Nº 1189

 

O QUE ME ENSINARAM

«Ensinaram-me que éramos os melhores, que os outros não eram assim tão bons, que só nós sabíamos a verdade enquanto os outros serviam a mentira.

Ensinaram-me que não devia ter comunhão com pessoas de outras religiões, porque isso era uma traição a Deus ou apostasia.

Ensinaram-me que só nos devíamos aproximar de outros crentes, agnósticos ou ateus para os converter ao nosso grupo, pois assim seriam salvos, caso contrário iriam para o tormento eterno.

Ensinaram-me que só nós tínhamos razão em matéria de sexualidade considerando qualquer pessoa que fosse diferente como um pervertido...

E, pouco a pouco, o meu coração foi-se estreitando, havia cada vez menos espaço para os meus semelhantes, e comecei a sufocar, vendo morrer o amor que havia em mim.

Até que decidi dirigir o meu olhar para Aquele que foi ensinado por uma mulher pagã, Aquele que disse que o centurião romano tinha mais fé do que todos aqueles que se consideravam fiéis à Tradição oficial. Observei como se comportava com aquelas mulheres de sexualidade reprovável e como as pôs à frente de todos no Reino do seu Pai. Senti-me desafiado pela forma como derrubou todos os muros de separação, como dignificava todos os seres humanos, independentemente das suas origens ou caminhos escolhidos. Aprendi com ele que cada ser humano é meu irmão, minha irmã, que só o Deus da Vida é universal, e não o deus tribal do meu grupo.

E o meu coração começou a expandir-se, um ar novo entrou, uma visão diferente do mundo apareceu. E senti-me próximo dos meus irmãos, crentes ou não, de diferentes credos, de diferentes ideias, e compreendi finalmente, que não era melhor do que ninguém e que não sabia mais do que os outros.

Tive de desaprender o que me tinham ensinado e voltar a aprender aos pés d'Aquele que acolhia todos sem estabelecer condições. Viveu a compaixão até ao extremo de morrer às mãos daqueles que se consideravam melhores. Ele foi o Homem livre e libertador, que nos ensinou o caminho a seguir, reconhecendo os companheiros de viagem.

Ensinaram-me a odiar de uma forma piedosa, mas o amor foi abrindo o seu caminho, e eu consegui encontrar no rosto dos meus irmãos, crentes ou não, o meu próprio rosto, com uma voz interior que grita: “sou teu”.»

Julián Mellado,  in Fé Adulta

 

MEDITAR

O programa de Jesus: trazer alegria e liberdade

Todos os olhos estavam fixos nele. A voz de Isaías acabara de soar: palavras tão antigas e tão amadas, tão rezadas e tão desejadas, tão próximas e tão distantes.

Jesus procurou cuidadosamente essa passagem no rolo: conhece bem as Escrituras, há mil passagens que falam de Deus, mas escolhe esta, onde a humanidade é definida com quatro adjetivos: pobre, prisioneiro, cego, oprimido. Então fecha o livro e abre a vida. Aqui está o seu programa: trazer alegria, liberdade, olhos curados, libertação. Um messias que não impõe fardos, mas que os tira; que não traz preceitos, mas horizontes.

E são palavras de esperança para quem está cansado, é vítima, não aguenta mais. Deus começa dos últimos da linha, alcança a verdade do humano através de suas raízes enfraquecidas. Adão é mais pobre que pecador; é frágil antes de ser culpado; somos fracos mas não somos maus, é que temos as asas cortadas e enganamo-nos facilmente. No Evangelho fico sempre surpreendido e emocionado ao descobrir que naquelas páginas ardentes se fala mais dos pobres do que dos pecadores; mais de sofrimento do que de culpa. O Evangelho não é moralista, é libertador.

Deus sofreu vendo Adão tornar-se pobre, cego, oprimido, prisioneiro, e um dia não aguentou mais, e desceu, tomou a semente de Adão, entrelaçou o seu sopro com o nosso, os seus sonhos com os nossos. Veio e fez a vida brilhar, colocou novas músicas nos nossos corações, pedaços de estrelas a correram nas nossas veias. Porque Deus não se tem a si mesmo como meta, nós somos o objetivo de Deus O catecismo subversivo, avassalador, revolucionário de Jesus: não é o homem que existe para Deus, mas Deus que existe para o homem. E considera cada pobre mais importante do que ele mesmo. Eu sou aquele pobre homem. Orgulhoso no orgulho do amor: ninguém tem um Deus como o nosso.

