Nº 1023

 Tudo volta!

Percebemos pouco de como a vida funciona. Às vezes parece-nos que as pessoas boas sofrem mais do que as más. Parece-nos que tudo é arbitrário. Que aquilo que fazemos não tem qualquer efeito neste mundo robotizado, e excessivamente tecnológico, em que vivemos.

Não compreendemos que tipo de pessoas são, afinal, premiadas e vangloriadas num mundo em que todos os valores parecem ter definhado. Quase somos tentados a pensar: de que vale a pena fazer o bem, ser competente, trabalhador e criativo se, na verdade, são os graxistas, incompetentes e arrogantes que são levados em braços? De que nos vale dar a outra face e esfolá-la das feridas alheias se, no fim, nada parece correr-nos bem ou resultar para nós como gostaríamos?

Na verdade, é o nosso raciocínio que não está certo. Não temos de ser premiados por fazer o que está certo. Não temos que ser carregados em ombros alheios por fazer o bem. Não temos o direito de descontar as dificuldades que vamos tendo no muito que julgamos fazer. O nosso motivo para fazer o bem deve ser apenas esse: saber que é isso que constitui o nosso dever. É essa a nossa (verdadeira) vocação.

Fazer o bem não faz barulho. Não provoca sinais luminosos de muitas cores nem origina fogos de artifício de encher olhares e de romper vistas.

Fazer o que está certo deve (e tem de) chegar. É suficiente.

Se assim é, por que razão a vida não nos corre melhor? Não (nos) acontece de formas mais favoráveis e, até, mais justas?

Porque a vida tem o seu curso, como um rio. Ensinar-nos-á o que precisarmos de aprender. Far-nos-á crescer à custa de muita dor e de muito sofrimento. Mostrar-nos-á que os prémios não têm qualquer valor quando a recompensa é maior do que a própria vida, como a conhecemos neste mundo.

Enquanto caminhamos, muitas vezes sem sabermos bem para onde nos dirigimos, espero que nos seja possível lembrar que tudo o que é nosso há de ser nosso quando for o tempo. Tudo o que fizermos, ser-nos-á devolvido em dobro e tudo o que dermos será dado como retorno, quando for o dia.

Como diria alguém que conheço: “tudo está como deve estar”.

E eu acrescento: e ainda bem.

Marta Arrais

 

 

MEDITAR

Aprender da sabedoria das árvores

Naqueles dias, o Sol obscurecer-se-á, a Lua extinguir-se-á, as estrelas cairão do céu (Marcos 13, 24-32)… O universo é frágil na sua grande beleza, mas «aqueles dias» são estes dias, este mundo obscurecer-se-á com as suas trinta e cinco guerras em curso, a Terra extingue-se envenenada, intermináveis caravanas humanas migram através de mares e desertos… Parece-te um mundo que se afunda, que anda à deriva? Vê melhor, vê mais a fundo: é um mundo que caminha para o renascimento.

Jesus ama a esperança, não o medo: aprendei da figueira: quando o seu ramo se torna tenro e despontam as folhas, sabei que o verão está próximo. Jesus conduz-nos à escola das plantas, para que as leis do espírito e as leis profundas da realidade coincidam. Cada rebento assegura que a vida vence sobre a morte.

Aprendei da sabedoria das árvores: quando o ramo se torna tenro… No inverno não imaginamos o amolecer do ramo; o seu amaciamento pela linfa que torna a encher os pequenos canais é uma surpresa e um espanto antigo. As coisas mais belas não são para procurar, mas para esperar. Como a primavera. E despontam as folhas, e tu não podes fazer nada; ou talvez sim: contemplar e proteger.

Então compreendereis que o verão está próximo. Na realidade, os botões indicam a primavera, que no entanto, na Palestina, é brevíssima, poucos dias e logo depois é o verão. Assim também vós sabereis que Ele está próximo, está à porta. Deus é próximo, está aqui; belo, vital e novo como a primavera do cosmo.

De um rebento aprendei o futuro de Deus: que está à porta e bate; vem não como um dedo apontado, mas como um abraço, um germinar humilde de vida. «Todo o mundo é uma realidade germinante» (R. Guardini).

Então sinto-me como uma barca, que deixou de estar ansiosa pela rota a seguir, porque sobre ela sopra um Vento de Céu, e a lâmpada da Palavra está acesa à proa. Passam o Sol e a Lua, que são o relógio do universo, esfarela-se a Terra, mas não as minhas palavras, são um Sol que nunca declinará dos horizontes da História, do coração do ser humano.

