Nº 985

 

«A quem pregais a Quaresma? Aos ricos? Nunca a fazem! Aos pobres? Fazem-na todo o ano!»

Estamos a começar um «tempo favorável» para a nossa vida espiritual. Um tempo em que, através do jejum, da oração e das obras de caridade, possamos preparar-nos para celebrar «completamente renovados a Páscoa de Cristo», como se ouve na liturgia do primeiro dia da Quaresma, a Quarta-feira de Cinzas.

É um tempo de graça! Mas será ainda possível, com a televisão, o computador, a internet, as mensagens no telemóvel, falar da Quaresma e voltar a propô-la? Com força polémica, Voltaire gritava aos padres: «A quem pregais a Quaresma? Aos ricos? Nunca a fazem! Aos pobres? Fazem-na todo o ano!».

Muitos não gostam de ouvir falar de Quaresma. É uma palavra que evoca tristeza. «Tem cara de Quaresma», ouve-se dizer. Em Portugal, os 21 bancos alimentares que distribuem todos os dias 110 toneladas de alimentos, apoiam mais de 450 mil pessoas, cerca de 4% da população. Terá ainda sentido falar a elas de jejum, de penitência, de mortificação?

Mas neste «tempo favorável» somos convidados a orientar a vida para a Páscoa. Tempo de conversão, de oração, de caridade concreta, precisamente para quem tem menos. Um itinerário de quarenta dias que não mortifica, mas estimula a escolher o “mais”. A escolher o estilo de vida mais austero. A renunciar às palavras em excesso, ao ruído, à utilização compulsiva do computador, ao envio de mensagens supérfluas.

A Quaresma regressa para despertar as nossas consciências. Para nos pedir um intenso compromisso espiritual, para reunir todas as nossas energias, com vista a uma profunda mudança da nossa maneira de pensar, de falar, de viver.

Como diziam os Padres da Igreja: quem é bem sucedido nesta operação é maior do que quem faz milagres e ressuscita um morto.

 Leonardo Sapienza (adaptado)

 MEDITAR

 

Começa um caminho novo. No deserto. Com paciência. Na fragilidade

O Espírito impele Jesus para o deserto, e aí permanece quarenta dias, tentado por Satanás (Marcos 1, 12-15). A tentação? Uma escolha entre dois amores. Viver é escolher. A tentação pede-te para escolheres a bússola, a estrela polar para o teu coração. Se não escolhes, não vives, não de coração cheio. Ao ponto de o apóstolo Tiago, ao caminhar ao longo deste fio subtil mas fortíssimo, nos fazer sobressaltar: considerai como alegria perfeita sofrer toda a espécie de provações e de tentações. Quase a dizer-nos que ser tentados talvez seja belo, que decerto é absolutamente vital, para a verdade e liberdade da pessoa.

O arco-íris, lançado sobra a arca de Noé entre céu e Terra, após quarenta dias de navegação no dilúvio (Génesis 9, 8-15), toma novas raízes no deserto, nos quarenta dias de Jesus. Nele entrevejo as cores nas palavras: estava com os animais selvagens e os anjos serviam-no. Aflora a nostalgia do jardim do Éden, o eco da grande aliança após o dilúvio. Jesus reconstrói a harmonia perdida, e até o infinito se alinha.

Mas aqueles animais selvagens que Jesus encontra são também o símbolo das nossas partes escuras, os espaços de sombra que nos habitam, aquilo que não me permite ser completamente livre ou feliz, que me abranda, que me assusta: os nossos animais selvagens que um dia nos arranharam, dilaceraram, agarraram.

Jesus estava com elas. Aprendamos com Ele a estar ali, a olhá-las de frente, a nomeá-las. Não as deves nem ignorar nem temer, não as deves sequer matar, mas dar-lhes um nome, que é como conhecê-las, e depois dar-lhes uma direção: são a tua parte de caos, mas quem te faz encontrá-las é o Espírito Santo.

Também a ti, como a Israel, Deus fala no tempo da provação, no deserto, fá-lo através da tua fraqueza, que se torna o teu ponto de força. Talvez não te cures totalmente dos teus problemas, mas a maturidade do ser humano consiste em começar um caminho, com paciência (amadureces não quando resolves tudo, mas quando tens paciência e harmonia com tudo). Então dás-te conta que Deus te fala na fragilidade, e que o Espírito Santo é quem te permite voltares a enamorar-te de toda a realidade, a partir dos teus desertos.