E então Jesus abre ainda mais o céu, esboça um dos traços mais belos do rosto do Pai: "Eu vim para pregar um ano da graça do Senhor", um ano de graça, do qual Jesus sopra as notas no submundo de humanidade (R. Virgili); um ano, um século, mil anos, toda uma história feita apenas de benevolência, para mostrar que Deus não é apenas bom, mas unicamente bom.

"És um Deus que vive de nós" (Turoldo). E para nós: «Não nos interessa um divino que não faça florescer o humano. Um divino que não corresponda ao florescimento do humano não merece que nos dediquemos a ele »" (D. Bonhoffer).

Se calhar Deus está cansado de devotos solenes e austeros, de heróis da ética, de eremitas piedosos e pensativos, talvez queira jograis felizes, como São Francisco, felizes de viver. Olhos como estrelas. E prisioneiros saídos do segredo que dançam ao sol. (M. Delbrel).

Ermes Ronchi

 

O TEMPO É AGORA

 «Os pobres, nas nossas cidades, dormem ao relento durante o verão e morrem de frio no inverno. As nossas crianças vão para a cama com fome. As nossas mulheres não podem andar sozinhas nas nossas ruas, por medo de serem vítimas de violação, assaltos e violência. O resto do mundo, apanhado na fúria da época, bate-nos à porta mendigando “lugar na estalagem”. E tu e eu, que fazemos nós para resolver a situação? Limitamo-nos a ficar de pé e a ver tudo isto passar?

A tentação, obviamente, é recusar o convite a “seguir” realmente Jesus – ou seja, a estar na nossa época como Ele estava na sua, a alimentar de facto os famintos, a contestar as práticas de opressão […] Com efeito, muitas vezes, ignoramos, resistimos ou rejeitamos a ideia de que, tal como Jesus, nós temos um papel a desempenhar para endireitar um mundo cujo eixo se tem vindo a inclinar na direção errada.

Recusamo-nos a aceitar a ideia de que virar de novo os ponteiros da bússola dos nossos mundos para o verdadeiro Norte da alma é o que significa ser verdadeiramente espiritual. A nossa missão é ser “obediente”, preservar as leis, os jejuns, os dogmas e os dias de festa, argumentamos. Contudo, a pergunta que muitas vezes não conseguimos fazer é esta: obedientes a quê e obedientes a quem? A nossa missão é ser obedientes, durante toda a nossa vida, à vontade de Deus para o mundo. […]

Sim, o ideal cristão é a bondade pessoal, claro, mas a bondade pessoal requer que nós sejamos mais do que piedosos, mais do que fiéis ao sistema, mais do que meros membros encartados da comunidade cristã. O Cristianismo também requer que cada um de nós seja de tal modo uma presença profética, que o nosso cantinho do mundo se transforme num lugar melhor devido à nossa presença aí.

Não temos espaço, aqui na Terra, para dedicar uma vida inteira à manutenção da rotina espiritual perfeita, da antissética limpeza moral e de um amargo silêncio resignado, na solidão. Nada disso, com efeito, marcou a vida do próprio Jesus, que “convivia com pecadores”, curava estrangeiros, chamava as mulheres ao discipulado, e discutia com escribas e fariseus acerca da natureza da própria fé, irritando os líderes tanto do Templo como do trono, tanto a religião como o Governo.

Em vez disso, a chamada de Jesus é a chamada à profecia, a dar uma palavra de Deus a um mundo que prefere os rituais religiosos e o conforto espiritual às exigências de maturidade moral. A sermos testemunho de profeta num lugar sem profetas.»

Joan Chittister, in O Tempo é Agora

 PENSAMENTO DA SEMANA

 

A justiça, sem amor, faz-te duro 
A inteligência, sem amor, faz-te cruel. 
A amabilidade, sem amor, faz-te hipócrita. 
A fé, sem amor, faz-te fanático. 
O dever, sem amor, faz-te mal-humorado. 
A cultura, sem amor, faz-te distante. 
A ordem, sem amor, faz-te complicado. 
A agudeza, sem amor, faz-te agressivo 
O apostolado, sem amor, faz-te estranho. 
A amizade, sem amor, faz-te interessado. 
O possuir, sem amor, faz-te avarento. 
A responsabilidade, sem amor, faz-te implacável. 
A ambição, sem amor, faz-te injusto. 

Por último, ama, porque, como dizia São João da Cruz, 
«ao entardecer da vida, julgar-nos-á pelo amor». 

José Miguel, em José Mª Alibau

 


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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