, só ao olhá-los e amá-los,
te tornaram mais criança, mais inocente, mais livre;
mais poeta e mais concreto;
mais terno e mais seguro;
mais dócil e mais vivo;
menos “tu” e mais “próximo”.
Está à porta de cada desilusão; são essas mãos invisíveis em que não crês, mas que desejarias apertar, cheias de fidelidade, quentes de compreensão, eletrizantes por um afeto que resiste ao tempo.
Deus está na vida, porque a Vida não morre.
Está na felicidade desses dois amores de mãe e de esposa que agora sentes unidos, inseparáveis, inefáveis.
Está naquilo que não tem qualificativo adequado e que cada homem sente ao primeiro sorriso do filho.
Deus está ali; naquele cantinho mais secreto da tua vida, aonde ninguém chega, em que uma voz que não sabes de onde vem, nem para onde vai, te diz o que não querias ouvir, te recorda o que desejarias ter esquecido, te profetiza o que nunca desejarias saber.
Nessa voz que não ouves, mas que te chama.
Nessa voz que não é tua, mas que nasce em ti e que nem o sono, nem o barulho, nem a bebida, nem a carne conseguem fazer calar.
Está nessa resposta que ainda não te atreveste a dar e que verificas ir ser dolorosa, mas eficaz, como uma operação cirúrgica.
Está nessa felicidade que te corre pelas veias quando vês que o próximo goza de um bem-estar que tu lhe proporcionaste.
Está no gozo do bem que fizeste sem que ninguém o soubesse.
Está na paz do lago sereno das tuas lágrimas quando te reconcilias com a tua consciência e que dá a sensação de renasceres.
Está em toda a beleza.
Está em todo o gesto de amor.
Está em cada mão que se abre para o bem.
E Deus não fecha os olhos a ninguém. Se o fizesse, não seria amor.
Por isso, Deus está sobretudo onde reina o amor.»
Juan Arias (adaptado
MEDITAR
Deus dá alegria a quem constrói a paz
Se não formos sonâmbulos, este evangelho choca. "Vim trazer as boas novas aos pobres", disse ele na sinagoga, ecoando a voz de Isaías. E aqui está, o milagre: bem-aventurados os pobres, O lugar da felicidade é Deus, mas o lugar de Deus é a cruz, as cruzes infinitas dos homens. E acrescenta uma antítese deslumbrante: os pobres não são o problema do mundo, mas os ricos: ai de vocês ricos. Sílabas suspensas entre o sonho e o milagre, usadas, ainda antes de Jesus, por Maria no hino do Magnificat: saciava os famintos de vida, despedia os ricos de mãos vazias (Lc 1,53).
Se Jesus tivesse dito que a pobreza é injusta e, portanto, simplesmente fosse para eliminar, teria sido o ensinamento de um sábio atento às dinâmicas sociais (R. Virgili). Mas aquele oráculo profético, mais do que profético, aquele "bem-aventurado" que contém plenitude, felicidade, integridade, graça, colado aos famintos e chorosos, aos pobres, miseráveis, aos espancados pela vida, opõe-se à lógica, subverte o mundo, obriga-nos a olhar a história com os olhos dos pobres, não dos ricos, senão nada mudará.
E se esperássemos: bem-aventurados sereis porque haverá uma mudança, uma alternância, ireis ficar ricos. Não. O plano de Deus é mais profundo. O mundo não será melhor com aqueles que acumularem mais dinheiro. «O verdadeiro problema do mundo não é a pobreza, é a riqueza! Pobreza quer dizer liberdade do coração da posse; liberdade como paz com as coisas, paz com a terra, fonte de qualquer outra paz.
O rico, por outro lado, é um homem sempre em guerra com os elementos, um violento, um usurpador, o primeiro sujeito de desordem do mundo. Não são os pobres os culpados da desordem, não é a pobreza o mal a ser combatido; o mal a ser combatido é a riqueza.
É a economia do mundo que o exige: sem pobreza não se salva o respeito pelo consumo das fontes de energia, não há possibilidade de pão para todos, não há relação harmoniosa com a vida, não há fraternidade, não há possibilidade de paz. Exatamente, não há bem-aventurança e felicidade para ninguém. Porque não há paz com a terra, com as coisas, com a natureza. Não há respeito pelas criaturas” (David Maria Turoldo).
