Nº 1177

Que esperança?
Vivemos dias de aflição à distância. Contemplamos com horror o que aconteceu em Valência e o nível de destruição sem precedentes a que o nosso país vizinho esteve (e ainda está) sujeito.
Quando este tipo de eventos acontece há sempre um certo grau de incredulidade que nos assalta e, ao mesmo tempo, como que um alívio por não termos sido nós. No entanto, desta vez, é demasiado perto e demasiado evidente para ser possível fingir que não aconteceu.
São cada vez mais estonteantes (e cada vez mais reais) as consequências das ações que a humanidade tem tido perante os que lhe são próximos e perante o planeta a que chamamos casa. Claro que quem paga o preço mais alto nunca são aqueles que tiveram a culpa maior. Mas já todos percebemos que o que afeta um ser humano acabará por afetar todos os outros.
É preciso olhar com compaixão para todos os que foram obrigados a assumir um rosto de sofrimento enquanto a banalidade das suas vidas foi interrompida abruptamente. E é profundamente emocionante ver quantos se têm juntado para ajudar numa missão de reconstrução a todos os níveis que levará mais tempo do que todos gostaríamos.
Nestes momentos de caos e de dificuldade ainda nos surpreende ver o quanto conseguimos colocar a nossa humanidade ao serviço do outro, o quanto é valioso o esforço comum em prol do bem de todos e o quanto ainda é possível sentir orgulho daquilo que somos como pessoas.
Que não nos falte a humildade de compreender esta dor que atravessou Valência e que não nos falte a coragem para ajudar naquilo que estiver ao nosso alcance. Caso não nos seja possível ajudar de forma presente que possamos colocar o nosso coração e a nossa oração na vida de cada um dos que, neste momento, sofrem ainda.
Marta Arrais
MEDITAR
A pobre viúva, verdadeira mestra da generosidade
Uma mulher sem nome, sozinha, viúva, pobre, é a última personagem que Jesus encontra no Evangelho de Marcos, a última mestra. Jesus sempre demonstrou um carinho especial pelas mulheres sós. Pertencem à tríade bíblica dos indefesos: viúvas, órfãos e estrangeiros. E então Deus intervém e toma sua defesa: “ são meus!". Uma mestra sem palavras e sem títulos, sábia em lágrimas e coragem, e "se ouvisses a lição do coração apenas uma vez, ensinarias os eruditos" (Rumi).
Sentado no local das ofertas, Jesus observa: o seu olhar tornou-se penetrante e intenso como o dos profetas, como quem ama e cuida da vida em todos os seus pormenores. Vê um gesto de nada em que o divino está oculto, vê o lampejo absoluto no pormenor dos dois centavos. Colocou duas pequenas moedas no tesouro, mas deu mais do que todas as outras. Porquê deu mais do que todos os outros? Porque a balança de Deus não é quantitativa, mas qualitativa. A sua balança não pesa a quantidade, mas o coração. Aquela mulher não dá alguma coisa do seu supérfluo, ela deita tudo, entrega-se totalmente na sua relação com Deus, dá tudo o que tem para viver.
Não procurem pessoas santas na vida, talvez as encontrem talvez não (na verdade não sabemos se a vida moral da mulher era recta ou não), não procurem pessoas perfeitas, procurem antes pessoas generosas, que dão tempo e carinho, aqueles pequenos gestos que contém tanto coração. Não é mais irrisório ou insignificante um gesto de bondade tirado de nossa pobreza. Vamos confiar nos generosos, não nos perfeitos ou poderosos.
As palavras originais de Marco são geniais: deitou no tesouro a sua vida inteira. Essa mulher colocou muito coração e todos os bens da sua vida nas veias do mundo. E tudo isso circula no universo como uma energia suave e poderosa, porque todo gesto humano feito com todo o coração nos aproxima do absoluto de Deus. Todo o acto humano "total" contém algo de divino.
