Nº 1188

 

«O Deus em que não creio

Eu nunca acreditarei em:

Um Deus que “surpreenda” o homem num pecado por fraqueza.

Um Deus que ame a dor.

Um Deus que acenda luz vermelha contra as alegrias humanas.

Um Deus que se torne monopólio de uma igreja, de uma raça, de uma cultura ou de uma casta.

Um Deus que se diverte, condenando.

Um Deus que “manda” para o inferno.

Um Deus incapaz de compreender que as crianças têm o direito de brincar e são esquecidas.

Um Deus que exija do homem que, para crer, renuncie a ser homem.

Um Deus ao qual adoram os que vão à Missa, mas continuam a roubar e a caluniar.

Um Deus que não saiba descobrir algo da sua bondade, da sua essência, lá onde vibra um amor, por mais equivocado que seja.

Um Deus morfina para a reforma da Terra e somente esperança para a vida futura.

Um Deus dos que creem que amam Deus porque não amam ninguém.

Um Deus que aprove a guerra.

Um Deus daqueles que desejam que o padre abençoe com água-benta os sepulcros caiados dos seus negócios desonestos.

Um Deus que negue ao homem a liberdade de pecar.

Um Deus a quem falte perdão para algum pecado.

Um Deus que aceitasse e concordasse com tudo o que os padres dizem dele.

Um Deus que ponha a lei acima da consciência.

Um Deus que prefira a pureza ao amor.

Um Deus que não possa ser percebido nos olhos de uma criança ou de uma mulher bonita ou de uma mãe que chora.

Um Deus que aniquilasse para sempre nossa carne em lugar de ressuscitá-la.

Um Deus que aceitasse por amigo quem passasse pela Terra sem ter feito ninguém feliz.

Um Deus que, ao abraçar o ser humano aqui na Terra, não soubesse lhe comunicar o gosto e a felicidade de todos os amores humanos juntos.

Um Deus que não se tivesse feito verdadeiramente homem com todas as suas consequências.

Um Deus no qual eu não possa esperar contra toda esperança. (...)

Sim, o meu Deus é... o outro Deus.

Juan Arias (Adaptado)

 

 

 

MEDITAR

Caná, os nossos corações como ânforas para encher

Há uma grande festa, numa casa em Caná da Galileia: as portas estão abertas, como de costume, o pátio está cheio de gente, os convidados nunca parecem o suficiente para o desejo do jovem casal de partilhar a festa, naquela noite de tochas acesas, de canções e danças. Há um acolhimento cordial até mesmo para toda a caravana colorida que seguiu Jesus, subindo das aldeias do lago.

O Evangelho de Caná surpreende Jesus no festivo desenrolar de um almoço nupcial, entre as pessoas, cantando, rindo, dançando, comendo e bebendo, longe do nosso falso ascetismo. Não no deserto, nem no Sinai, nem no monte Sião, Deus fez-se encontrar à mesa. A boa notícia é que Deus se alia à alegria das suas criaturas, ao simples e vital prazer de existir e amar: Caná é o seu ato de fé no amor humano. Ele acredita no amor, abençoa-o, apoia-o. Acredita nisso a ponto de torná-lo a pedra angular, o lugar original e privilegiado da sua evangelização.

Jesus começa a contar a fé como se contasse uma história de amor, uma história que está sempre faminta de eternidade e de absoluto. O coração, de acordo com um antigo ditado, é a porta dos deuses. Maria também participa da festa, conversando, comendo, rindo, experimenta o vinho, dança, mas ao mesmo tempo observa o que acontece ao seu redor. A sua observação cuidadosa e discreta permite que veja o que ninguém vê, ou seja que o vinho acabou, ponto de viragem na história: (as festas de casamento no Antigo Testamento duravam em média sete dias, ver Tb 11,20, ou ainda mais.

