Nº 1039

 

“O que é a cruz?”

Caminhava atrás, sentindo cada passo dado como uma prece e cada olhar como um desejo de mais na minha vida. No entanto, alguma coisa me inquietava cá dentro e, sem perceber bem o quê, mantive a marcha, esperando que os batimentos desacelerassem um pouco e que a calma voltasse ao seu ritmo normal.

Inesperadamente, alguém me interpelou, perguntando se eu desejava também transportar a cruz. Confesso que fiquei um pouco confusa e inexplicavelmente debitei algumas razões para me negar a tal convite, mas a insistência fez-me dizer sim. Avancei uns passos e tomei o meu lugar. Finalmente tocava “aquele” madeiro onde tantas e tantas mãos, assim como uma infinidade de ombros, já tinham sentido o peso da “carga”, mas também a suavidade do “jugo”. Era chegada a hora de adentrar-me mais na Paixão de Jesus; sim, porque ao dar aquele passo não queria ser mais uma que tocava, não queria ser mais uma que carregava (até porque carregar não demostra a verdadeira compaixão); queria transportar a cruz sentindo-me unida a um Jesus sofredor, queria transportar a cruz tornando-me parte de uma igreja que peregrina até ao Céu. Foram cem metros de uma pequena subida que se transformaram numa centena de razões para viver um “sim” permanente à vontade de Deus.

Agora, que já passaram duas semanas desde aquele momento, transporto-me na subida de Jesus até ao calvário, com o madeiro às costas. Vejo olhares de indiferença e até de ódio diante de um Jesus que nunca deixava ninguém indiferente e que passou a vida “fazendo o bem”; mas também sinto corações que batem fortemente por um Homem que caminha até à morte para salvar o homem do seu pecado. E, depois chega o Cireneu, um homem despreocupado que não entendia a cena que se desenrolava à sua frente. É-lhe pedido que transporte a cruz. Larga as alfaias que trazia aos ombros, trocando-as pelo objeto mais desprezível à época. E neste gesto a humanidade aconteceu.

Nisto tudo, (re)vejo-me também a compreender melhor a inquietude que me assolava no caminho e o desejo de ser “Cireneu” quando eu disse sim à cruz. Nem sempre percebo aquilo que me é pedido viver; quantas vezes baixo os olhos ficando cega ao sofrimento do meu próximo, e que dizer, das dúvidas que coloco a mim mesma ficando na incerteza morna de viver um sim. Com o Cireneu, acredito que tudo é possível e que a compaixão transforma os corações.


O que é a cruz?

É o sinal que aponta o Céu. 

Muito acima da poeira e das brumas desta Terra,

ela eleva-se ao alto, até à luz pura.”

Susana Gonçalves (adaptado)

 

MEDITAR

Identificar as tentações

Segundo os evangelhos, as tentações experimentadas por Jesus não são propriamente de ordem moral. São situações em que lhe são propostas formas falsas de entender e viver a sua missão. Por isso, a sua reação serve-nos de modelo para o nosso comportamento moral, mas, sobretudo, alerta-nos para não nos desviarmos da missão que Jesus confiou aos seus seguidores.

Antes de qualquer coisa, as suas tentações ajudam-nos a identificar com mais lucidez e responsabilidade as que podem experimentar hoje a Sua Igreja e os que a formam. Como seremos uma Igreja fiel a Jesus se não somos conscientes das tentações mais perigosas que nos podem desviar hoje do seu projeto e estilo de vida?

Na primeira tentação, Jesus renuncia a utilizar Deus para «converter» as pedras em pães e saciar assim a sua fome. Não seguirá esse caminho. Não viverá procurando o Seu próprio interesse. Não utilizará o Pai de forma egoísta. Alimentar-se-á da Palavra viva de Deus, só «multiplicará» os pães para alimentar a fome das pessoas.

Esta é provavelmente a tentação mais grave dos cristãos dos países ricos: utilizar a religião para completar o nosso bem-estar material, tranquilizar as nossas consciências e esvaziar o nosso cristianismo de compaixão, vivendo surdos à voz de Deus que nos continua a gritar, onde estão os vossos irmãos?

Na segunda tentação, Jesus renuncia a obter «poder e glória» oferecidos com a condição de submeter-se como todos os poderosos aos abusos, mentiras e injustiças em que se apoia o poder inspirado pelo «diabo». O reino de Deus não se impõe, oferece-se com amor. Só adorará ao Deus dos pobres, débeis e indefesos.

