Nº 419

 

A LIÇÃO DA PALMEIRA

Não sei porquê, mas a palmeira é como que uma explosão de vida.

Os seus ramos abrigam vida. A vida de muitas dezenas de aves, pequenas, alegres, barulhentas e brincalhonas.

Pela aurora começa a festa com o encanto de alegres chilreios, chamando uns pelos outros para o alvorecer do dia, desfiando para o primeiro voo matinal. De vez em quando lá sai um e volta a poisar como que querendo acordar os mais preguiçosos. Anunciam a chegada do dia a toda a vizinhança.

Durante o dia é um vai e vem à palmeira. Trazem o alimento aos mais novos e aproveitam para um breve descanso.

À tarde é uma festa. Chegam mais barulhentos procurando o melhor lugar para passar a noite e contando uns aos outros as aventuras do dia.

É assim a vida na palmeira e ela lá está sempre pronta e paciente para a todos receber e proteger em seus ramos.

A palmeira dá segurança, abriga na noite,

Lá de cima observam a terra onde esticaram as suas robustas raízes para se levantarem direitas ao céu. Os seus ramos esvoaçam ao vento e desafiam as nuvens. Acolhem de mansinho a necessária chuva para o seu crescimento.

Os ramos mais novos parecem mãos postas a olhar o criador.

Elas são altas e robustas. Testemunham a vida de um povo pela antiguidade que me parecem ter.

Quase todos os dias, pela tarde, gosto de observar a vida nestas palmeiras, ao amanhecer só acontece às vezes. Parece-me que nos conhecemos bem.

Falo assim da palmeira porque tenho por companhia três, que me habituei a contemplar e a seguir a sua alegre vida.

Porque são três, fazem-me lembrar a Família Trinitária. Mistério de vida.

A palmeira abre os seus ramos a toda a vida que a procura. Dá segurança e confiança. Ergue-se ao céu a indicá-lo a todos. É robusta, bem enraizada.

A lição da palmeira é interessante. Abrir a vida a todos para acolher e abraçar. Saber que não sou sozinho mas com os outros. Fundamentar bem a vida com seriedade e confiança pondo de lado o que não edifica e nem dignifica a pessoa humana.

A lição da palmeira é interessante porque diz que não podemos estar só a olhar a terra mas temos de ter a ousadia de olhar e orientar a vida para o alto. Para o céu.

                                             Pe. Manuel António

 

A Palavra de Deus que nos é proposta neste domingo leva-nos a reflectir sobre o protagonismo que Deus e as suas propostas têm na nossa existência.

A primeira leitura põe frente a frente a auto-suficiência daqueles que prescindem de Deus e escolhem viver à margem das suas propostas, com a atitude dos que escolhem confiar em Deus e entregar-se nas suas mãos. O profeta Jeremias avisa que prescindir de Deus é percorrer um caminho de morte e renunciar à felicidade e à vida plenas.

O Evangelho proclama “felizes” esses que constroem a sua vida à luz dos valores propostos por Deus e infelizes os que preferem o egoísmo, o orgulho e a auto-suficiência. Sugere que os preferidos de Deus são os que vivem na simplicidade, na humildade e na debilidade, mesmo que, à luz dos critérios do mundo, eles sejam desgraçados, marginais, incapazes de fazer ouvir a sua voz diante do trono dos poderosos que presidem aos destinos do mundo.

A segunda leitura, falando da nossa ressurreição – consequência da ressurreição de Cristo –, sugere que a nossa vida não pode ser lida exclusivamente à luz dos critérios deste mundo: ela atinge o seu sentido pleno e total quando, pela ressurreição, desabrocharmos para o Homem Novo. Ora, isso só acontecerá se não nos conformarmos com a lógica deste mundo, mas apontarmos a nossa existência para Deus e para a vida plena que Ele tem para nós.

(Dehonianos)

 

NA HORA...