Não é o pão que falta, não o necessário para a vida, mas o vinho, que não é indispensável, quase inútil para tudo, exceto na festa ou na qualidade de vida. Mas o vinho é, em toda a Bíblia, o símbolo do amor feliz entre homem e mulher, entre o homem e Deus, feliz e sempre ameaçado.

Não têm mais vinho, uma experiência que todos nós já tivemos, quando nos assaltam mil dúvidas, e os amores são sem alegria, as casas sem festa, a fé sem impulso. Maria aponta o caminho: o que vos disser, façam. Façam o que Ele diz, façam o seu Evangelho, tornem-no gestos e corpo, sangue e carne. E as ânforas vazias do coração ficarão cheias.

E a vida será transformada de vazia em plena, de extinta em feliz. Mais Evangelho é igual a mais vida. Mais Deus equivale a mais de mim. O Deus em quem creio é o Deus das bodas de Caná, o Deus da festa, do amor alegre da dança; um Deus feliz que está do lado do melhor vinho, do perfume do precioso nardo, que está do lado da alegria, que socorre os pobres do pão e os pobres do amor.

Um Deus feliz que cuida do humilde e do poderoso prazer de viver. Assim o acreditar em Deus é uma festa, o encontro com Deus gera vida, traz flores de coragem, uma primavera repetida.

Ermes Ronchi

 

UM DIA APARECEU UM HOMEM

Um dia apareceu um homem no horizonte

e reacendeu as brasas da nossa esperança adormecida.

Um dia apareceu um homem que tinha magia na voz,

calor nas suas palavras e fascínio na sua mensagem.

Um dia apareceu um homem com esperança nos seus gestos,

com a força do seu ser e com um coração grandioso.

Um dia apareceu um homem, que falava como ninguém,

convidando-nos a mudar de vida e a converter-nos.

Um dia veio um homem que rompeu os nossos esquemas

para nos tornar sonhadores, ternos e livres.

Um dia apareceu um homem tão simples e humilde

que nunca se considerou o centro das suas ações.

Um dia apareceu um homem que estabeleceu um diálogo sincero

porque não procurava elogiar-se nem enganar-nos.

Um dia apareceu um homem que tomou a iniciativa

e abriu uma brecha na nossa vida e história.

Um dia apareceu um homem que se aproximou

dos mais pobres e marginalizados dos seus irmãos.

Um dia apareceu um homem que nos convidou

a ser seus discípulos e a confiar em Deus.

Um dia apareceu um homem que nos deu a capacidade

e nos ensinou o caminho para ser filhos de Deus.

Um dia apareceu um homem, na sua terra,

não pôde realizar milagres porque não havia fé.

Um dia apareceu um homem tão próximo e transparente

que tudo era reflexo e presença de Deus.

Um dia vieste tu, Jesus.

Vem hoje também, Senhor.

Florentino Ulibarri

 

PENSAMENTO DA SEMANA

O melhor caminho...

É encontrarmos beleza nas pequenas coisas. Na simplicidade de olhar a vida de frente, com o coração disponível a abraçar o que nos chega. 

Repetirei vezes sem conta, para mim mesma, que vale sempre a pena recomeçar. Recomeçar por dentro, com os olhos de quem não se cansa de ver cada dia como único. Mesmo quando as coisas não correm como queremos. 

Pois tudo na vida coexiste. Os nossos maiores sonhos e os nossos maiores medos. E, nem todas as fases da nossa vida falarão das mesmas histórias.  

A verdade é que somos únicos. E se não estivéssemos cá, o mundo não seria exatamente o mesmo. Somos uma peça neste universo. Só por isso vale a pena honrar o nosso lugar. 

Viver a nossa história e aprofundar a nossa existência. 

Sente onde estás e o que amas.

Viemos ao mundo para expressar, ser e fazer o que só nós conseguimos. Manifesta-se em encontro, em união. Em Amor. 

Lembra-te... o melhor caminho é o que nos leva sempre a casa. 

Carla Correia


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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