Nº 1140

 

A Quaresma não é...

A Quaresma não é um campeonato de merecimentos, nem de cumprimentos. A Quaresma é um tempo para cada um de nós tomar consciência da sua condição humana: necessitada em jejuar o que é supérfluo, preenchida somente com a partilha e realizada através da relação íntima com Deus.

A Quaresma não é um campeonato de objetivos inatingíveis, nem de juras eternas de conversão radical. A Quaresma é um tempo para cada um de nós abraçar a sua condição humana: acolher e respeitar a sua fragilidade, reconhecer os seus limites e amar a Deus com a sua inteireza.  

A Quaresma não é um campeonato de proibições, nem de caras de missa de sétimo dia. A Quaresma é um tempo para cada um de nós conhecer mais profundamente a sua condição humana: aprofundar o sentido e o significado da fé na nossa vida, reconhecer que há mais beleza na fé quando esta é vivida em liberdade e compreender que é a alegria e o amor que nos permite sempre recomeçar.

A Quaresma não é um campeonato de rituais, nem de imposições de medo. A Quaresma é um tempo para cada um de nós amadurecer a sua fé. É uma oportunidade para interpretarmos os simbolismos e os gestos. É uma possibilidade de reconhecermos que somos seres que rezamos com o corpo. É um momento para saborearmos os silêncios da nossa vida.

A Quaresma não é um campeonato de pesos, nem de culpa. A Quaresma é um tempo para nos libertarmos do que fomos. É uma oportunidade para reerguermos e para sermos reerguidos. É uma possibilidade de permitirmos que o perdão e a misericórdia sejam a nossa maior motivação. É um momento para darmos a conhecer ao mundo que não há nada suficientemente morto que Deus não possa ressuscitar.

A Quaresma não é, nem poderá ser um tempo para nos sentirmos indignos ou falhados. A Quaresma deve ser, isso sim, um tempo onde jejuamos o que não nos completa, onde partilhamos o que nada detemos e onde rezamos pelo tanto que ainda temos de caminhar!

Se a Quaresma te amedronta e te deixa apenas com o sentimento deprimente de falhanço, questiona-te: estarei a caminhar livremente para Deus ou a praticar a doutrina do medo?

Emanuel António Dias

 

MEDITAR

 

A tentação é sempre uma opção entre dois amores: Peço-te, escolhe a vida

A primeira leitura do primeiro domingo da Quaresma (ano B) fala de um Deus que inventa o arco-íris, esse abraço luminoso entre Céu e Terra, que reinventa a comunhão com cada ser que vive em cada carne (cf. Génesis 9, 8-15).

O Evangelho de Marcos (1, 12-15) não refere, diferentemente do de Lucas e Mateus, o conteúdo das tentações de Jesus, mas recorda-nos o essencial: o Espírito impele-o para o deserto, e aí permanece 40 dias tentado por Satanás.

Nesse lugar simbólico Jesus joga a partida decisiva, questão de vida ou de morte. Que tipo de Messias será? Veio para ser servido ou para servir? Para ter, ascender, comandar, ou para descer, aproximar-se, oferecer?

A tentação é sempre uma escolha entre duas vidas, melhor, entre dois amores. E, sem escolher, não se vive. «Tirai as tentações e ninguém mais se salvará» (Abba António, Padre do Deserto), porque faltaria o grande jogo da liberdade. Esse que abre toda a secção da lei na Bíblia: coloco diante de ti a vida e a morte, escolhe! O primeiro de todos os mandamentos é um decreto de liberdade: escolhe! Não ficar inerte, passivo, prostrado.

E é como uma súplica que o próprio Deus se dirige ao ser humano: peço-te, escolha a vida! (Deuteronómio 30, 19). O que significa «escolha sempre o humano contra o desumano» (David Maria Turoldo), escolhe sempre o que constrói e faz crescer a tua vida e dos outros em humanidade e dignidade.

Do deserto é lançado o anúncio de Jesus, o seu sonho de vida. A primavera, nossa e de Deus, não se deixa perturbar por nenhum deserto, por nenhum abismo de pedras. Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia para proclamar o Evangelho de Deus. E dizia: o Reino de Deus está próximo, convertei-vos e acreditai no Evangelho.

O conteúdo do anúncio é o Evangelho de Deus. Deus como uma bela notícia. Não era óbvio para ninguém. Nem toda a Bíblia é Evangelho, nem toda é notícia bela e alegre; por vezes é ameaça e juízo, muitas vezes preceito e ordem. Mas a característica original do rabi de Nazaré é anunciar o Evangelho, uma palavra que conforta a vida: Deus fez-se próximo, e com Ele são possíveis Céus e Terra novos.

