Nº 1181

ADVENTO
“Felizes aqueles que O esperam” (Is 30,18)
“Chegou sem ser esperado, veio sem ter sido concebido. Só a mãe sabia que era filho de um anúncio do sémen que existe na voz de um anjo. Tinha acontecido a outras mulheres hebreias, a Sara por exemplo.
Só as mulheres, as mães, sabem o que é o verbo esperar. O género masculino não tem constância nem corpo para hospedar esperas. Sinto a agravante de ignorar fisicamente a voz do verbo esperar. Não por impaciência, mas por falta de capacidade: nem mesmo durante as febres de malária me acontecia recorrer ao repertório das fantasias de me curar, de estar à espera de.
Nos meus despertares matutinos ao folhear Isaías leio: Felizes aqueles que O esperam” (Is 30,18) . Não conheci esta sábia e física alegria. Mas, mais forte do que esta Notícia, no mesmo versículo está escrito ”Por isso esperará Deus para vos fazer Misericórdia”.
Deus espera: “para vos fazer misericórdia”.
O Tempo do Advento vive desta imitação, defronte à eternidade de um Deus que aceita fazer-se tempo, irrompendo no mundo em meses estabelecidos com nascimento, morte e ressurreição.
Quem tem no seu corpo os recursos para conceber esperas conhece no versículo de Isaías a imensidade da correspondente espera de Deus.”
Erri De Luca in Caroço de Azeitona
MEDITAR
Apesar de tudo, a história é um itinerário de salvação.
Haverá sinais no sol, na lua, nas estrelas. O Evangelho de Lucas hoje não quer contar o fim do mundo, mas o mistério do mundo; leva-nos pela mão, leva-nos para fora da porta da casa, para olhar para cima, para perceber o cosmos pulsando ao nosso redor, a imensa vida que sofre, sofre, contorce-se como uma parturiente mas para produzir vida.
A cada descrição dramática, segue-se um ponto de rutura, uma curva fechada que abre o horizonte, o avanço da esperança e tudo muda: mas levantem-se e levantem a cabeça, a libertação está próxima. Mesmo no caos da história e nas tempestades da existência, o vento de Deus sopra por cima do meu veleiro.
Estejam atentos a vós mesmos, que o coração não se torne pesado! Chegará um momento em que nos sentiremos de coração pesado. Também senti a sensação de desânimo, por mim e pelo mundo, mas não permitirei que se sente à minha mesa e coma no meu prato. Porque por dentro dos músculos e ossos eu sei de uma coisa: que não pode haver desespero enquanto alimento a teimosa fidelidade à ideia de que a história é, apesar de todas as negações, um processo de salvação.
O dom do advento é um coração leve como a confiança, tanto quanto a esperança; não a leveza de uma pena batida pelo vento, mas a da ave que rompe o ar e se serve do vento para ir mais longe.
É pois um coração atento, que lê a história como um ventre de nascimentos: este mundo traz outro mundo no útero, um sonho para ser transformado em vida, porque não adoece. Vivam com cuidado, atentos para as pequenas e enormes coisas da vida. Etty Hillesum escreve do campo de extermínio: "Haverá aqui, apesar de tudo, um pedaço do céu para poder olhar, e espaço suficiente dentro de mim para poder unir as mãos em oração".
Os Evangelhos do Advento usam esse duplo registo: levantam a cabeça para as últimas coisas, para Aquele-que-se-faz-próximo, e depois baixam os olhos para as coisas daqui, dentro e à nossa volta. Fazem isso para nos ajudar a viver atentos, a habitar a terra com passos leves, guardiões dos dias e peregrinos do eterno, olhando nos olhos e olhando para os abismos do cosmos, atentos à vinda de Deus e ao coração que se vai cansando. Pronto para um abraço que o ilumine novamente, e o torne poderoso e leve como um botão de flor.
Advento: a vida não é uma construção sólida, precisa, acabada, mas é uma realidade que desabrocha (R. Guardini), feita também e sobretudo de botões, aos quais não te podes agarrar, que não te dão certezas, mas que dão um gosto de nascimentos e de primavera, o cheiro da menina esperança (Péguy).
Ermes Ronchi
Mas já é Natal?
Estamos a ser empurrados para o Natal há semanas. Luzes por todo o lado. Inaugurações a meio de novembro. O frenesim interminável dos centros comerciais com falsas promoções, falsos apelos e a simpatia a rimar muito pouco com o tão desejado espírito natalício.
É por isso que ninguém consegue viver os seus dias sossegado. Estamos sempre a ser chamados a viver num tempo que não existe: ora no passado, ora no futuro. Mas no presente (e no momento) parece que ninguém vive. Ninguém quer, sequer, saber.
Desde quando é que nos tornámos reféns deste consumismo absurdo que “inventa” festividades? Vivemos para as festividades e celebrações em si ou para o tempo que as antecede?
É que corremos o risco de chegar à véspera de Natal já sem paciência seja para o que for. Ou seja para quem for.
O problema aqui é precisamente não nos ser possível “sair” desta roda invisível em que somos colocados diariamente, apressadamente, prematuramente. Impelidos a comprar, a celebrar quando nem sempre há razões para isso, a fazer votos amorosos quando a nossa vontade não corresponde a nada do que nos é pedido.
Mesmo que sintamos que não está ao nosso alcance fugir desta imposição celebrativa, que possamos (pelo menos!) ter consciência de que é real, de que estamos a ser obrigados a viver segundo valores e princípios que nada têm que ver com os que inauguraram o Natal em si.
Numa tentativa mais ousada de não compactuar com este esquema e com este sistema assente no consumismo rápido, descartável e triste, resta-nos ter a certeza de que ainda somos os donos da nossa vida. Que ainda podemos viver segundo aquilo que faz sentido para nós e que ainda podemos decidir se queremos (ou não!) ser estes joguetes nas mãos de sabe-se lá quem.
Enquanto se acendem luzes, se inauguram instantes e se relativizam as verdadeiras prioridades, que saibamos dizer a quem nos vier com estas histórias mal contadas:
O Natal é quando eu quiser.
PENSAMENTO DA SEMANA
"Muito belo é este tempo de Advento que precede o Natal e tão necessário. Como precisamos dele.
Precisamos de parar, de fazer silêncio, de recentrar o olhar, de recuperar alguma sobriedade de vida, de refazer laços. Um pouco de sossego reavivará a escuta, necessária para ouvir a Palavra de Deus num menino que ainda não fala. Fechar os olhos por uns momentos ensinar?nos?á a ver melhor.
Porque é necessário reparar com atenção para reconhecer a beleza de Deus na gruta escura de Belém.
Algum jejum fará recuperar o sentido do gosto, para poder saborear a bondade do Senhor nas coisas simples.
Um tempo mais solitário ajudará a redescobrir a bênção das relações.
Fazendo este caminho de sobriedade, descobriremos que querer ver já é ver, que ter vontade de escutar já é escutar, que desejar saborear já é saborear.
Esperar o Senhor já é encontrá?Lo.
Preparar o encontro com Ele já é celebrá?Lo."
P. José Frazão Correia, sj
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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