Nº 958

 

Qual é o melhor passeio deste verão? Qualquer um, desde que seja com quem está só

Estamos em pleno verão, o mais difícil do século, depois dos meses de um confinamento que, esperamos, não se volte a repetir. O cansaço que temos de aliviar não é o normal stress de correr em excesso, de ter trabalhado em demasia, de não ter dormido o suficiente, mas é a ausência de paz, sobretudo interior, que nos afaste das sirenes das ambulâncias que atravessavam as nossas ruas, ferindo os silêncios das nossas cidades, recordando-nos que mais outra pessoa estava mal, outra pessoa como nós talvez estivesse para morrer.

Estamos desgastados, mais do que exaustos. O repouso que procuramos é aquele que deve lançar âncora na contemplação, mais do que na recreação física. E assim entre restrições nas viagens, medos e falta de dinheiro, a pergunta que se torna cada vez mais necessária é: de que é que necessitamos, verdadeiramente, durante o tempo de verão? Precisamos de beleza, sem esquecer, no entanto, que a beleza não é só a da Criação, mas sobretudo a da vida, dos laços. Os meses em casa abriram-nos bruscamente os olhos para verdade de que a “família” não é só onde se come ou dorme, mas onde se vive. A beleza que devemos alcançar, e que depende só de nós, e não do nosso dinheiro ou das decisões do Governo, é a da vida e dos laços.

Nestes meses, todos encontrámos, das maneiras mais variadas, muitas pessoas que sofriam, e nós, sendo bons, quisemos, como primeira atitude, resolver a causa do seu sofrimento, mas muitas vezes fracassámos. Se uma pessoa sofre porque a mãe morreu ou está abandonada, não podemos fazer nada. Melhor, só podemos fazer uma coisa: ter “compaixão”, “padecer juntos”. É justo (e necessário), obviamente, procurar dar um teto a quem não o tem, ou dar de comer ao faminto, mas aquilo que, verdadeiramente, cada um de nós tem necessidade absoluta é de ter alguém que partilhe connosco. Que esteja junto de nós. Que, em primeiro lugar, viva connosco o mesmo destino de pobres e de sofredores; porque há muitos géneros de pobreza e de sofrimento.

Banalmente, gostaria de sugerir que nestas férias se tentasse viver junto dos outros “a penitência” e a alegria do caminhar

Percorramos a pé, se pudermos, os caminhos de quem está ao nosso lado e de quem amamos. Percorramos as estradas da humanidade que significa estar junto do ser humano. E assim remediaremos a dor que é mãe de todas as dores: a solidão, a principal razão da angústia do ser humano. Ainda que camuflada, esta solidão permanece a verdadeira situação do homem, e denota, ao mesmo tempo, a mais estridente contradição com a natureza própria do homem, que não pode subsistir sozinho, mas precisa, pelo contrário, de uma vida com outros. A solidão é, por isso, a razão da angústia (…)».

 Mauro Leonardi (Adaptado)

 

MEDITAR

Migalhas de Deus são tão grandes como o próprio Deus

A mulher das migalhas, a cananeia pagã, surpreende e converte Jesus: fá-lo passar de mestre de Israel a pastor de todas as dores do mundo (Mateus 15,21-28). A primeira das suas três palavras é uma oração, a mais evangélica, um grito: “Kyrie eleyson”, piedade, Senhor, de mim e da minha criança. E Jesus não lhe dirige nem sequer uma palavra.

Mas a mãe não se rende, cola-se ao grupo, diz e rediz a sua dor. Até que provoca uma resposta, mas distante e brusca: vim para os de Israel, e não para vós.

Frágil mas indómita, não larga; como toda a verdadeira mãe pensa na sua criança, e relança. Lança-se por terra, corta o passo a Jesus, e do coração irrompe-lhe a segunda oração: ajuda-me! E Jesus, áspero: não se tira o pão aos filhos para o lançar aos cães.

E eis a inteligência das mães, a fantasia do seu amor: é verdade, Senhor, mas os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos. Faz uma migalha de milagre, para nós, os cachorrinhos do mundo!

É a reviravolta da narrativa. Docemente, a mulher confessa que está ali só para buscar migalhas, só restos, pão perdido. Poderosamente, a mãe acredita com todo o seu ser que para o Deus de Jesus não há filhos e não-filhos, seres humanos e cachorrinhos. Mas só fome e criaturas a saciar; que o Deus de Jesus está mais atento à dor dos filhos que ao seu credo, que prefere a sua felicidade à fidelidade.

Jesus está fulgurado, comove-se: mulher, grande é a tua fé! Ela que não vai ao templo, que não lê as Escrituras, que reza aos ídolos cananeus, é proclamada mulher de grande fé. Não conhece o catecismo, todavia mostra que conhece Deus por dentro, sente-o pulsar na profundidade das suas feridas do seu coração de mãe. Sabe que «faz chaga no coração de Deus a soma da dor do mundo» (G. Ungaretti).

