Nº 1180

ERA UMA VEZ O AMOR...
«Salvou os outros e não conseguiu salvar-Se a Si mesmo», comentava-se junto Daquele crucificado, sem perceber nada da sua história.
Exatamente porque Ele se dispõe a amar-nos, Ele não pode salvar-se a si mesmo. Porque o que é próprio do amor é esse deixar de pensar em si. É esse abandono, é essa pobreza radical, é essa entrega, em que o outro, o outro, é colocado no centro. Nós estamos no centro do gesto de Jesus. Da sua história de amor, da sua entrega.
O amor, essa entrega de nós para lá do cálculo e da retenção, a ponto de não conseguirmos viver para nós próprios.
O amor, essa descoberta de que ou nos salvamos com os outros (porque aceitamos o risco de viver para os outros) ou gastamos inutilmente o nosso tesouro.
O que se comentava junto da cruz, naquele dia, não era um insulto, mas o maior dos elogios feitos a Jesus. Compreender isso é, de alguma maneira, acolher o sentido verdadeiro da Páscoa.
O que a cruz nos grita, o que a cruz nos diz é: ama até ao fim, ama até ao fim, consuma a tua vida, consuma, realiza, plenifica a tua existência. Não vivas a 50%, a 40%.
A Sophia de Mello Breyner dizia: “Meia verdade é como comer meio pão, é como receber meio salário, é como habitar meia casa.”
Às vezes nós vivemos de meias verdades e não vivemos essa verdade total, essa verdade plena que é a lição do Crucificado para nós. Ele diz: “Tenho sede.” Porque Ele continua a ter sede, a ter sede daquilo que cada um de nós hoje pode realizar. Agora é a nossa vez, agora é o nosso lugar, agora é o nosso caminho.»
P. José Tolentino Mendonça
MEDITAR
É o amor desarmado, que muda o mundo
Pilatos, o homem que detém o maior poder em Jerusalém e o jovem rabino desarmado: um enfrentando o outro, enfrentando a história do mundo.
És o rei dos judeus? É possível que aquele galileu com o olhar límpido e direto seja a cabeça de uma revolta, que dele nasça um perigo para Roma? Não, aquele homem indefeso é sim um perigo para as conspirações do Sinédrio, para os jogos dos políticos: entregaram-Te a mim, querem matar-Te. O que fizeste? Jesus comove-me com a sua coragem, com a sua estatura interior, enquanto faz subir no pretório um vento régio da liberdade e de firmeza.
E então abre o mundo de Pilatos, expande-o, faz irromper outra dimensão, uma outra latitude do coração: o meu reino não é deste mundo, onde se combate, se faz violência, se abusa, se engana. No meu reino não há legiões, nem espadas ou predadores. Para os reinos aqui de baixo, para os corações aqui de baixo, o essencial é vencer, no meu Reino o mais importante é servir. O meu reino pertence aos pobres, aos límpidos, aos livres, aos artesãos da paz e da justiça ... Eu vim para fazer surgir os reis de amanhã de entre os pequenos de hoje. "Vim ao mundo para dar testemunho de outra verdade."
A palavra de Jesus é verdadeira precisamente porque é desarmada, não tem outra força senão a sua luz. Está aí, na sua frente, a verdade; é aquele homem em quem as mais belas palavras do mundo se tornaram carne e sangue, se tornaram verdadeiras.
Hoje não celebramos a ascensão ao trono do senhor do mundo, Jesus não é este: Ele é o autor e o servo da vida. O que muda a lógica da história através da revolução da ternura, palavra última sobre o sentido da nossa existência e, ao mesmo tempo, sobre o coração de Deus. Então, quem é o meu rei? Quem é meu Senhor? Quem manda no meu futuro? Escolho-O, de novo a Ele, o Nazareno, com a certeza de que os nossos corações distorcidos, esta história confusa, caminham, apesar de todas as negações, num caminho de salvação.
Porque Deus está envolvido, Ele está aqui, as suas mãos estão para sempre implicadas nas profundezas de cada vida. Pilatos toma a afirmação de Jesus: Eu sou rei, e faz disso o título da condenação, a inscrição ridícula a ser pregada na cruz: este é o rei dos judeus. Queria zombar d’Ele, mas fez de profeta: o rei está ali, na cruz, com os braços estendidos, onde dá tudo de si e nada tira de nós.
O verdadeiro poder, aquele que muda o mundo, é a capacidade de amar assim, do amor desarmado, até o fim, até ao extremo, até ao fim de todos os fins.
Venha o Teu Reino, Senhor, e seja belo como todos os sonhos, seja intenso como todas as lágrimas de quem viveu e morreu na noite para forçar o amanhecer.
Ermes Ronchi
O pão nosso de cada dia
Nenhum de nós se basta a si mesmo. Esta vida implica que a alimentemos cada dia, que sejamos capazes de encontrar tudo quanto é necessário para a manter. Seja água, comida, descanso… todos temos as mesmas necessidades que, se não forem satisfeitas durante algum tempo, implicam a morte.
Mas será que deve ser cada um por si? Será que há pão para todos e que temos de o repartir de forma justa? Ou a escassez dos bens de primeira necessidade implica uma guerra escondida entre todos os que vivem no mesmo tempo?
O pão que tenho nas mãos agora mesmo é meu ou é nosso? Tenho algum tipo de obrigação de o repartir? Até que ponto a vida dos outros é também minha? E que o meu bem-estar é também um dever dos outros?
Se aqui escrevo estas linhas, isso significa que nunca me faltou o pão de cada dia. Por mérito meu? Não! Porque faço parte de vários grupos, uns mais alargados, outros mais restritos, que não só convivem como se entreajudam. Eu sou parte de vários nós, nos quais sou tão responsável por alguns outros que me sinto na obrigação de lhes dar prioridade em algumas questões como, por exemplo, no pão…
Quando peço o pão nosso de cada dia, será que penso naqueles que o suplicam gritando, e que sofrem ainda mais porque ninguém os escuta? São mesmo meus irmãos? E as crianças que têm ao seu cuidado são menos valiosas do que as minhas filhas?
A própria oração do Pai Nosso começa com uma afirmação clara: Sou filho de Deus, mas não sou filho único.
Importa que eu tenha bem claro que serei julgado pela forma como administrei o pão, que nunca foi só meu, mas de todos aqueles que tenho, ou deveria ter, como irmãos.
PENSAMENTO DA SEMANA
Maria, Mãe do Advento
conduz o nosso olhar a descobrir
a imensa simplicidade do teu sim
no modo como a chama ilumina
como a água sem mais purifica e refresca
como as searas naturalmente propagam
o canto e o alento
Tu que cresceste para Deus como uma planta de alegria
Tu que propagaste Deus
misteriosa e realmente, ao contato da Palavra
ensina-nos a tua simplicidade
a nós que tateando de desculpa em desculpa
adiamos tantas vezes
o nosso próprio sim.
José Tolentino Mendonça
INFORMAÇÕES
FESTA DE SANTA BÁRBARA - MANADAS
TRÍDUO - 27, 28 e 29 de novembro - Eucaristia às 19 horas.
Confissões - sexta-feira, 29 de novembro, entre as 18 e as 19 horas.
FESTA dia 1 de dezembro - Eucaristia de festa às 15 horas seguida de Procissão.
Quem desejar ajudar na elaboração dos tradicionais tapetes, o ponto de encontro será na Ermida de Santa Rita, no domingo, dia 1, às 8h30.
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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