Bem-aventurados sois... O evangelho mais alternativo que se possa imaginar. Manifesto perturbador e no sentido mais contrário; e, ao mesmo tempo, um evangelho amigável. Porque as bem-aventuranças não são um decreto, uma ordem a ser observada, mas o coração do anúncio de Jesus: são a boa notícia de que Deus dá vida a quem produz amor, Deus dá alegria a quem constrói a paz.
E está aí o início da cura do coração, para que o coração curado seja o início da cura do mundo.
Ermes Ronchi
Dia Mundial do Doente: Papa elogia «anjos de esperança» que acompanham quem sofre
Mensagem de Francisco aponta importância de gestos de amor e proximidade, ligando celebração ao Jubileu de 2025
O Papa dedicou a sua mensagem para o Dia Mundial do Doente de 2025, que se celebrou a 11 de fevereiro, a quem acompanha os doentes com amor e proximidade, em ligação ao Ano Santo que decorre na Igreja Católica.
“Todos juntos somos ‘anjos’ de esperança, mensageiros de Deus, uns para os outros: doentes, médicos, enfermeiros, familiares, amigos, sacerdotes, religiosos e religiosas. E isto, onde quer que estejamos: nas famílias, nos ambulatórios, nas unidades de cuidados, nos hospitais e nas clínicas”, escreve Francisco.
O tema para este ano é inspirado numa passagem da carta de São Paulo aos Romanos: “«A esperança não engana» (Rm 5, 5) e fortalece-nos nas tribulações”.
Francisco recorda a celebração, no contexto do Jubileu de 2025, como “peregrinos de esperança”.
“Como é que nos mantemos fortes quando somos feridos na carne por doenças graves, que nos incapacitam, que talvez exijam tratamentos cujos custos vão para além das nossas possibilidades? Como fazê-lo quando, não obstante o nosso próprio sofrimento, vemos o daqueles que nos amam e que, embora próximos de nós, se sentem impotentes para nos ajudar?”.
O Papa aponta à “ajuda de Deus” e do seu Espírito, que “nunca” abandona quem sofre.
“No momento da doença, se por um lado sentimos toda a nossa fragilidade – física, psíquica e espiritual – de criaturas, por outro lado experimentamos a proximidade e a compaixão de Deus”.
Francisco fala da esperança como um dom de Deus, que aponta ao “horizonte infinito da eternidade”, e sublinha ainda a importância da “partilha”.
“Os lugares onde se sofre são frequentemente espaços de partilha, nos quais nos enriquecemos uns aos outros. Quantas vezes se aprende a esperar à cabeceira de um doente! Quantas vezes se aprende a crer ao lado de quem sofre! Quantas vezes descobrimos o amor inclinando-nos sobre quem tem necessidades!”.
O Papa elogia gestos como “o sorriso amável de um profissional de saúde” ou “o olhar agradecido e confiante de um doente”, afirmando que todos eles têm “um papel especial” neste Ano Santo de 2025.
Agência Eclesia
PENSAMENTO DA SEMANA
Onde se devem preparar os caminhos?
A vida é um caminho feito de muitas etapas. Todos os dias são diferentes e únicos e nunca ninguém pode parar nem sequer por um instante, muito menos voltar atrás e refazer o que fez.
É bom parar e dirigirmos o nosso olhar para o que temos feito, preparando os passos que havemos de dar. Mas onde podemos preparar assim os nossos dias que hão de vir? Talvez fora do caminho, num qualquer deserto onde o vento nos inspire a admirar o sopro que nos anima. Um deserto onde estejamos sós, por alguns momentos ou horas, apenas nós connosco mesmos, onde possamos avaliar em conjunto com as nossas razões e emoções, os rumos que temos seguido, os porquês e as formas como temos andado…
Há quem julgue que a nossa história já está escrita e que a nossa liberdade é uma espécie de ilusão. A verdade é que não decidimos nem onde começamos, nem aquilo que temos na mochila, nem, tão-pouco, o que nos vai acontecendo. Mas somos livres e isso é de tal forma profunda que chega a causar vertigens do futuro. Uma angústia por darmos conta de que afinal estamos nas nossas mãos.
É bom parar. Silenciarmo-nos e aquietarmo-nos. E nesse jejum de palavras, possamos dar a nós mesmos a esmola de um tempo de paz. Descansar a fim de chegar a compreender o passado antes de nos lançarmos para diante rumo ao céu dos nossos dias.
Que haja sempre desertos nos nossos caminhos.
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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