Nº 1071

 

CANSADO DE SER CRISTÃO

"Porque é que às vezes parece ser tão difícil ser cristão? Porque é que temos a sensação que nos é pedido mais a nós que a quem não professa a fé cristã? Se o Espírito Santo habita em ti, que mais se te pode dar? Que mais te pode ser prometido senão Aquele que já habita em ti. Aquele que se move dentro de ti, e que te empurra à vida, à liberdade e à esperança. E tu que tantas vezes não te dás conta disso, é justo que peças a Jesus: aumenta a minha fé? (Lc 17, 5). Ou não seria mais justo dizer: Faz-me dar conta daquilo que já vive em mim. Mostra-me aquilo que vive em mim: o amor de Deus que foi derramado no meu coração, pelo Espírito que me habita. Porque vivo como se isso não fosse verdade. Como se a fé não fosse senão procurar qualquer coisa fora, uma recompensa ou qualquer coisa distintiva que me deveria ser dada porque acredito em Deus.

Quando lemos “o justo vive pela sua fé”, a expressão não deixa espaço para equívocos. O justo “vive” – é a palavra; não é “sustentado”, “animado” ou “fortalecido” pela sua fé. “Vive” como se a fidelidade não dependesse de nada mais que a própria vivência da fé. Como se o que estivesse no teu horizonte fosse, não a recompensa, mas o amadurecimento do coração a cada dia. Que mesmo que o nosso querer seja pequeno, na pequena rotina insignificante dos dias Deus estivesse a amadurecer em nós. Como se aquilo que me é dado não fosse mais que o caminho com tudo o que acontece, na família, no namoro, na amizade e no trabalho. Como se nessa aparente banalidade fosse chamado a viver com aquilo que já vive em mim e que sou chamado a deixar despontar. Deixar-me de desculpas e idiotices, de arrogâncias e de ideais e olhar para o que há de mais real em mim. Porque é na intimidade que se joga toda a nossa liberdade. Eu para Deus e Deus comigo. Eu ser esta coisa estranha que é ser discípulo d’Aquele que habita em mim. Rilke mostra esta intimidade de modo muito engraçado, com um poema que tem algo de ingénuo e comovedor:

Se muitas vezes te incomodo, Deus meu vizinho,

Durante a longa noite batendo à porta fortemente

É porque te oiço respirar raramente

E sei que na sala estás sozinho.

E se de alguma coisa precisares, ninguém há

Que nas mãos te deponha bebida habitual:

Estou sempre à escuta. Dá de ti sinal.

Meu ser perto está.

E talvez um dia, quando aquilo que nos habita despontar em nós, quando formos livres, possamos dizer com Paulo Le-Bao-Thim, mártir do Vietname do século XIX: No meio da tempestade lanço a âncora que me permitirá subir até ao trono de Deus: a esperança viva que está no meu coração."

P. Francisco Cortês Ferreira, sj, in Ponto SJ (Adaptado)

 

MEDITAR

O clamor dos que sofrem

A parábola da viúva e do juiz sem escrúpulos é, como tantos outros, um relato aberto que pode suscitar nos ouvintes diferentes ressonâncias. Segundo Lucas, é uma chamada para orar sem se desanimar, mas é também um convite para confiar que Deus fará justiça a quem lhe grita dia e noite. Que ressonância pode ter hoje em nós este relato dramático que nos recorda tantas vítimas abandonadas injustamente à sua sorte?

Na tradição bíblica a viúva é símbolo por excelência da pessoa que vive só e desamparada. Esta mulher não tem marido nem filhos que a defendam. Não conta com apoios nem recomendações. Só tem adversários que abusam dela, e um juiz sem religião nem consciência a quem não importa o sofrimento de ninguém.

O que pede a mulher não é um capricho. Só reclama justiça. Este é o seu protesto repetido com firmeza ante o juiz: “Faça-me justiça”. A sua petição é a de todos os oprimidos injustamente. Um grito que está na linha do que dizia Jesus aos seus: "Buscai o reino de Deus e a sua justiça".

É certo que Deus tem a última palavra e fará justiça a quem lhe grita dia e noite. Esta é a esperança que acendeu em nós Cristo, ressuscitado pelo Pai de uma morte injusta. Mas, enquanto chega essa hora, o clamor de quem vive gritando sem que ninguém escute o seu grito, não cessa.

