Nº 1183

 

CREIO NO AMOR

«Convidas-nos ao amor. Tão simples e tão complexo. Esse amor que liberta, que nos leva a dar-nos uns aos outros, despertando sonhos de abundância próprios e partilhados, descartando o medo que paralisa.

O vento empurra-nos, carregados de água, para novas fertilidades que nascem do encontro. A vida chama-nos para essa profundidade que nos perturba e ordena ao mesmo tempo, quando sentimos esse apoio mútuo, esses olhares que confirmam, que perguntam, que interpelam... Esses olhos que se entregam, no “humilde e escuro sulco que o grão demanda para ser fecundo”, como partilhou Maurício Silva.

Com a abertura do sulco fendido, expondo a profundidade, com confiança. Com essa ansiedade da espera, essa agitação que aguarda a sementeira, esse palpitar pela semente que está a chegar mas ainda não chegou.

É assim que queremos estar: arados e expectantes, desfrutando do toque da brisa, com tudo preparado para os grãos que se anunciam, que vão pousando um a um na terra e fazem a festa. Honrar esta fertilidade como algo “sagradamente humano”, algo tão teu, Jesus, sagradamente humano e humanamente Deus. [...]

Queremos deixar-nos levar pelo vento, nestes tempos de mudança, para que ele nos leve de volta ao teu caminho; para que nos devolva o que sonhaste, despojando-nos de tantas vestes artificiais que nos distanciaram das tuas buscas.

Queremos recuperar a tua intensidade renovadora e provocadora, para nos juntarmos de novo à tua “indignação profética”, para nos tornarmos credíveis como o grão de mostarda...

Sentimos nas nossas mãos a responsabilidade da herança profética, de tantas escolhas corajosas, de tantos que apostam toda a sua vida para se tornarem um abrigo para muitos.

Ajuda-nos, Jesus companheiro,

Jesus do abraço e do olhar intenso,

Jesus da coragem de amar até ao extremo:

a descobrir e ampliar o amor,

que é um desejo genuíno, integral e integrador,

que faz nascer a vida nova.»

Sandra Hojman (Argentina), in Fé Adulta

 

MEDITAR

Converter-se partindo de um só verbo: dar.

«Ele vai exultar, vai-se alegrar, vai chorar de alegria por ti, como em dias de festa». Sofonias fala de um Deus que se alegra, que pula de alegria, que grita: “Gritará de alegria por ti ", um Deus que não lança avisos, oráculos de lamentação ou de censura, como por demasiadas vezes se tem pregado nas igrejas; que não só concede graça e perdão, mas faz mais: junta tudo num grito e dança de alegria. E isso agarra-me por dentro. E grita-me: fazes-me feliz! Tu homem, tu mulher, são a minha festa.

Nunca na Bíblia Deus tinha gritado. Falara, sussurrara, trovejara, tinha a voz interior dos sonhos; mas aqui, só por amor, Deus grita. Não para ameaçar, mas para amar ainda mais. O profeta entoa a canção do amor feliz, amor dançante que leva à vida nova: “Vai-te renovar com o seu amor".

O Senhor colocou a sua alegria nas minhas, nas nossas mãos. o que é impensável, inaudito: ninguém antes do pequeno profeta Sofonias tinha sentido a dança dos céus, tinha colocado palavras tão audaciosas na boca de Deus: tu és minha alegria.

Eu mesmo? Eu que pensava ser um jogo para o Reino de Deus, um travão, uma preocupação. E em vez disso, o Senhor lança-me o convite para uma alegre coreografia de passos e palavras de vida nova. O profeta desenha a face de um Deus feliz, Jesus contará o contágio dessa alegria (para que minha alegria esteja em vós, João 15.11)

O Baptista, por outro lado, é chamado para respostas que sabem de mãos e de fadiga: "O que devemos fazer?" O profeta que nem sequer tem uma roupa digna desse nome, responde: "Quem tem duas túnicas dá uma para quem não a tem". Quem se alimenta do nada que o deserto oferece, gafanhotos e mel silvestre, responde: "Quem tem comida dá aos que a não têm". E o verbo que funda o novo mundo aparece, o verbo reconstrutor do futuro, o verbo dar: quem tem, dá!

