Nº 1122

 

A BELEZA DA ESCUTA

«No Princípio era o Silêncio,

e o Silêncio estava em Deus, e o Silêncio era Deus.

No Princípio, o Silêncio estava em Deus

e por Ele é que tudo começou a existir e sem Ele nada veio à existência.

Hoje queria propor-te que afinasses muito bem o ouvido para ouvir bem. E isso não é possível sem te treinares no Silêncio… O ouvido afina-se no Silêncio.

Põe-te com atenção aos sons todos. Ouve o que se passa! E o grande exercício de Ouvir bem tem a ver com ser capaz de distinguir os sons todos, destrinçá-los, como se fosse desfazer uma corda entrançada de muitos fios… ser capaz de “pegar de ouvido” cada fio e ouvi-lo um pedaço… depois, outro…

Se quiseres, treina com uma boa música. Ouve música clássica hoje, uma boa peça sinfónica, um adágio qualquer (basta escrever “adagio” na pesquisa do youtube) e faz este exercício: começa por ouvir tudo… deixa-te entrar… fecha os olhos… depois, começa lentamente a ouvir um instrumento de cada vez… agora os violinos… agora os sopros… ainda que não saibas o que é o quê, deixa que o teu ouvido perceba as diferenças de cada um e ouve-os individualmente… cada instrumento fala uma língua diferente e todos juntos é que fazem a Comunicação, a Sinfonia… faz esta destrinça com calma e gozo, sem stress, não é nenhum concurso… e depois, lentamente, volta a ouvir tudo.

Faz isto duas ou três vezes com a mesma música, de maneiras diferentes. Garanto-te que te vais sentir novo quando voltares a abrir os olhos. Tenho quase a certeza que a muitos de vocês vai custar muito abri-los, não vão querer, não vão querer levantar-se nem ir embora…

Façam o mesmo exercício no meio da rua… ouçam os vários instrumentos da Sinfonia Quotidiana dos Homens… ouçam os carros, só os carros… depois, só as pessoas, as vozes… ouçam só o vento… ouçam cada coisa na sua vez e depois juntem tudo… hão-de perceber alguma harmonia, tenho a certeza…

Sentem-se num café e ouçam as conversas que vos rodeiam. Eu sei que é feio, que se lixe! Ouçam as conversas dos vizinhos das mesas ao lado… não para cuscar, não para julgar, mas simplesmente para aprender como é que a vida funciona, quais são os segredos da alma humana, por onde andam as alegrias e as esperanças, as dores e as angústias dos Homens nossos irmãos… Escutem um bocadinho dessas conversas e falem a Deus sobre essas pessoas. Não falem a mais ninguém, só a Deus, rezem por elas e com elas… nem imaginam como isto nos faz bem!»

Rui Santiago, cssr, in DM

 

MEDITAR

Veste nupcial? Veste o coração, não a pele

 

Festa grande na cidade: casa-se o filho do rei.

Porém, acontece que os convidados, gente séria, pés na terra , começam a dar desculpas: têm compromissos, negócios a concluir, não têm tempo para coisas triviais: um banquete, festas, afetos, rostos.

O ídolo da quantidade pediu que lhe fosse sacrificada a qualidade de vida. Porque a essência da parábola é esta: Deus é como quem organiza uma festa, a melhor das festas, e convida-te, e coloca no prato as condições para uma vida boa, bela e alegre.

Todo o Evangelho é a afirmação de que a vida é e só pode ser uma busca contínua da felicidade, e Jesus tem a sua chave. Mas ninguém vem para a festa, a sala está vazia. A reação do rei é mandar buscar homens e mulheres sem importância nas encruzilhadas, atrás das sebes, nos subúrbios, homens e mulheres sem nenhuma importância, bastam que tenham fome de vida e de festa.

Se o coração e a casa dos convidados se fecham, o Senhor abre os encontros noutro lugar. Tal como deu a sua vinha a outros viticultores, na parábola do domingo passado, também dará o banquete a outros famintos.

Os criados partem com uma ordem ilógica e inacreditável: todos os que encontrarem chamem-nos para a boda. Todos, sem olhar aos méritos ou a formalidades. Não pede nada, dá tudo. É belo este Deus que, ao ser rejeitado, em vez de reduzir as expectativas, as cria: chamai todos!