Para uma grande maioria da humanidade a vida é uma interminável noite de espera. As religiões predicam Salvação. O cristianismo proclama a vitória do Amor de Deus encarnado em Jesus crucificado. Entretanto, milhões de seres humanos só experimentam a dureza dos irmãos e irmãs e o silêncio de Deus. E, muitas vezes, somos os mesmos crentes que ocultamos o seu rosto de Pai velando-o com o nosso egoísmo religioso.

Por que é que a nossa comunicação com Deus não nos faz escutar por fim o clamor dos que sofrem injustamente e nos gritam de mil formas: «Fazei-nos justiça»? Se, ao rezar, nos encontramos de verdade com Deus, como não somos capazes de escutar com mais força as exigências de justiça que chegam até ao seu coração de Pai?

A parábola interpela-nos a todos os crentes. Seguiremos alimentando as nossas devoções privadas esquecendo quem vive no sofrimento? Continuaremos rezando a Deus para colocá-lo a serviço dos nossos interesses, sem que nos importem muito as injustiças que há no mundo? E se rezar fosse esquecer-se de cada um e procurar do lado de Deus um mundo mais justo para todos?

 

José António Pagola

 

Como tens estado?

Quase nunca respondemos com verdade a esta pergunta. Dizemos sempre que estamos bem. Que vamos andando. Que desde que haja saúde está tudo como deve estar. Que não nos dói nada e que devemos dar graças por isso. Fomos ensinados a estar bem a todo o custo. A sorrir mesmo quando nos apetece franzir a testa e não falar com ninguém.

 

Ninguém nos ensinou a pedir ajuda. A dizer que não estamos bem. Dizer que se está mal não fica bem nas fotografias. Os divórcios. As doenças. As separações. As vidas por um fio. A morte. As dívidas. As lonjuras. Tudo isso cai mal aos que vivem de aparências. Mas de tudo isso é feita a vida.

 

No entanto, a verdade é que somos feitos de tudo. De estar bem e de estar mal. De dias de mar da Nazaré e de dias de mares de Monte Gordo. Dias de ouvir e dias de falar. Dias de brindar e ser feliz e dias de chorar e maldizer a sorte. Dias de ter força e fé e dias de apetecer desistir. Dias de dar graças e dias de porquê-a-mim. Somos feitos de caras bonitas e simpáticas e de caras feias e maldispostas.

 

Numa semana em que comemoramos o Dia Mundial da Saúde Mental, é preciso forçar espaço para abrir janelas diferentes. Para encontrar palavras para dizer que podemos estar mal e pedir ajuda. Que os dias tristes não duram para sempre e que, se durarem mais do que nos parecer saudável, podemos dar a mão a quem nos saiba dar outra cor aos dias.

 

Não estamos sozinhos. A vida é bonita, mesmo quando é feia. Aquilo que sentimos já alguém terá sentido também. Quase tudo se pode ultrapassar ou atenuar com a ajuda certa e as pessoas certas.

 

Não estás sozinho. Há espaço para o bom e para o mau. Para o bonito e para o horrível. Para olhar para o trauma e para contemplar a cura. Para expressar o que se sente e para guardar o que não se diz com palavras.

 

Que saibamos começar a ensinar as nossas crianças a saber falar do que sentem e a não condenar o que dizem. Que saibamos ser crianças outra vez para poder aprender aquilo que ninguém nos soube ensinar.

 

 Estar mal também vale. Está bem?

 

Marta Arrais

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

A vida ensinou-me a dizer adeus às pessoas que amo,

Sem as tirar do meu coração.

  sorrir às pessoas que não gostam de mim,

para lhes mostrar que sou diferente do que elas pensam.

A não fazer de conta que tudo está bem, quando isso não é verdade,

para que eu possa acreditar que tudo vai mudar.

A calar-me para ouvir.

A aprender com os meus erros; afinal, eu posso ser sempre melhor.

 A sorrir quando o que mais desejo é gritar ao mundo todas as minhas dores.

A ser forte quando os que amo estão com problemas.

A ser carinhosa com todos que precisam do meu carinho;

 A aproveitar cada instante de felicidade.

A chorar de saudade sem vergonha de o demonstrar.

A ver o encanto do pôr-do-sol.

 

Fênix Faustine, pensadora (Adaptado)


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