No Evangelho sempre o verbo amar se traduz com o verbo dar. A conversão começa concretamente com dar. Nós fomos ensinados que a segurança consiste em acumular, que a felicidade é comprar outra túnica além das duas, acrescentar ao muito que já possuímos, e em vez disso, João injeta no mecanismo do nosso mundo, para increpa-lo, este verbo forte: dar, doem. É a lei da vida: para estar bem, o homem deve dar.

Publicanos e soldados vêm ao encontro: e o que faremos? Simplesmente justiça: não tomar, não extorquir, não fazer violência, ser justo. Continuemos humanos para reaprender a tecer o mundo do pão compartilhado, da túnica dada, de uma história que brota da justiça. Permaneçamos profetas, mesmo pequenos a reaprender sobre um Deus, que dança em torno de cada criatura, dizendo: fazes-me feliz.

Ermes Ronchi

 

O tempo que perdemos

É imenso o tempo que perdemos a fazer o que nos mandam. A corresponder às expectativas nunca reconhecidas, nunca suficientes e permanentemente ajustadas à realidade de alguém que nunca somos nós.

 Perdemos tempo a manter uma imagem de porcelana social; que nunca derreta, que nunca quebre, que nunca dê más respostas ou deixe antever qualquer réstia de má vontade. E é pouco aquilo que fazemos porque queremos. Porque gostamos ou porque nos apetece.

 É tanto o tempo que se perde com ninharias. Com discussões intermináveis sobre este ou aquele tema da moda que não levam a lado algum. Nem nos dizem nada ao coração. Mas fica bem saber muitas coisas. E argumentar e fazer de conta. E assim vamos gastando fatias do nosso dia com o que não interessa e com quem interessa pouco.

 É tanto o tempo que se perde a comprar coisas que ninguém vai usar. Em filas e em embrulhos com o papel igual. E a pobreza lá fora continua. E quem não tem casa continua a não ter. E quem não consegue pagar as contas continua a não conseguir. Mas vale tudo no reino do faz de conta. E até podemos nem ter amanhã se pudermos comprar hoje.

 Passou o dia todo e amanhã repete-se tudo. Como naqueles filmes em que já todos sabemos o final, mas, ainda assim, é como se não soubéssemos. Sobra-nos pouco do que somos quando o dia acaba. Mas pelo menos aparecemos impecáveis, com um sorriso que se pendura para agradar e com menos três quilos de paciência.

 Sobramo-nos pouco ao final do dia e, tantas vezes, já nem sabemos quem somos. São tantos os que nos pedem tudo e nunca somos nós a pedir.

 Que saibamos dizer chega. E agora acabou. E quem manda em mim sou eu.

Porque não há nada tão urgente que não possa ficar para amanhã.

Quem muito se adia um dia deixa de fazer parte na equação mais importante:

 Marta Arrais

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

A luz de Deus é Jesus,

luz encarnada,

carne iluminada,

história fecunda,

amor em todo o amor.

A salvação não é um trabalho particular,

mas Deus, que veio,

que se deixa abraçar pelo homem,

que está aqui agora,

que mistura a sua vida nas nossas vidas

e nada mais nos pode separar...

.

Ermes Ronchi


 

INFORMAÇÕES

ALDEIA DE NATAL

Nos dias 21 e 22 de dezembro, a estrela ilumina o caminho para a Aldeia de Natal na Ribeira Seca, junto à igreja de São Tiago.

Algumas cenas do nascimento de Jesus. Das 19 às 24 horas.

 


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

Abraçarem-te a alma

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma. 

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.

Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.

Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?

A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.

Daniela Barreira

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