Nº 1144

 

S. José, homem justo com os mesmos sonhos de Deus

Entre os guardiães da espera encontramos José, homem dos sonhos e das mãos calosas, o último patriarca do antigo Israel, selo de uma história grávida de contradições e de promessas: a sua casa e os seus sonhos narram uma história de amor, as suas dúvidas e o coração ferido falam de uma história humaníssima de expetativas e de crises.

Antes que fossem viver juntos, Maria encontrou-se grávida… Então, José pensou repudiá-la em segredo. Na ocultação. É a única maneira que discerne para salvar Maria do risco da lapidação, porque a ama, ela ocupou-lhe a vida, o coração, até os sonhos.

De quem aprendeu Jesus a opor-se à lei antiga, a colocar a pessoa antes das regras, se não ouvindo contar de José a história daquele amor que o fez nascer, a história de um encobrimento pensado para subtrair a mãe à lapidação?

Como aprendeu Jesus a escolher aquela palavra que se diz na intimidade familiar, “abbà”, palavra de criança, tão identitária e exclusiva, a não ser daquele homem de olhos e coração profundos? Ao chamar José de “abbà”, papá, aprendeu o que evoca esse nome doce e fortíssimo, como é a revelação do rosto de amor de Deus.

José que nunca fala, de quem o Evangelho não recorda sequer uma palavra, homem silencioso e corajoso, concreto e livre, sonhador: os destinos do mundo foram confiados aos seus sonhos.

Porque o homem justo tem os mesmos sonhos de Deus. Para sonhar é preciso coragem, não só fantasia, Significa não contentar-se com o mundo tal como é. A matéria de que são feitos os sonhos é a esperança (Shakespeare).

O Evangelho reporta quatro sonhos de José, sonhos de palavras. E de cada vez trata-se de um anúncio parcial, incompleto, de cada vez uma profecia breve, demasiado breve, sem um horizonte claro, sem data de regresso. E todavia suficiente para apertar a si a Mãe e o Menino, para se pôr a caminho para o Egito, e depois para retomar o itinerário de casa.

Nós teremos tanta luz quanto nos baste para um só passo, e depois a luz renovar-se-á, como os sonhos de José. Teremos tanta coragem quanto nos baste para enfrentar a primeira noite. Depois a coragem renovar-se-á, como os anjos do justo José.

Ersmes Ronchi (adaptado[ms1] )

 

MEDITAR

A vida como um grão de trigo

 

Queremos ver Jesus. Grande questão dos que O procuram em todos os tempos, uma questão que também é minha. A resposta de Jesus leva-nos a um olhar profundo: se quiserem entender-me, vejam o grão de trigo; se quiserem ver-me, olhem para a cruz. O grão de trigo e a cruz, a síntese humilde e vital de Jesus. Se o grão de trigo, caído no chão, não morre, fica sozinho; Se ao invés disso morre, produz muita fruto. Uma frase difícil e até perigosa se mal entendida, porque pode legitimar uma visão dolorosa e infeliz de religião.

Um verbo vem até nós imediatamente pela sua carga emotiva: se não morrer, se morrer. E parece ofuscar tudo o resto, mas é a miragem enganosa de uma leitura superficial. O propósito para que a frase converge é "produzir": o grão produz muito fruto. O destaque não é sobre a morte, mas sobre a vida. A glória de Deus não está no morrer, mas no muito fruto bom.

Observemos um grão de trigo, uma semente qualquer: parece uma casca seca, acabada e inerte, na realidade é uma pequena bomba da vida. Caída à terra, a semente não apodrece e não morre, são metáforas alusivas. A morte da semente não ocorre na terra, mas acontece, sim, uma obra infatigável e maravilhosa que é o dom de si mesmo: o grão oferece-se para germinar (mas a semente e o gérmen não são duas coisas diferentes, são a mesma coisa) o seu alimento, como uma mãe oferece ao bebé o seu peito.