Somos uma geração de lamentos, que deixou de saber agradecer, que dissipou os profetas e poetas, os enamorados e os bons. E todavia são eles a parábola, o rebento, ramo de figueira ou de amendoeira do mundo salvado. São-no aqui e agora, sobre a Terra inteira e dentro da minha própria casa, como rebentos bons, embebidos de Céu, impregnados de Deus. Quem me quer bem é lâmpada para os meus passos.

Olhai bem, uma gota de luz está intrincada em cada ruga, um grama de primavera e de futuro está enraizada em cada rosto. A fé repete-me que Deus está à porta, está próximo, está aqui, está neles. «Cada um é um próprio momento de Deus» (D. M. Turoldo).

Ermes Ronchi

 

Que assim seja!

Fui ao Teu encontro e recebeste-me nos sorrisos, gestos e palavras daqueles que, nem sei porquê, se alegram por me ver. Sentei-me a observar-Te naqueles que pões no meu caminho e perdida em pensamentos a contemplar a cruz onde Te entregaste por mim (Cf. Gal 2, 20), meu peito exultou de alegria (Cf. Lc 1, 44).

Alegria de quem se deixa encontrar, tocar e transformar por Ti. Alegria do leproso que prostrado Te pede para o purificares se quiseres e a quem respondes: “Quero, fica purificado” (Cf. Mt 8, 2-3). Alegria da mulher hemorroíssa que sofria há 12 anos e que confiou que bastar-lhe-ia tocar a orla do Teu manto para ficar curada e a quem livraste do sofrimento dizendo: “Filha, a tua fé  salvou-te. Vai em paz” (Cf. Lc 8, 43-44.48). Alegria da mulher que lavou com lágrimas os teus pés, enxugou-os com seus cabelos, ungiu-os com perfume e beijou-os com arrependimento e de quem disseste, restituindo-lhe a sua dignidade, que lhe eram perdoados os seus muitos pecados porque muito amou (Cf. Lc 7, 44-48). Alegria de tantos anónimos como eu que salvas por amor.

Torrentes de gratidão inundaram-me por me saber novamente em casa, como aquele filho perdido, cujo Pai ao vê-lo a regressar, enche-se de compaixão, corre a lançar-se-lhe ao pescoço e cobre-o de beijos (Cf. Lc 15, 20). Abraçada, beijada, perdoada e com a cabeça recostada no Teu regaço sussurrei-Te novamente o meu fiat, ainda trémulo e tímido. Quero deixar que se faça em mim segundo a Tua palavra (Cf. Lc 1, 38), por nenhum outro motivo que o de querer o que Tu queres. Não percebo porque me chamas nem para quê, mas se é a mim que queres, como posso não corresponder ao amor que me restitui e ao sopro que me recria e me anima? Eis-me, então, aqui, pois  chamaste-me (Cf. 1Sam 3, 5).

Purifica-me, Senhor, das minhas inseguranças, desconfianças e medos no sangue que derramaste por mim, ó cordeiro imolado, ó vítima de expiação sem mancha (Cf. Heb 9, 14). Renova comigo a Tua aliança (Cf. Mc 14,24), Tu que tens entranhas de compaixão e que me amas apesar de mim.

 Capacita-me para responder com amor e alegria e fervor ao Teu apelo e conduz-me ao estado que sonhaste para mim, pois sei que só na obediência da Tua vontade encontrarei a plenitude do meu viver.

 Alimenta-me do pão da vida e do vinho da salvação para que os meus passos não vacilem a caminho de onde me quiseres levar. 

 Saiba eu beber do cálice que me ofereces sem dele me querer afastar (Cf. Mc 14, 36) e ser, como exorta S. Paulo, alegre na esperança, paciente na tribulação e perseverante na oração (Cf. Rm 12, 12).

 Fica comigo, Senhor, e ainda que não seja digna que entres na minha morada (Cf. Mt 8,8), habita-me no sacrário do meu coração. 

Raquel Dias

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

A gratidão é a virtude humana por excelência. Por um pouco que a deixemos aflorar, a gratidão irá abrindo caminho, pacificando o nosso coração e fazendo emergir, ao mesmo tempo, o melhor que há em nós.

A gratidão é um sentimento profundamente terapêutico: ela afasta-nos dos obscuros pensamentos e  situa-nos na terra firme da presença, em sintonia com o presente.

 

P. Adroaldo Palaoro, sj


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Pensamento da Semana

 

PENSAMENTO DA SEMANA

 

Senhor, dá-nos a alegria de viver a nossa vida, não como um jogo de xadrez; onde tudo é calculado;
não como uma competição onde tudo é difícil;
não como um teorema que nos quebra a cabeça,
mas como uma festa sem fim onde o nosso encontro se renova,
como um baile, uma dança, entre os braços da tua graça, na música universal do teu amor.
Senhor, vem tirar-nos para a dança.

Madeleine Delbrê

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