Nestes tempos de perda de poder social é tentador para a Igreja tentar recuperar «o poder e a glória» de outros tempos pretendendo inclusive um poder absoluto sobre a sociedade. Assim podemos perder uma oportunidade histórica para entrar num caminho novo de serviço humilde e de acompanhamento fraterno ao homem e à mulher de hoje, tão necessitados de amor e de esperança.

Na terceira tentação, Jesus renuncia a cumprir a Sua missão recorrendo ao êxito fácil e à ostentação. Não será um Messias triunfalista. Nunca colocará Deus ao serviço da Sua vanglória. Estará entre os seus como quem que serve. Sempre será tentador para alguns utilizar o espaço religioso para procurar reputação, renome e prestígio. Poucas coisas são mais ridículas no seguimento de Jesus que a ostentação e a busca de honras. Fazem mal à Igreja e esvaziam-na de verdade.

 José Antonio Pagola

 

Viramos a página?

Arrisco a dizer que estamos, todos, com muita sede de virar a página. Queríamos que estes tempos difíceis desaparecessem dos nossos dias; que as notícias que nunca são boas dessem lugar a pontinhos de luz e de esperança em forma de informação e de conteúdo. No entanto, parece que ainda não estamos autorizados a virar a página porque esta “página” não nos pertence, apenas, a nós. A página da pandemia é de todos. Diz respeito a todos. O respeito por estes tempos e os cuidados a ter são, e devem ser-nos, cobrados. A solução para o fim destes tempos cabe-nos a todos.

Claro que é mais fácil assobiar para o lado. Ignorar e seguir em frente como se nada fosse. Não é assim que se chega longe. Não é assim que cruzaremos esta meta que teima em fugir-nos cada vez mais para a frente, como se de uma provocação altiva se tratasse.

Que havemos de fazer, então, se nada parece estar ao alcance das nossas mãos? Do nosso controlo? Dos nossos gestos individuais?

Resta-nos (e já é muito!) fazer o que nos compete como pessoas, como responsáveis pela saúde pública (que é de todos), como cidadãos, como irmãos, irmãs, mães, pais, avós, tios, primos, amigos, conhecidos e desconhecidos. 

Resta-nos cuidar, com carinho e cuidado, da página que ainda não virámos, ainda que já consigamos avistar o novo ano. 

Não será estranho que suspiremos. Que desanimemos. Que pensamos que “isto nunca mais acaba”. Que nos sintamos castigados, massacrados, mastigados por um tempo tão complicado e turbulento. Que não fiquemos por aí. Que consigamos encontrar a coragem para encher o copo para brindar à esperança do que há de estar por vir. Para vir. 

Dizem que atraímos tudo aquilo que desejarmos, que visualizarmos, que sonharmos como possível… por isso, fecha os olhos e imagina aquilo que será comum e feliz para todos:

O virar desta página. E que, a seguir, a página que se escreva seja profundamente melhor e mais feliz.

Marta Arrais

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

Para Jesus,

não há países a conquistar,

ideologias para impor,

pessoas para dominar.

Somente pessoas para amar.

Henri Nouwen

 


 

INFORMAÇÕES

RECEITAS

Culto da Ribeira Seca - 3.695.00 €

 

CATEQUESE DA RIBEIRA SECA

No próximo dia 13 de março, será recitado o Terço a Nossa Senhora pela paz na Ucrânia, às 10h30 na Igreja da Ribeira Seca, para toda a catequese e população em geral. Depois do terço haverá missa seguida de arrematações cujo valor será aplicado na compra de bens para enviar para a Ucrânia. Apelamos à vossa presença e à vossa generosidade! É muito importante ajudar quem precisa, todos juntos podemos fazer a diferença!

É do conhecimento geral a situação delicada que a Ucrânia está a passar. Uma forma de poder ajudar, para além das nossas orações, é doando bens de primeira necessidade e terapêuticos para enviar. Apelamos à generosidade de todos para participarem depositando num caixote que estará na Igreja durante toda a próxima semana destinado à recolha desses bens. Todos juntos podemos fazer a diferença!


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Agenda Pastoral

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Nº 1069

Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

Uma das tarefas mais alegres de um educador é provocar, nos seus alunos, a experiência do espanto. Um aluno espantado é um aluno pensante...

A primeira tarefa da educação é ensinar as crianças a serem elas mesmas. (...) ensinem as crianças a tomar consciência dos seus sonhos!

A segunda tarefa da educação é ensinar a conviver.


Rubem Alves

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