A dor é sagrada, há ouro nas lágrimas, há toda a compaixão de Deus. Pode parecer uma migalha, pode parecer pouca coisa a ternura de Deus, mas as migalhas de Deus são tão grandes como o próprio Deus. Grande é a tua fé!

E hoje continua a ser assim, há muita fé na Terra, dentro e fora das igrejas, sob o céu do Líbano como sob o céu de Nazaré, porque grande é o número das mães do mundo que não sabem o Credo, mas sabem que Deus tem um coração de mãe, e que misteriosamente lhe prenderam e guardaram um fragmento.

Sabem que para Ele a pessoa vem primeiro que a sua fé. Seja como desejas. Jesus realça o pedido da mãe, restitui-lhe: és tu e o teu desejo que mandam. A tua fé e o teu desejo de mãe, uma fração de Deus, ardente (cf. Cântico 8,6), são verdadeiramente um ventre que dá à luz milagres.

 

 Ermes Ronchi

 

ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

No século VI, a festa da Dormição já era celebrada no Oriente, pelos meados de janeiro. Mais tarde, o imperador Maurício (582-602) veio a fixá-la, definitivamente, a 15 de agosto.

A festa chega a Roma graças ao papa Teodoro (642-649), originário de Constantinopla. Aos poucos, difunde-se no Ocidente: em 813. Progressivamente, a festa vai tomar o nome de Assunção, ainda que haja diferença entre Assunção e Dormição, e a Igreja não sente a necessidade de tornar esta crença em dogma.

É após a proclamação, por Pio IX, do dogma da Imaculada Conceição, na grande corrente de devoção mariana do século XIX, que começam a afluir a Roma petições para que seja oficialmente definido o dogma da Assunção. Entre 1854 e 1945, oito milhões escrevem à Santa Sé neste sentido. Números aos quais se acrescentam as petições de 1322 bispos (representando 80% das sedes episcopais) e 83 mil padres, religiosos e religiosas.

Perante estes repetidos pedidos, Pio XII, através da encíclica Deiparae Virginis, publicada em maio de 1946, pede a todos os bispos do mundo para se pronunciarem. A resposta é quase unânime: 90% são favoráveis. A maior parte dos 10% restantes interrogam-se sobre a oportunidade dessa declaração, e só seis bispos emitem dúvidas sobre o carácter “revelado” da Assunção de Maria.

A proclamação do dogma é acompanhada de celebrações grandiosas. Trata-se, até hoje, do único caso em que a infalibilidade pontifícia, tal como foi definida no concílio Vaticano I, foi concretizada.

A Assunção (do latim ad-sumere, tomar para si, assumir, distinguindo-se de ascensão (subir, elevar-se), referida a Jesus) sublinha a iniciativa divina – Maria não se eleva por si, mas é assumida por Deus.

Primeira criatura humana a entrar com o seu corpo e alma na glória de Deus, Maria prefigura o que espera o final dos tempos para as pessoas salvas. Esse mistério, que poderíamos denominar da nossa transfiguração, já está presente em nós. Como Maria, ele conduzir-nos-á aos pés da cruz, e será aí que a nossa fé será verdadeiramente colocada à prova, mas também será junto dela que escutaremos: «Eis a tua mãe» (João 19,27).

A solenidade da Assunção constitui também um contraponto ao «risco de considerar que se encontra aqui, neste mundo onde só estamos de passagem, a derradeira finalidade da existência humana. Ao contrário, o Paraíso é a verdadeira meta da nossa peregrinação terrena.

Como seriam diferentes os nossos dias, se fossem animados por esta perspetiva! Assim foi para os santos. As suas existências testemunham que quando se vive com o coração constantemente orientado para o céu, as realidades terrenas são vividas no seu justo valor porque são iluminadas pela verdade eterna do amor divino» (Bento XVI).

 

Rui Jorge Martins

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

As férias podem ajudar-nos a reaprender a estar sozinhos, sem meios tecnológicos ou redes sociais, sem ruídos ou interrupções, diante de uma bela paisagem ou escutando o canto dos pássaros. Recuperar os hábitos de leitura, deixando guiar a nossa imaginação por uma corajosa aventura ou seguindo a trama de um romance. Encontrar tempo de qualidade para aprofundar a nossa relação com Deus, deixando que o silêncio da oração nos devolva a paz.

 P. Lourenço Eiró sj


 

INFORMAÇÕES

 

RECEITA

A Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem do Portal teve a receita de 740,00€.


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nº 1015

Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

Educar é produzir um homem feliz e sábio. Educar é produzir um homem que ama o espetáculo da vida. Desse amor, emana a fonte da inteligência. Educar é produzir uma sinfonia em que rimam dois mundos: o das ideias e o das emoções.

 

Há dois tipos de educação: a que informa e a que forma. A educação que informa ensina o homem a conhecer o mundo em que habita; a educação que forma vai além, ensina-o também a conhecer o mundo que ele é.

Augusto Cury

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