E quando a semente deu tudo, o gérmen é lançado para baixo com as raízes e depois para cima com a ponta frágil e poderosa de suas folhas. Para que o grão morra, mas no sentido de que a vida não lhe é tirada, mas transformada em uma forma de vida mais avançada e poderosa.

A segunda imagem da autoapresentação de Jesus é a cruz: quando for levantado atrairei todos a mim. Sou um cristão por atração, da cruz irrompe uma força universal de atração, uma força de gravidade celeste: a imagem mais pura e mais alta que Deus deu de Si mesmo.

Que coisa me atrai no Crucifixo? Os milagres? O esplendor de um corpo chagado? Atrai-me a maior de todas as belezas, aquela do amor. Todo o gesto de amor é sempre belo: é lindo quem ama e te ama, lindo é quem, homem ou Deus, te ama ao extremo. Na cruz, a arte divina de amar oferece-se à contemplação cósmica.

“A um Deus humilde nunca, nunca nos habituamos" (Papa Francisco), a este Deus diferente que confunde as nossas imagens ancestrais, todos os nossos pontos de referência com um grão e uma cruz, com a semente humilde e a extrema submissão:

Deus gosta de juntar

o grande no pequeno:

o universo no átomo

a árvore na semente

o homem no embrião

a borboleta na lagarta

a eternidade no momento

o amor num coração

Ele mesmo em nós.

 

Ermes Ronchi

 

O INTRUSO

Caminhava sobre as águas, enchia as redes,

os pescadores largaram o seu trabalho para segui-Lo.

Num banquete de casamento, faltou o vinho e proveu,

centenas de litros, um golpe de mestre das vindimas,

água em vasilhas de pedra transformada em vinho.

É melhor, disseram os comensais, sim, é melhor

o vinho que não precisa ser pisado, o pão feito sem grão nem forno,

o peixe que salta para a barca por si mesmo: aquele homem

libertava os dons

que pertencem à graça, apaixonado e destemido.

Veio de um batismo nas águas do Jordão, morreu não muito longe

sobre uma viga em forma de T, e quando um ferro lhe atravessou o flanco,

destilou água com sangue, como a rutura de um parto,

morreu como manancial.

Eis o intruso do mundo, encharcado com o óleo de todas as faltas,

prestes a desvanecer pálido de frio num abril

ou mesmo num março, a mais de oitocentos metros

acima do nível do mar nunca alcançado.

Um gargarejo de águas no fundo de um poço seco,

um gargarejo na tubagem das artérias:

deste modo derrama-se a Sua ressurreição.

Erri de Luca


 [ms1]

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

De que me adianta fugir,

se Tu foges comigo?

De que me adianta esconder,

se Tu te escondes em mim?

De que me adianta virar a cara,

se Tu Te revelas na minha própria face?

De que me adianta não escutar as palavras,

se Tu as gravas no meu coração?

De que me adianta fazer de esquecido,

se Tu não sais do meu pensamento?

De que me adianta a Vida,

se só Tu és o caminho, a verdade e a Vida?

De que me adianta...?

 Emanuel António Dias

 


 

INFORMAÇÕES

CONFISSÕES

Velas - 21 de março das 17 às 18 horas.

Ribeira Seca e Manadas - 22 de março das 17 às 18 horas.

Urzelina - 24 de março das 17 às 18 horas.

Calheta - 26 de março das 18 às 19 horas.

 

Culto Ribeira Seca - 3.535,00€

 

Esclarecimento sobre nulidade do matrimónio

No dia 18 de março, às 20 horas, no Passal da Calheta, vai haver uma sessão de esclarecimento sobre a nulidade do matrimónio. Todos os que quiserem saber como recorrer ou esclarecer as suas duvidas podem participar.


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

A Resposta

Houve momentos

em que, depois de horas passadas de joelhos

numa igreja fria, rolou da minha cabeça

uma pedra e olhei para dentro

e vi as velhas perguntas de rastos

dobradas e colocadas a um canto

à parte, como o montão

dos panos fúnebres de um corpo

de amor ressuscitado.

R. S. Thomas

 

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