Esta mulher deu mais. A pergunta da noite derradeira vai ressoar com o mesmo verbo:
Deste pouco ou deste muito à vida? Por onde passaste, atrás de ti, deixaste mais vida ou menos vida? Os primeiros lugares pertencem àqueles que, em cada uma das nossas casas ou cidades, dão aquilo que nos faz viver, dão o coração com pequenos e grandes gestos, gestos de cuidado, acolhimento, atenção, gentileza, dirigidos aos pais ou aos filhos ou a estranhos. Mesmo que sejam apenas duas pequenas moedas de bondade, apenas migalhas, apenas um sorriso ou uma carícia, quem as leva a cabo de todo o coração acredita no futuro. A noite começa com a primeira estrela, o novo mundo com o primeiro gesto de um bom pequeno samaritano.
Ermes Ronchi
Quero ir para o céu!
Nada é para sempre neste mundo, mas, no fundo de cada coração, há uma certeza da eternidade. Quem ama sente-a como tão verdadeira quanto a verdade da própria existência.
Não sou da terra. Vivo e percorro o meu caminho aqui, mas estou de passagem. Tal como nenhum de nós deu a vida a si mesmo, também não há quem possa decidir ficar neste mundo.
Para onde vou? Bem, eu quero ir para o céu. O caminho é duro porque implica amar, lutando contra uma das maiores forças que parecem naturais em nós: o egoísmo. O caminho implica sofrer e ser atacado por dúvidas, muitas vezes.
O valor de alguém mede-se pela forma como enfrenta um obstáculo. Quando algo aparece e nos obriga a deitar fora os planos e a sonhar outros sonhos, se quisermos sair de um dos muitos pesadelos ilógicos e injustos. Quantos homens se fizeram ricos através da forma como aceitaram as suas misérias?
Para voar, é preciso que nos aperfeiçoemos; neste caso, isso não implica acrescentar, antes sim, libertar-se do que está a mais. Custa, porque tantas vezes somos chamados a acreditar no que não faz sentido. Se sou amado, porque me sinto só? Por que razão tenho de ser exposto a tanta dor? E até na agonia me é pedido que a enfrente com alegria?
Que eu saiba dar tudo o que posso. Que eu leve muitos a provar o sabor de um pão partilhado.
Preciso de me esvaziar de mim. Confiar e chegar a compreender que a felicidade não é um destino, mas uma recompensa… e que só o amor dá sentido à vida… e à morte.
José Luís Nunes Martins
PENSAMENTO DA SEMANA
Frases sobre o amor, por Santo Agostinho
1. Amemos o nosso próximo, ou porque ele é bom, ou para que ele se torne bom.
2. Quem ama não sofre e, se sofre, ama o sofrimento.
3. É melhor ser vítima de injustiça do que causá-la aos outros.
4. Fácil odiar o mau por ser mau. O difícil é amá-lo por ser pessoa.
5. O amor não se gasta como o dinheiro. O dinheiro se esgota quando é usado, enquanto o amor cresce com o uso.
6. Amar o inimigo como inimigo é uma loucura. Amá-lo como irmão é caridade. Ao amar o inimigo, desejas que ele seja para ti um irmão. Não amas o que ele é, mas aquilo em que queres que ele se torne.
7. Amando ao próximo limpas os olhos para ver a Deus.
8. A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão.
9. Aprova os bons, tolera os maus, ama a todos.
10. Quando me sinto abatido por compartilhar a carga de alguém, ao mesmo tempo sinto o alívio de ser amado por mais alguém.
11. O que uma pessoa sofre na sua própria carne chama-se miséria. O que sofre por simpatia pelo próximo chama-se piedade.
Santo Agostinho
INFORMAÇÕES
FORMAÇÃO PARA CATEQUISTAS
Nos dias 13, 14 e 15 de novembro às 20 horas, no auditório da escola da Calheta, formação de psicologia para catequistas.
MISSA NO SANTUÁRIO DA CALDEIRA
No próximo domingo, 17 de novembro, às 16h00 horas.
Faça download desta Carta Familiar em formato PDF: Nº 1177
Agenda Pastoral
Destaque
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Nº 1276Pensamento da Semana
PENSAMENTO DA SEMANA
Abraçarem-te a alma
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.
Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.
Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.
Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.
Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.
Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.
Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.
Abraçarem-te a alma.
Sabes o que é?
A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.
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