Jesus passa e atrás dele, nos caminhos e nas vilas, permanece um rasto dos pólenes do Evangelho, um eco no qual vibra o sabor belo e bom da alegria: é possível viver melhor, um mundo como Deus o sonha, uma história outra, e aquele rabi parece conhecer-lhe o segredo.

Convertei-vos… Como que a dizer: voltai-vos para a luz, porque a luz já aqui está. E é como o movimento contínuo do girassol, o seu orientar-se tenaz para a paciência e para a beleza da luz. Para o Deus de Jesus e o seu rosto de luz.

Ermes Ronchi

 

ENTRA NO TEU QUARTO

“Entra no teu quarto.”

Isto é, entra dentro de ti, entra no teu coração. Muitas vezes vivemos só à superfície, vivemos no rame-rame da vida, vivemos à pele os acontecimentos. Mesmo a espiritualidade é alguma coisa sobretudo de fora, uma expressão de gestos, de atos, de coisas que fazemos. A verdade é que a nossa vida interior vai definhando, vai perdendo a capacidade de inspirar a vida, vai ficando para quando tivermos tempo que nunca temos. Vamos perdendo a coragem de entrar dentro de nós, vamos desacreditando de nós, desacreditando de que é possível, de que vale a pena, de que Deus nos ama realmente e nos transforma, e acabamos por viver uma vida apenas superficial.

“Entra no teu quarto.”

O tempo da Quaresma é um desafio a vivermos com interioridade o próprio tempo entrando dentro de nós. Não é entrar no quarto ao lado, no quarto do outro, na vida do outro. É entrar na nossa própria vida, olharmos para nós próprios, para aquilo que somos, para aquilo que vivemos. É que acontece muitas vezes que temos olhos para tudo menos para a nossa própria vida, porque exatamente a nossa própria vida é aquilo que nos custa mais ver. Temos consciência dos pecados, das fragilidades, das dificuldades de toda a gente (“Já viste este. Já viste aquela. E mais isto e mais aquele outro”) e da nossa própria vida nós não tomamos consciência.

“Entra no teu quarto.”

Quer dizer: “Toma consciência da tua vida, da qualidade da tua vida.” Da qualidade espiritual, da qualidade de amor, da qualidade de generosidade, da qualidade ou não de misericórdia que tu vives.

“Entra no teu quarto.”

Isto é, escuta o teu coração, entra. E entra com esperança, porque não é apenas para ficarmos perdidos no nosso caos interior, mas é para olharmos o Pai, descobrirmos o Pai, dentro da nossa vida descobrirmos que Deus é Pai, que Deus nos ama. E se Deus nos ama, Deus estende-nos a mão. Quando Pedro se estava a afundar nas águas e pediu: “Senhor, salva-me.” O Senhor estende-lhe a mão e é esse gesto que Deus faz a cada um de nós.

“Entra no teu quarto e descobre, redescobre que Deus é teu Pai e que Deus é uma presença de amor.” E porque Deus é Pai Ele assiste ao nosso parto, Ele assiste à reinvenção de nós mesmos, Ele assiste à transformação interior da nossa vida. (…)

No tempo da Quaresma os cristãos entram para obras, isto é, para reparações, como uma casa de vez em quando precisa de um teto novo, precisa de um soalho, de uma porta, de uma reparação qualquer.

 

Excertos de Homilia proferida pelo Cardeal José Tolentino de Mendonça,

 na Celebração de Quarta-feira de Cinzas

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

"O amor é a fruta da época de todas as estações e está ao alcance de cada mão. Qualquer um pode colhê-lo, sem limites estabelecidos."

 

"Não podemos fazer grandes coisas na terra. Tudo o que podemos fazer são pequenas coisas com muito amor".

 

Madre Teresa de Calcutá


 INFORMAÇÕES

FORMAÇÃO BÍBLICA

Nos dias 20, 21 e 22 de fevereiro, teremos Formação Bíblica para todos os que quiserem participar.

Será no Auditório da Escola da Calheta às 20 horas, será sobre os Salmos e terá como formador o Pe. Doutor Francisco Ruivo.

Vem “REZAR COM OS SALMOS”.


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

A Resposta

Houve momentos

em que, depois de horas passadas de joelhos

numa igreja fria, rolou da minha cabeça

uma pedra e olhei para dentro

e vi as velhas perguntas de rastos

dobradas e colocadas a um canto

à parte, como o montão

dos panos fúnebres de um corpo

de amor ressuscitado.

R. S. Thomas

 

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