Ele abre, alarga, aposta no relançamento, vai mais longe. E dos muitos convidados vai para todos os convidados, das pessoas importantes da cidade vai para os últimos da fila: que entrem todos, maus e bons. Mesmo primeiro os maus e depois os bons ... Sala cheia, escândalo para o meu coração de fariseu. E quando ele desce para a multidão festiva é a imagem de um Deus entrando no coração da vida. Nós pensamos nele como distante, separado, sentado no seu trono de juiz, e ao contrário está dentro desta sala do mundo, aqui connosco, como alguém que se preocupa com a minha alegria e cuida dela.

E agora o segundo ponto da história: um convidado não usa a a veste de casamento. E isso faz com que seja expulso. Mas que protesto! Convidou mendigos e vagabundos e surpreende-se por que um está mal vestido. Mas a veste nupcial não é aquela usada sobre a pele, é uma veste para o coração.

Para um coração não extinto, que se ilumina, que sonha com a festa da vida, que deseja acreditar, porque acreditar é uma festa. Também eu sou o que sou, a veste um pouco remendada, um pouco gasta ou descosida. Mas o coração, esse não: estou com fome e com sede, e desejo que a alegria e a festa voltem depressa para as nossas casas. Eu sou um mendigo do céu.

Ermes Ronchi

 

 

 

 

José António Pagola

 

O MESTRE

«Naquela manhã o Mestre olhou o horizonte e percebeu que não podia difundir a sua doutrina entre os poderosos. Estes tinham palácios, fábricas, refinarias, grupos de comunicação, multinacionais e bonitas mulheres que acordariam ao cheiro do seu dinheiro dispostas a tudo. Estavam demasiado cheios para receber alguma coisa.

Por isso decidiu pisar o pó dos caminhos e ir ao campo pregar a sua mensagem a pobres camponeses e a pescadores famintos, reunir os doentes e deserdados das aldeias e falar-lhes junto ao lago.

Dizia: "Felizes os pobres, os que não contam, os que precisam de carinho e estão sós. Felizes os não violentos, os que semeiam a paz e estão sempre dispostos a perdoar e a estender uma mão.

Não tenhais medo de dizer a verdade, ainda que tentem amordaçar-vos ou vos levem presos, porque só a verdade faz as pessoas livres.

Quando sois pequenos, sois grandes, e quando ajudais uma destas velhinhas ou qualquer criança maltratada acendeis em vós um fogo que não acaba.

Com cada sorriso ou copo de água que deis aos outros encontrar-vos-eis a vós mesmos, porque a nossa essência é dar e há mais alegria em dar do que em receber. (...)

Se alguém se lembrar de converter as minhas palavras numa lei, elas murcharão como flores no deserto.

Eu não condeno ninguém. A minha missão não é condenar. Pelo contrário, sou feliz ao libertar as pessoas dos seus fardos.

Não tenho militantes, nem partidos, nem gabinetes, nem programas de governos, nem subordinados, mas só um punhado de amigos que aprenderam a dizer a palavra 'gratuito'.

Sim, eu sei que isso é perigoso. Mas não tenhais medo porque quando a noite é mais escura já é pleno dia. Só aqueles que têm a alma aberta à surpresa podem nascer de novo".

Assim disse o Mestre. Mas os políticos, os financeiros e os clérigos do país assustaram-se imenso e decidiram contratar um assassino a soldo para o eliminar.»

Pedro Miguel Lamet, s.j., in Saborear e Saber

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

"A jornada para o amor é a jornada para a plenitude da vida. Só através dele o ser humano se torna capaz de se conhecer, de amar aquilo que é e o que virá a ser, e de encontrar a plenitude da vida, que é a glória de Deus. Só no amor o homem encontrará a razão de uma celebração eterna."

 John Powell, in O Segredo do Amor Eterno


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

«O amor é uma coisa «perigosa», só ele traz a única revolução que proporciona felicidade.

São poucos os que são capazes de amar, e tão poucos os que querem o amor.

Amamos segundo as nossas próprias condições, fazendo do amor uma coisa de mercado. Temos mentalidade mercantil, mas o amor não é comercializável nem é um negócio de troca.

O amor é um estado de ser, no qual todos os problemas humanos se resolvem. Vamos ao poço com um dedal e assim a vida torna-se uma coisa sem qualidade, insignificante e limitada.»

 

J. Krishnamurti, in Cartas a uma jovem amiga

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