Depois de João Batista ter sido preso, Jesus andou pela Galileia a proclamar o Evangelho de Deus. E dizia: o Reino de Deus está próximo. Deus proclama o “Evangelho de Deus”. Deus como uma “bela notícia”. Não era óbvio. Nem toda a Bíblia é Evangelho; nem toda é bela e alegre notícia; por vezes é ameaça e juízo, com frequência é preceito e intimação. Mas a característica original do rabi de Nazaré é anunciar Evangelho, uma palavra que conforta a vida, uma notícia feliz: Deus fez-se próximo, é um aliado amável, é um abraço, um arco-íris, um beijo em cada criatura.

 

Ermes Ronchi

 

Testamento da Irmã Maria Domingos

Obrigado, Senhor, por quantos se sentam com mansidão à soleira do instante.

Obrigado por aquelas e aqueles que olham o mundo e as suas contradições recorrendo à misericórdia em vez do juízo.

Obrigado por essas e esses que reparam, reciclam e restauram os fios quebrados ou interrompidos que trazemos no coração.

Obrigado pelos artesãos e tecedeiras que estendem pacientemente a possibilidade de caminho onde todos se apressam a dizer que não há remédio. 

Obrigado por inspirares mulheres e homens a cuidar não só do que vem considerado útil, mas também daquele inútil de que afinal precisamos tanto: a inútil alegria, a inútil viagem, a inútil beleza, o inútil esbanjamento que é, se pensarmos bem, a amizade e o amor.

Obrigado por quem não tem só fome de pão; por quem não sabe viver, por exemplo, sem fome de liberdade, de inteireza, de igualdade, de fraternidade ou de justiça. E assim, nessa fome que parece apenas terrestre, descobre também o significado do desejo de Deus.

Obrigado por quem se deixa visitar pela imensidão de Deus na vida minúscula e a declina com humildade e leveza, quase sem ruído.

Obrigado por essas e esses habitantes da vida que a abraçam intensamente, sem nunca a fechar. De facto, é no aberto e no amplo, longe de todos os cálculos, distante de todas as cercas, que as papoilas crescem sem porquê.

Obrigado, Senhor, por teres ensinado não só aos seres humanos o cântico da criação, pois realmente o grande coral que entoamos ficaria mais pobre. Tantas vezes me espantou perceber o que sabiam de Ti as flores ou os caracóis do nosso jardim. 

Irmã Maria Domingos, 26.2.1936 - 15.2.2021

 P. Tolentino

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

Se tu amas por causa da beleza, então não me ames!

Ama o Sol que tem cabelos doirados!

 

Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!

Ama a Primavera que fica nova todos os anos!

 

Se tu amas por causa dos tesouros, então não me ames!

Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!

 

Se tu amas por causa da inteligência, então não me ames!

Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural!

 

Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!

Ama-me sempre: amo-te para sempre!

Adília Lopes


 INFORMAÇÕES

CATEQUESE DA RIBEIRA SECA

A catequese da Ribeira Seca vai organizar o Mercado dos Sabores no Auditório Municipal da Calheta, no dia 27 de fevereiro das 10 às 16 horas. O produto da venda reverterá a favor do envio de contentor de bens alimentares para Famalicão conforme campanha a decorrer.

Agradecemos a vossa visita.

 

CLÍNICA DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DA CALHETA

A Direção da Associação de Bombeiros Voluntários da Calheta informa que estará na Clínica da Instituição a Dr.ª Paula Pires, Neurologista e Neuropediatra, em 18 e 19 de fevereiro; Dr.ª Lourdes Sousa, Dermatologista de 20 e 22 de fevereiro; Dr.ª Renata Gomes, Cardiologista, data por estabelecer; Dr. Brasil Toste, Otorrinolaringologista, 1 de março; Elisabel Barcelos, Psicóloga Clinica e Formadora, nas áreas de avaliação Psicológica de Condutores (Testes psicotécnicos), Avaliação Psicológica, acompanhamento Psicológico e formação em temas ligados à Saúde Mental e /ou Psicologia, quintas e sextas-feiras; Paula Ribeirinho, Terapeuta da Fala às segundas e quartas-feiras.

Os interessados podem fazer as suas marcações para os números 295460111 ou por email: abvc.geral@gmail.com.


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