 

E a Humanidade inteira,

de olhos novos e de mãos dadas,

diante da face de Deus sussurrou: "Obrigado por Jesus!"

 

E fez-se um silêncio cheio.

E o Silêncio, inesperadamente, foi rasgado pela voz de Deus

que disse, encantado, à Humanidade que estava diante da Sua face: "Obrigado por Jesus!"

 

E o Silêncio fez-se rumor, e o rumor exaltação,

e o "Obrigado" dos Homens, dançando ainda no ar,

abraçou-se num rodopio ao "Obrigado" de Deus

enquanto Jesus, voando espalhado na brisa do Espírito,

escrevia nos céus de todos os mundos o nome dessa Hora: Aliança.

 Rui Santiago do Blogue Derrotar Montanhas

 

CONTO (290)

 

A ÁRVORE TRISTE

Era uma vez uma bela quinta onde existia toda a espécie de árvores de fruto: macieiras, laranjeiras, pereiras e outras mais. Havia também um jardim com variadas flores, predominando as rosas.

Quando se entrava nessa quinta respirava-se alegria, pois cada árvore procurava dar o que tinha de mais belo: os saborosos frutos. Também as roseiras alegravam o ambiente com a sua cor e o seu perfume.

Contudo, havia uma árvore que vivia muito triste por causa de um problema de identidade: não sabia quem era!

Queixou-se à macieira e esta disse-lhe:

- Se queres viver feliz, faz um esforço de interiorização, convence-te que és uma macieira e poderás ter saborosíssimas maçãs. Verás como é fácil.

A roseira que ouviu a conversa, disse-lhe:

- Não faças caso do que disse a macieira. É mais simples para ti dar rosas. Vês como elas são lindas. Terás rosas e serás feliz.

A árvore triste ouviu ainda o conselho de outras árvores. Todas lhe recomendavam o mesmo: que as imitasse e desse frutos iguais aos seus. Se elas viviam felizes, também ela seria feliz.

Em seguida, experimentou fazer o que lhe diziam mas foi um desastre. Não conseguiu dar maçãs, nem rosas, nem laranjas. Por isso, sentia-se cada vez mais frustrada.

Um dia, passou por ali um mocho, a mais sábia das aves. Ao ver o desespero da árvore triste, exclamou:

- Não te preocupes, porque o teu problema é o problema de muitos seres que habitam sobre a terra.

A árvore triste perguntou:

- E qual a solução para este problema?

O sábio mocho respondeu:

- Não passes a vida a procurar ser o que os outros querem que tu sejas. Conhece cada vez melhor a tua identidade e sê tu própria.

- E que hei-de fazer para conhecer a minha identidade?

- Escuta a voz interior que fala no teu íntimo. Ela te dirá quem és tu.

Dito isto, desapareceu. A árvore, ao cair da tarde, quando o silêncio cobria a quinta, fechou os olhos e os ouvidos. Ouviu então uma voz interior que lhe dizia:

- Tu nunca darás maçãs porque não és uma macieira; nunca florescerás na Primavera porque não és uma roseira. Tu és uma carvalho e o teu destino é cresceres grande e majestoso. Darás abrigo às aves, sombra aos viajantes, beleza à paisagem. Tu tens uma missão própria e deves cumpri-la.

A árvore triste, pouco a pouco, foi assumindo a sua verdadeira identidade de carvalho. Cresceu e, passados alguns anos, era uma árvore admirada e respeitada por todos. Sentia-se feliz.

In  CONTOS+MENSAGENS  de Pedrosa Ferreira

 

 

As pessoas afivelam uma máscara, e ao cabo de alguns anos acreditam piamente que é ela o seu verdadeiro rosto. E quando a gente lha arranca, ficam em carne viva, doridas e desesperadas, incapazes de compreender que o gesto violento foi a melhor prova de respeito que poderíamos dar.

(Miguel Torga)

 


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